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– Artigo de opinião

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Opinião

“Iniquidade?

Vasco Pulido Valente

O sr. Presidente da República, entre a dissolução da Europa e uma viagem quase de circo ao Brasil e Venezuela, resolveu criar um problema que o país não tinha ou de que, pelo menos, não se tinha lembrado: o da divisão de Portugal entre o funcionalismo público e o partido dos trabalhadores privados. Não há, nem nunca houve, tal divisão. Mas Cavaco gosta de mostrar que sabe palavras difíceis (neste caso, “equidade”) e estabeleceu por aí uma polémica, que certos comentadores (do enxame que nos caiu em cima) levaram a sério. Aparentemente, a direita neoliberal odeia o Estado e a gente que lá ganha a vida e os pobres da “sociedade civil” sustentam essa abjeta classe de mandarins. Que ninguém na posse do seu juízo pense uma coisa dessas não contribuiu até agora para desanimar conversa.

O que se diz, de facto, é que o funcionalismo público adquiriu, e com alguma razão, muito má fama. Parte dela é infelizmente histórica. Basta abrir um livro do século XVIII, XIX ou XX, para encontrarmos velhas queixas contra a dimensão e a corrupção do funcionalismo, que nessa época incluía o próprio judicial. Segundo uma velha lenda, em 1820 existiam na Relação do Porto 70 desembargadores; e cem anos mais tarde António Sérgio (hoje inteiramente esquecido) definia a I República como “um regime de comunismo burocrático. Neste capítulo, a II República ficou nos cânones tradicionais: que podia ele fazer aos milhares de licenciados que lhe batiam à porta, senão compungidamente arranjar um emprego para cada um e, depois, pretender que precisava deles.

O “Estado social” ou, como dantes lhe chamavam, “o modelo social europeu” exigia, como é óbvio, técnicos. Mas, para nosso mal, nasceram do chão multidões de pretendentes sem qualquer qualificação útil, a não ser o seu compreensível desejo de ganhar e de subir na vida. Como dispor deles, quando faltou dinheiro para lhes pagar? O despedimento era, e é, legalmente impossível. A única solução, como insinuou delicadamente Medina Carreira, estava em, pouco a pouco, tornar a situação de funcionário público mais desagradável: reduzindo ordenados, suprimindo subsídios, removendo privilégios até se estabelecer um equilíbrio entre os serviços que os portugueses não dispensam e os meios que o Estado conseguir arranjar. Será isto uma iniquidade, como acha o funcionário público Cavaco Silva, ou o princípio da moderação e do bom senso?”

(Vasco Pulido Valente, in Público, 28 de Outubro de 2o11)

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“Num artigo de opinião o autor exprime pontos de vista subjetivos relativamente a assuntos que, por qualquer razão, despertaram o seu interesse. A amplitude dos estilos e temáticas ao fazer-se opinião varia muito, podendo ir desde o texto leve e bem humorado sobre os costumes, ou a falta deles, até à análise dura e rigorosa de acontecimentos, relacionando factos aparentemente díspares e deles retirando deduções e conclusões.

Tanto no estilo mais ligeiro como nos mais lógico e silogístico objetivo de quem faz opinião continua a ser o mesmo:

  • afirmar determinadas posições pessoais, aduzindo argumentos a esse favor
  •  levar os outros a aderirem a tais teses ou conclusões.

A opinião distingue-se muito claramente da notícia porque não serve para fornecer informações novas, ou dar notícias. O seu objetivo é lançar o debate e esclarecer o público. Por outro lado, através das capacidades de análise do opinante, muitas vezes tais textos procuram chamar a atenção para determinados aspetos das notícias que tendem a passar despercebidos, e que não podem, pela sua natureza, ser tratados na própria notícia.

Os textos de opinião são pessoais e inteiramente subjetivos, mas também trazem em si uma pretensão de validade se não universal, pelo menos intersubjetivamente alargada. Quem escreve um artigo de opinião está ciente da parcialidade da suas posições, mas, simultaneamente, admite e deseja que estas sejam partilhadas e adotadas por um grande número de recetores dessa opinião – esse é o sentido da argumentação: converter, convencer, arregimentar.

Quase não há regras para escrever um bom texto de opinião, e já vimos que quer quanto à forma quer quanto à temática os textos podem variar muitíssimo. Uma coisa, porém, convém ter em mente: quem escreve um artigo de opinião deve ter algo importante para dizer aos leitores do jornal, e não deve contentar-se com grafar um chouriço por esse ser, de todos, o género mais fácil de manipular e falsificar, ao prescindir da investigação e entrevista. De resto, as opiniões valem o que vale quem as enuncia, e os critérios editoriais da publicação deverão, evidentemente ter isso em conta. “

(Anabela Gardim, Manual de Jornalismo, Covilhã, Universidade da Beira Interior, 2000)

Concluindo:

  • No artigo de opinião, o autor expõe a sua posição pessoal sobre um determinado assunto.
  • O autor do artigo de opinião pretende levar o leitor a partilhar as suas posições.
  • O artigo de opinião é diferente da notícia porque a notícia esclarece o público, ao contrário da opinião.
  • A posição do autor do artigo de opinião é parcial.
  • Os artigos de opinião variam muito quer no conteúdo que na forma.
 

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