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SABORES DA LÍNGUA

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O ACORDO NÃO É Ó(P)TIMO

“O Brasil é um lugar muito perigoso. Perigoso não por causa de bandido dando tiro na favela ou de assalto e arrastão. Perigoso por causa da língua. Do modo redondo e rotundo, aberto e gargalhado, cantado e rolado como a língua portuguesa é falada aqui. Pergunto-me quanto tempo duraria numa cidade como o Rio (que faz no dia em que escrevo 444 anos, com festa e bolo de aniversário de 4.44 metros oferecido no Cristo Redentor) o meu português clássico, aprumado e cheio de regras e consoantes mudas e cês cedilhados, o nosso belo e excelso português engravatado, bebido e comido em Eça, Cesário, Pessoa e O’Neill. Ou noutros, os autores e livros que definem a língua que falamos e escrevemos. O pior é que essa bela herança chega ao Brasil e se desata como um corsete; é como quem rebenta os colchetes e abre as fitas e fivelas e desaperta os nós e respira fundo. A oralidade é o diabo.

Começo por abrir as vogais como quem vai abrindo caixinhas chinesas e em breve adiro ao domínio absoluto da vogal sobre a consoante. Absoluto, por exemplo, que em português de Portugal é uma palavra absolutamente dependente da consoante, aquele b vincado, aquele s sibilado, aquele t fechado, aqui vira (vira é fica), aqui fica uma palavra absolutamente livre e absolvida do pecado da boca franzida na pronúncia. Isto é um perigo, rapidamente a língua de Portugal vai embora e se deixa seduzir e substituir pela língua do Brasil, que sendo portuguesa é tão brasileira como o Carnaval. Eu acho que é o calor dos trópicos que faz abrir as vogais desbragadas e adoçar as arestas dos verbos. A língua solta-se do mesmo modo que a pessoa se solta. (…)

Nós, os portugueses. Autores originais da língua. Os mesmos que deram à luz esta gente doida que abre as vogais e a cabeça e rebenta de folia. Que ironia. O génio português está por aí algures, nessa miscigenação. O Brasil é muito perigoso, porque o português vira alegre. Crioulo. Índio. Mulato.

Ao cabo de dias de furiosa resistência a palavras como:

  • estrogonofe e mocotó,
  •  grana e sacapo
  • enredo e maluquice
  • sambista e balconista
  • cachê e batizado
  • laquês e paetês
  • bagunça e bagaceira
  • prêmio e boêmio
  • curtido e planejado
  • papo e cachorro
  • paquera e rabada (uma comida), 
  • bebê e termômetro
  • sujeito grosso e criador de caso
  • tomar um porre e pegar um bode (danados os dois), a gente acaba por abrir (abrindo) as vogais e as deixar (deixando) de pegar no vocabulário com pinças, arrastando as sílabas das frases na pronúncia brasileira.

O mesmo se passa com o Acordo Ortográfico. No princípio resisti, com algumas das razões apontadas pelos resistentes ao Acordo, razões misturadas com a resistência à imposição no território fluido das línguas e respetivas grafias. Nenhum Acordo seria perfeito e agradaria a todos os falantes e utilizadores da língua portuguesa. Com o tempo e a computação, o domínio da língua escrita e falada em mensagem de computador e simplificada pelos outlets digitais e eletrónicos, a uniformização da grafia só pode beneficiar a língua e promover o seu prestígio e divulgação, facilitando as relações da nossa língua comum com as línguas mais usadas e faladas. Sou a favor do Acordo. Com a ressalva de que entendo a violência inicial em passar de óptimo a ótimo e de baptista a batista, ficando o português de Portugal um pouco sob a alçada do Brasil. E nem podia ser diferente, dada a diferença de escala. Eles são quase 190 milhões, fora as reverberações do português falado em África ou nas comunidades de imigrantes. Nos resíduos de Macau e Timor. O Acordo não é óptimo. Talvez seja ótimo, e a ele nos habituaremos, sobretudo os escritores, quem mais sofre com a violência do clássico despindo a gravata e o colete.

O Brasil arrasta-nos. O verdadeiro perigo é o de chegar aqui e ficar pronunciando gerúndios com sotaque de Chico e Caetano, Vinícius e Jobim. Fora daqui, o nosso português fica como é. Bonito, às vezes um pouco triste, um pouco chato (basta ver um congresso de partido político). Às vezes picuinhas. Vernáculo. Encovado. E agora vou subir no Corcovado.”

(Clara Ferreira Alves, Expresso, 7.3.2009)

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ACORDAR O ACORDO

“Não sou propriamente entusiasta do Acordo Ortográfico. Na verdade, e confesso-o com alguma vergonha, já que sendo jornalista teria a dupla obrigação de me informar e de me formar, tenho sido uma resoluta ignorante em relação a tudo o que lhe diz respeito. Fiz gala de não querer saber. No Diário de Notíciasderam a todos os jornalistas um livrinho com as novas regras: agarrei nele, levei-o para casa e larguei-o em cima de uma pilha qualquer de livros, sem quase o abrir.

As razões deste comportamento são mais ou menos óbvias e abordadas na introdução do primeiro livro que li (realmente li) sobre o acordo, Saber Usar a nova Ortografia, da tripla Edite Estrela, Maria Alzira Soares e Maria José Leitão: é o vínculo afetivo à língua como a conheço, às palavras como as memorizei, à sua estética e contorno, mas também, admito-o, pura preguiça. Dá-me maçada reaprender grafias, parar para pensar no meio de um texto, hesitar na composição de uma frase. As palavras não se escolhem apenas pelo sentido, mas pelo seu som, ritmo, desenho. Gosto de umas e odeio outras; agora que o acordo vai entrar em vigor e me verei obrigada a conhecer os seus ditames, odiarei umas mais e talvez me reconcilie com algumas.

Percebo muito bem Teixeira de Pascoais e o seu lamento (a propósito da reforma ortográfica de 1911) sobre o fim do y em abysmo e lyrio, como me revolto por cair o p em Egipto quando, ainda por cima, se mantém em egípcio, ou me arrepio por actor, com c, deixar de o ter, ruptura passa a rutura (e assim se confundir com rotura com o) ou, incompreensível para mim, infeccioso, cujo primeiro c sempre li, poder ser agora infecioso. e fico irremediavelmente decepcionada por decepção passar a deceção. Sei, claro, que me habituarei: não é a primeira vez, longe disso, que a grafia muda e as pessoas se habituam.

Aliás, confesso que não alinho na maioria das críticas que têm sido feitas a este acordo, baseadas em simples e tacanho conservadorismo, em mero oportunismo politiqueiro ou, pior, em nacionalismos inflamados e a roçar a xenofobia que não se ensaiam em falsear os factos, com c, que as consoantes não mudas não caem. Este tipo de argumentação tem a virtude de me conseguir quase reconciliar com a ideia de que vou levar mais tempo a escrever e a escolher as palavras, e que vou franzir muitas vezes o sobrolho durante a leitura, indecisa sobre a correção do que se me depara. Qualquer batalha contra o obscurantismo me conquista, e tanto mais se temo albergar em mim resquícios dele.

Além disso, e descobri-lo a ler este livro que é a minha incursão na nova ortografia, há coisas no acordo que me agradam. Muito. Por exemplo, o fim das maiúsculas em várias denominações.

Sou feroz adversária e sobretudo da respetiva utilização como certificado de importância e vénia (nunca percebi por que motivo governo, ou presidente, ou cardeal haviam de ostentar maiúscula), aplaudo a novidade com entusiasmo. e constato que há várias outras alterações que fazem sentido, tanto porque não havia já realmente justificação para a anterior grafia, como porque simplificam a escrita e diminuem a possibilidade de erro (e nesse sentido gostaria que se tivesse ido mais longe nos hífenes,  sem dúvida uma das maiores complicações da língua portuguesa).”

Notícias Magazine, 2011

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BRINCAR COM A LÍNGUA

“Quando pensamos numa língua, muitas vezes a vemos de forma sisuda que na escola nos ensinaram a encará-la, com aquelas regras chatíssimas de gramática que parecem talhar um fato apertado que a sufoca. Afinal essas regras podem não ser tão antigas assim e dependem das brincadeiras que fazemos com a língua. E as influências que estão por trás de muitas modificações nem sempre são conhecidas de todos os utentes. Vou exemplificar apenas com algumas palavras que a maior parte dos falantes em Português nem desconfiam nem nunca se perguntaram de onde vem. Será que o pescador de fim de semana que na praia de Carcavelos, em Portugal, enfia uma minhoca no anzol para servir de isca, pensará que essa palavra minhoca afinal quer dizer cobra pequena e derivou do Kimbudu de Angola?

Será que o brasileiro que xinga outro pensará que a ação que realiza se designa assim por causa da palavra kuxinga do mesmo Kimdundu, que quer dizer exatamente a mesma coisa?

Os estudiosos conhecem as centenas de palavras que do árabe derivam para o Português, as que vieram das línguas da Índia, de Moçambique ou dos dialetos do Brasil. Mas os utilizadores da língua desconhecem que esses vocábulos, hoje reconhecidos como fazendo parte do Português, algum dia nele entraram porque havia pessoas que lhes pareciam mais adequados para exprimir qualquer coisa. Por exemplo, António de Oliveira Cardonega, autor do livro História Geral das Guerras Angolas, de 1680, farta-se de pegar em palavras Kimbundu ou Kikongo e declina-as em Português, introduzindo-as sem aspas nem itálico no discurso. Muitas dessas declinações não ficaram na língua que hoje usamos. Mas não teriam ficado se o livro dele fosse publicado no século XVII e não apenas neste? Diríamos talvez canzar e arimar em vez de saquear e cultivar, só para pegar em algumas palavras que ele muitas vezes utilizou.

Bendita língua que aceita brincadeiras!”

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 A ORTOGRAFIA TAMBÉM É GENTE

“As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Estremeço se dizem bem. Vieira, na sua fria perfeição de e não quem escreve mal português, engenharia sintática, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida. E, assim, muitas vezes escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras sucedendo-se a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um lugar de ideia bruxuleia, malhado e confuso. Há, porém, páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa seleta o passo célebre de Vieira sobre o Rei Salomão: Fabricou Salomão um palácio… Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, mas odeio com ódio verdadeiro

  • não quem não sabe sintaxe,
  • não quem escreve em ortografia simplificada,

mas

  • a página mal escrita, como pessoa própria,
  • a sintaxe errada, como gente em quem se bata, como o escarro direto que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida.”

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego)

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LÍNGUA E IDENTIDADE

“Referindo-se à América Latina e ao realismo fantástico da literatura latino-americana, o genial escritor argentino Júlio Cortázar disse, muito a propósito: uma casa não é uma casa, uma rua não é uma rua, nada é igual a nada; tudo pode ser natural e excecional. Ou seja: da mesma forma que eu, um dia, compreendi que em África uma aldeia se chamava quimbo ou sanzala e uma casa se dava o nome de cubata, percebo que a um veículo que roda sobre carris se pode chamar train (em francês), train (em inglês), trem ou bota-fogo em brasileiro, comboio em português do continente e carro de fogo nos Açores. Por uma muito idêntica lógica significativa, o antigo boieiro das ilhas pode muito bem ser, hoje em dia, o novo cowboy da América. A razão que levou os índios americanos a chamar o homem branco por rosto pálido não constitui, em si mesma, uma ordem ou uma orgânica literária. O realismo da literatura está todo na sua capacidade de designar e de sublimar a realidade. Percebi isso por mim, na minha própria vida. De alguma forma, tudo aquilo que vivi foi uma escrita anterior ou uma pré-escrita de literatura; e aquilo que fui escrevendo acabou por constituir-se na síntese, na memória e na pouca sabedoria da minha vida. Sobretudo, parece-me claro que nenhum escritor chega à compreensão do tempo, do lugar e da pessoa, sem primeiro entender e assimilar a sua linguagem. E na medida em que todos escrevemos e somos escritos, vivemos e somos vividos, nascemos e somos nados, morremos e somos mortos, assim também somos produtores e produtos da linguagem.

A língua pode muito bem ser uma pátria, como escrever Fernando Pessoa, porque como pátria se ganha, se perde, se adota, se repudia. Mas, antes de pátria, a Língua é sempre algo de mais íntimo: padrão e medida da nossa alma; referência da nossa arte; corpo, espírito, palavra e “Casa do Ser” –  na expressão de Holderin e de Heidegger; ou como no poema, sob o mesmo título, de Vitorino Nemésio:

Língua, Casa do Ser que lá não mora, /E, se chama, não está por morador, / Que só em nós o verbo se demora / Como sombra de sol e eco de amor. // Abrigo sim, porém sem teto, fora / De torre e porta, os muros no interior: / Assim a Casa assente rompe à aurora / para se incendiar com o sol pôr.

Tenho, pois, uma Língua pessoal, antes de ser coletiva; aprendida no tempo e na medida da minha vida –  e amada como único território do interior que ainda me pode levar à atitude e sagração da minha identidade. Nela forjei a cidadania, a consciência e a imaginação da minha portugalidade. Por isso, não compreendo a teoria do império da Língua, nem aceito que a gramática seja o centro do mundo.

A Língua Portuguesa deve entrar no desafio da sua universalidade. Mas para vencer esse desígnio, não pode sentir-se ofendida com aquilo que nomeia por “empréstimos” e que rejeita como uma espécie de lepra do espírito. libertemos a fonética e a semântica. Nenhuma unificação ortográfica se oporá à multiplicação do léxico. A única grandeza está nesta diversidade de ver e ouvir, na mesma língua, uma doçura brasileira, um verbo africano mal conjugado, um ditongo mais ou menos afrancesado numa ilha dos Açores, uma corruptela inglesa, francesa ou outra na boca de um emigrante americano, canadiano ou europeu.

E que viva a grande comunidade da Língua Portuguesa!”

in Dicionário de Paixões, D. Quixote, Lisboa

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O AROMA DA LÍNGUA

“Claro que o Português é uma língua maravilhosa. A prova é que o ladrão se me roubar eu encontro as palavras necessárias para lhe gritar atrás. Posso é não apanhar o ladrão nem recuperar a mala. Mas mesmo aí, fico com todas as palavras para me queixar; toda a sintaxe para expor, toda a morfologia para descrever a pessoa em causa e o facto ocorrido. E se ninguém me ligar, encontro todas as palavras para me revoltar e para dizer as frases que substituem a batida com a porta. Também para a ira, o ódio ou apenas o humor, nas ruas, contra os automobilistas inatacáveis, consigo encontrar todas as palavras. A revolta, a diatribe, o grito de rebeldia, a ameaça da vingança, estão ao nosso alcance. E para os outros, os sentimentos bons, os decentes, como são o amor, a amizade, a saudade, a coita, a melancolia, o despeito, a acédia, o desespero e o ciúme, também encontro as palavras que eu quiser. (…)

Por mim, aqui vou vivendo bem com a nossa língua de raiz rural e marítima. Passo pela rua e as palavras nascem das coisas com cheiro a maresia, a salmoura e a laranjas. ainda não inverti a realidade, ainda acho que o champô cheira a amoras, ainda não digo como os meus filhos que o laranjal cheira a champô. Mas não me importa o trato com o que chega, embora não fique indiferente ao que não exporto. De qualquer modo, também coche, o que eu sabia aparelhar, era francês, depois de ter sido checo e húngaro. E charrette, e cachecol e cache-nez. O chá era dos chineses, dialeto mandarino, e o café era árabe, turco,  depois italiano. E o lunch que veio de Inglaterra e ficou lanche, servido sob o bule que foi malaio.

Palavras que hoje são de todos, porque os objetos são de todos os que os usam, e os seus nomes importados, só por si, não atingem o coração das línguas. O coração de cada língua é que é inatacável. O nó górdio da sintaxe, o nó dos rios, ativos, passivos e reativos. As preposições, as formas de as pôr ou não pôr antes e depois, os modos de juntar as palavras de forma a criar outras, o modo de as sobrepor e despedaçar, esse sistema estruturante das línguas, que faz o idioma e o espírito, mostrável ela Gramática, não regido, isso é que constitui o órgão propulsor da Língua. O coração da Língua, o sistema duro, a sua parte mais estável, aquela sobre a qual se pode descansar.

Porque a Língua, ela, toda inteira, nunca parou nem pára, é um sistema em permanente corrupção. A Língua não precisa de sal. Apodrece com perfume. O aroma da Língua solta-se ao ser arejada, batida, entrada, removida, um sistema aberto, uma realidade mutável, consoante a várias outras realidades que a empurram e a definem, e já o disse, os usos são indomáveis.

Fiz parte daqueles que queriam implantar em vez de implementar, dos que quiseram espetáculo em vez de show. Em vão. A língua engrossa contra a vontade de cada um. E nós, aqueles que designam por escritores, banais como os banais falantes, vamos pelas partes moles da língua, andamos pelas margens corriqueiras e flácidas, metemo-nos pelos restos, pelas bordas, aproveitamos o que sobeja, o que de repente foge para diante, avessos aos sistemas de conservação, seguros de que o coração da língua enfraquece e esquece, se as franjas da semântica não se renovam.

E toda a vivificação é uma novidade, e toda a novidade, no início, uma corrupção. Também já o disse. O que ainda não disse é que, por vezes, assalta-me a absurda ambição de poder falar todas as línguas. Poder entrar na alma delas para perceber onde está a totalidade que as precede, ou se não as precede, pelo menos, a todas elas preside. A ambição de ficar na posse da natureza da fala. Na fantasia de poder tocar todas as língua sobre o vasto piano delas. Mas depois de obter essa impossível ciência, tudo o que o que soubesse e aprendesse, seria para falar e escrever em língua portuguesa.”

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SEMIÓTICA DO PALAVRÃO

“Em nenhum outro lugar do país se fala um português tão rico como no Porto. Perdoem-me os bem falantes de todas as latitudes, mas eu, que já morei em muitas terras, nunca vi acariciar as palavras como no Porto. E não me refiro às camadas cultas. Por mais que isto custe aos lusos doutores, na Invicta, o povo apoderou-se do Verbo. “No Porto?”, pasmará um lisboeta. “Eu quando lá vou só ouço palavrões!” Precisamente. Esse é um exemplo fascinante. No resto do país, os palavrões são usados em situações extremas, para mostrar desagrado por uma situação, ou para insultar alguém, que pretendemos rebaixar. e, usando-os, rebaixamo-nos a nós próprios também. É para isso que servem: para reduzir à obscenidade.

No Porto, os palavrões não são obscenos: são uma arte e uma filosofia. Não sei se algum analista analisou alguma vez este fenómeno. Mas valia a pena. Primeiro porque, no Porto, os palavrões são fieis à sua natureza – são vulgares e ordinários. Não são, como noutras regiões, raros e extraordinários. São de todos, e não de uma elite indecente. depois, porque servem para exprimir uma sabedoria.

A tática é esta: e digo-o com todo o respeito e admiração pela terra onde nasci): há um jogo de metáforas, todas elas referentes ao ato sexual, que servem para compreender a vida. É um universo alegórico em que o sexo não é mais do que um exercício utilitarista de dominação e humilhação, uma economia do dar e do receber, um negócio de favores, promessas e cobranças. Visto desta forma, a vida erótica comporta uma panóplia de situações que correspondem a outras tantas da vida em geral.

Atenção, trata-se de um jogo tácito, e não de um machismo empedernido ou de um marxismo de caserna. Por exemplo, se se disser que alguém “apanhou no c… e nem piou”, isto significa que foi vítima de um abuso tão descarado que nem teve tempo de protestar. a expressão aplica-se a situações tão variadas como ter pago um preço exagerado num restaurante ou ter sido despedido sem justa causa. Parte do princípio de que o sexo anal é um ato de prazer unilateral, que implica portanto a humilhação do sujeito passivo.

por outro lado, a expressão “tenho apanhado muito no c…” significa que já sofri muito na vida, pelo que estou preparado para grandes desafios. Uma expressão equivalente mas talvez ainda um pouco mais amarga é “eu já fiz muitos b…”.

Se alguém responder a um pedido ou uma proposta com a frase “na c… da tua tia!”, isso significa uma recusa peremtória, como quem diz “isso é que era bom!” ou “isso era o que tu querias!”, numa alusão ao eventual desejo subliminar e inconfessado de ter acesso às partes íntimas de figuras respeitáveis da família. Mas, se a frase for “até rima da c… da tua prima”, significa um sinal de cumplicidade. A simples alteração do grau de parentesco implica uma reviravolta semântica. É um jogo de subtilezas. Mais um exemplo: as elocuções “p… que te pariu” ou “filho da p…” são inequivocamente negativas, pois pressupõem que a mãe do interlocutor seria uma trabalhadora do sexo, pelo que o coito que deu origem àquele terá sido, não de amor, mas um ato mercantil. Pelo contrário, dizer “meu grande filho da p…” é um gesto de carinho, talvez por sugerir que o indivíduo em causa, por se ter comportado como um grande filho, merece o respeito e aproteção da sociedade, apesar das circunstâncias pouco auspiciosas em que foi concebido.”

(in Público)

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A NOSSA PÁTRIA NA MALÁSIA

“Há frases que se tornam independentes do seu corpo, o texto literário, o artigo, o discurso ou o poema, para alcançarem sempre a natureza sempre um tanto equívoca dos pensamentos prontos a servir. Fernando Pessoa deixou-nos pelo menos duas destas frases. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena” e “a minha pátria é a língua portuguesa.” Não são com certeza as frases mais luminosas de Pessoa. entre mil, porém, estas ganharam asas e andam agora por toda a parte, servindo aos mais contraditórios propósitos e aos mais diversos senhores. Há bocas que se abrem e a gente sabe: ou entra mosca ou sai Pessoa.

Quanto a mim, descobri-me cidadão desta nossa língua – vasto território de afetos, valores e memórias -, ao cair de uma tarde já distante, na fronteira entre Singapura e a Malásia. Lembro-me que era uma sexta feira porque a estrada estava cheia de autocarros. O motorista explicou-me, num inglês tumultuado, que às sexta feiras os malaios imigrados em Singapura, onde ganham quatro vezes mais, regressam à pátria para passar o fim de semana com a família. Aos gritos, sempre aos gritos, mostrou-me a fila compacta de autocarros, e depois a desordem de feira dentro do nosso próprio veículo, e a multidão, ao longo da estrada, carregando às costas a opulência de Singapura.

Atordoado pelo calor, o alarido, a estupenda fragrância que se desprendia de um cesto de mangas, mesmo atrás de mim, não percebi que já tínhamos chegado à fronteira. O motorista sacudiu-me do torpor gritando instruções em malaio, e a seguir em inglês, mas ao princípio não percebi a diferença. Compreendi finalmente, quando os outros passageiros começaram a sair, que também eu devia saltar do autocarro, com os meus documentos, e passar a fronteira a pé. Não havia fila no portão destinado aos estrangeiros. O guarda lançou um olhar distraído para a minha fotografia, sorriu, e carimbou o passaporte. Agradeci, guardei-o no bolso, e dirigi-me para um bloco de pequenos restaurantes improvisados, disposto a comprar alguma coisa para comer antes de reentrar no autocarro.

O autocarro? Deus, onde estava o autocarro?!

Eram centenas ali e na escuridão todos me pareciam iguais. Tentei lembrar-me do rosto do meu vizinho. Tentei lembrar-me de algum outro passageiro. Todos me pareciam iguais. Sentei-me numa mesa ao ar livre, num dos restaurantes, e só então me dei conta, assustado, quase em pânico, de que estava sem dinheiro. Comigo tinha apenas o passaporte, de cidadão português, e um bloco de apontamentos. Deixara a carteira no autocarro, dentro da mochila, junto com os restantes documentos. Por instantes imaginei o meu destino: ficaria ali naquele fim de mundo, mendigando umas moedas ao viajantes para comer um pratinho de arroz. Finalmente, já desesperado, fui ter com um polícia e expliquei-lhe o que tinha acontecido. Ele olhou-me desconfiado e pediu para ver o passaporte.

– Português? – o homem lançou-se nos meus braços. – Eu também sou português.

Também não era: natural de Malaca, cidade famosa pela sua reputação de remotíssima origem portuguesa, falava uma língua de fantasia, que ao princípio me pareceu crioulo de Cabo Verde, e depois me recordou velhos textos setecentistas.

Acho que o voltei a ver, recentemente, num belíssimo documentário brasileiro sobre o mundo lusófono: “Além Mar”. Estava sentado numa pequena sala de visitas, em casa, no “bairro português” de Malaca. As paredes da sala segregavam uma luz  impossível. Ao centro havia uma imagem de Nossa Senhora.

Naquele entardecer, na fronteira ente a Singapura e a Malásia, ele foi comigo, de autocarro em autocarro, até que um dos motoristas me reconheceu. O motorista confiou-me a ele num discurso expansivo, inflamado, que eu julgo ter compreendido, mesmo sem entender uma única palavra. Por fim voltou-se para mim e apertou-me a mão.

Não sei se chorei. Não me lembro. Talvez tenha chorado.

(José Eduardo Agualusa, A substância do amor e outra crónicas)

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Nuno Júdice

Escrevo um poema sobre a rapariga que está sentada

no café, em frente da chávena do café, enquanto

alisa os cabelos com a mão. Mas não posso escrever este

poema sobre essa rapariga porque, no brasil, a palavra

rapariga não quer dizer o que ela diz em portugal. Então,

terei de escrever a mulher nova do café, a jovem do café,

a menina do café, para que a reputação da pobre rapariga

que alisa os cabelos com a mão, num café de lisboa, não

fique estragada para sempre quando este poema atravesar o

atlântico para desembarcar no rio de Janeiro. E isto tudo

sem pensar em áfrica, porque aí lá terei

de escrever sobre a moça do café, para

evitar o tom demasiado continental da rapariga, que é

uma palavra que já me está a por com dores  

de cabeça até porque, no fundo, a única coisa que eu queria

era escrever um poema sobre a rapariga do

café.  A solução, então, é mudar de café, e limitar-me a

escrever um poema sobre aquele café onde nenhuma rapariga se

pode sentar à mesa porque só servem cafés ao balcão.

Nuno Júdice, A matéria do poema

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