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– Cultismo e concetismo

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“Como António Sérgio demonstrou, Vieira recusa e despreza:

  • o jogo “cultista” das palavras,
  • as construções retóricas vazias,
  • o refinamento especioso e oco das imagens.

De facto os seus sermões de juventude (até aos 33 anos) refletem já essa recusa, que posteriormente há-de teorizar no Sermão da Sexagésima, escolhido pelo próprio para figurar como prólogo doutrinário da edição completa dos seus sermões:

  • há-de tomar o pregador uma só matéria
  • há-de defini-la para que se conheça
  • há-de dividi-la para que se distinga
  • há-de prová-la com a Escritura
  • há-de declará-la com a razão
  • há-de confirmá-la com o exemplo
  • há-de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão-de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar
  • há-de responder às dúvidas
  • há-de satisfazer as dificuldades
  • há-de impugnar e refutar com toda a força da eloquência os argumentos contrários

e depois disto

  • há-de colher,
  • há-de apertar,
  • há-de concluir,
  • há-de persuadir.
    Isto é o sermão, isto é pregar, e o que não é isto é falar mais alto

“Falar mais alto” significa retoricizar o discurso, transformar a “disputa” jesuíta em flor de eloquência, em jogo verbal, como Vieira praticou em Roma ao serviço da rainha Cristina, nomeadamente no sermão sobre a Lágrima de Heraclito, uma exceção na ação parenética do pregador. Com efeito, todas estas regras enunciadas fazem já parte integrante do sermonário do jovem Vieira:

  • o “tema”
  • a citação bíblica
  • o exemplo evangélico criador da necessidade do discurso
  • a “invocação”, ou inspiração divina para a fácil fluência e o claro entendimento do conteúdo do sermão
  • o “argumento”, isto é, a rede de imagens e conceitos que sustentam a verdade do tema por via de citações e experiências passadas ou das “autoridades” (cenas bíblicas, alegorias, moralidades de santos…)
  • a conclusão final ou “peroração”.

Com efeito, Vieira não pratica o cultismo literário, não por opção estética, literária ou retórica, mas por evidente harmonização entre o seu pensamento metafísico, escolástico, de fundo medieval, aprendido nas aulas do Colégio da Bahia, e aceite por consentimento próprio, e o seu modo de pregação, crente de que o mundo é divinamente povoado por essências ou formas (aristotélico-tomistas) que, combinadas na diversidade da matéria, formariam os corpos; o entendimento humano tenderia naturalmente a captar essas formas, abstratizando-as, compondo ideias, de que as palavras, “flatos de voz”, seriam meras expressões. (…)

Margarida Vieira Mendes caracteriza o cultismo a partir do Sermão da Sexagésima, realçando o que Vieira condena neste estilo:

  • facto de ser uma moda “de hoje”, algo de “moderno”, o que no imaginário de Vieira tem um sinal negativo
  • facto de ser “antiestético”, “contra a arte”, “empeçado”, “boçal”
  • facto de ser incompreensível, “escuro”,” negro”, “cerrado”
  • abuso de antíteses forçadas e estereotipadas – “xadrez de palavras”
  • abuso das perífrases baseadas em metáforas enigmáticas – “cada autor que alegam é um enigma”
  • conceito predicável metido a martelo, “violento”, “tirânico”
  • a superficialidade, ao contrário da “profundidade” na escrita de alguns Padres da Igreja.

Neste sentido, o concetismo, segundo Margarida Vieira Mendes, diferencia-se do cultismo apenas “quando na própria estrutura frásica e vocabular as mesmas relações aparecem como que em espelho. Passa a haver um isomorfismo, ou seja, à forma ou organização dos conceitos corresponde a forma ou organização das palavras e das frases. (…) A motivação ou relação que se estabelece entre uma e outra é geralmente de analogia, de semelhança (ou de relativa dissemelhança, oposição). Se percorrermos os textos oratórios de Vieira encontramos sempre (desde a juventude) este mecanismo a orientar, articular, sustentar todo o desenvolvimento discursivo. A linguagem não está lá para transportar ideias, está lá para as tornar visíveis, imitando-lhes a configuração, como um simulacro material. Há portanto um vaivém permanente entre a lógica mental e a lógica que preside à estruturação linguística. Esta última passa a ter uma espessura própria, imediatamente visível na sua figuração:

  • gradações
  • reiterações
  • simetrias
  • antíteses
  • paronímias
  • sinonímias
  • enumerações
  • anáforas

e sobretudo a riqueza e densidade significativa da seleção lexical.´”

(Miguel Real, Vieira na Cultura Portuguesa)

 

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