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– A retórica ou a arte de convencer

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O político quer mostrar a relevância das suas ideias.

O publicitário quer promover um produto.

O advogado de defesa deve demonstrar a inocência do seu cliente.

O adolescente quer convencer os pais a deixá-lo sair à noite.

O intelectual quer convencer o mundo da relevância da sua visão do mundo.

A retórica está em toda a parte e muito para além das suas áreas tradicionais (política, publicidade ou barra do tribunal). Considera-se mesmo que ela está na base do discurso científico (persuasão implícita sob o disfarce de demonstração) e que está na linguagem comum do dia a dia. Somos todos retóricos.

Sempre que surge um problema na comunicação, as pessoas afirmam a sua posição ou tentam diminuir a distância que as separa. Neste sentido, a retórica não se limita às alegações jurídicas ou ao discurso político.

Durante muito tempo, a retórica foi mal vista. Associada à propaganda, à manipulação, à publicidade (muitas vezes enganosa) e a muitas outras formas de sedução, muitas vezes enganadora, a retórica gozava de pouca consideração. Foi necessário que a sociedade se liberalizasse e se abrisse à pluralidade de opiniões, para que se aceitasse como normal e saudável que houvesse debates contraditórios. Uma sociedade de comunicação, onde cada um tenta convencer, quando não seduzir, só pode ser dominada por uma retórica preocupada em criar acordos e consensos.

A retórica serve, então, não apenas para propor respostas, mas, sobretudo, para negociar o que pode separar cada pessoa de outra pessoa. e pode também servir não só para esbater diferenças, mas para as reforçar. Quando insultamos alguém que acaba de provocar um acidente de automóvel estamos a distanciarmo-nos desse comportamento. E isso também é retórica.

A retórica só adquire sentido em relação ao ato de questionar. Se assistimos a um debate sobre educação, ou entre dois adversários políticos ou simplesmente um casal que discute a decoração da sala, isso acontece porque uma questão se impõe: é preciso reformular programas ou repensar a noção de escola; é necessária ou não a ajuda externa para a crise financeira que o país atravessa; que tipo de materiais vamos privilegiar num espaço a ser usado por crianças pequenas.

Afinal, por que é que se diz, quando se fala de retórica, que a tónica deve ser colocada nas perguntas? Quando as opiniões e os pontos de vista se tornam problemáticos, pede-se para se justificarem as respostas para que elas sejam validadas (como respostas), o que obriga a encontrar argumentos. É esse o caráter racional da retórica.

Mas como as respostas caducam e as respostas válidas ainda fazem pouco eco, há a possibilidade de manipular o auditório fazendo-o acreditar em respostas que não o são. a forma, o estilo, a elegância, as figuras (de retórica) servem pois para fazer passar as respostas sem argumentar a questão. a publicidade é disso um exemplo por excelência.

“La rhétorique d’Aristote à Obama”, in Sciences Humaines, nº209

Coord. Jean François Dortier, 2009

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