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– Roteiro de Sintra

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JORNAL DE SINTRA,  (1940)

D. Alberto Bramão

Sintra pertence ao número das belezas raras com que Deus quis mostrar a sua omnipotência estética. A natureza, manto variegado e multiforme que veste o planeta, está marchetada de pontos belos, que sobressaem como as joias cintilantes nas requintadas toilettes femininas. Essas joias são aqueles pedaços de encantamento que os guias de viagens indicam à curiosidade e ao gosto dos turistas e que todos os países atuais, os que têm a felicidade de os possuir, expõem como tesouros, chamando para eles a atenção do mundo e transformando-os assim, pela afluência de visitantes, em elementos de riqueza nacional.

Sintra pode com verdadeira verdade ser considerada, entre as joias de valor mundial, uma das mais preciosas e mais raras.

Não só em si, na sua configuração, revestida completamente de opulências vegetativas, mas também pela região que a circunda e que domina, é digna da designação de paraíso com que a definiu o glorioso poeta do Childe Harold’s Pilgrimage, em um dos cantos desta obra imortal.

Oh, Christ! it is a goodly sight to see

What Heaven hath done for this delicious land!

What fruits of fragrance blush on every tree!

What goodly prospects o’er the hill expand!

Quem for subindo pela estrada que em curvas suaves ascende, sob a copa ramalhada de árvores seculares, aspirando a olorência de mil plantas, que vão desde a glicínia ao feto arbóreo, desde o jasmim à azálea de cores vivas, desde a avenca de folhas finamente recortadas ao plátano de fronte ciclópica, desde o amor perfeito ao chorão robusto, de cabeleira verde, passando por viveiros de begónias, catos e roseiras, numa plena sinfonia de cores, em que todas as nuances do arco-íris se diluem em tintas, ora gritantes como o sangue rubro dos cravos, ora inocentes como o veludo alvíssimo das camélias; quem for subindo, dizia, pela encosta que conduz ao Palácio da Pena, parando um pouco nas saliências das curvas a contemplar o horizonte que à vista se vai desenrolando, assiste a um dos espetáculos mais deslumbrantes que a natureza se dignou generosamente oferecer à impersionabilidade artística dos homens.

E esse espetáculo atinge a sua integração arrebatadora quando se alcança o cume da serra e em torno dela se depara toda a extensão num raio de muitas léguas, desenhando-se todo um panorama que por um lado abrange Mafra, Ericeira, Praia das Maçãs e muitas outras vilas, comunicadas por estradas, que do alto parecem serpentes brancas a colear entre tons variados de verdura, e por outro lado abrange os Estoris, Cascais e o vasto mar, num horizonte infindável, em que se recortam as velas brancas, como gaivotas pairando, das embarcações de pesca.

Os olhos, assim, na contemplação deste espetáculo, enchem-se de deslumbramento.”

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UMA VISITA A PORTUGAL  (1886)

Hans Christian Andersen

“O caminho de ferro de Lisboa a Sintra, que nalgumas cartas já vem indicado, não está, todavia, concluído. Alguns cais de desembarque já se encontram terminados, mas a linha do caminho de ferro propriamente dita estava, se bem observei, em completo abandono. Se se quiser ir a Sintra, há, pois, que tomar o ónibus de Lisboa ou arranjar uma carruagem, cavalo ou burro.

A mais bela e decantada parte de Portugal é a inigualável Sintra. “O novo paraíso”, denominou-a Byron. “Aqui a Primavera tem o seu trono”, assim a cantou o poeta português Garrett. Para lá íamos agora.

No velho palácio da vila, o rei reinante, D. Luís, uma parte do verão. Seu pai, D. Fernando, vive na Pena, palácio na serra, na região das nuvens. Diplomatas e gente rica de Portugal tem as suas casas de campo no meio desta natureza fresca e viçosa.

Os hoteis estão cheios de forasteiros, tanto estrangeiros como nacionais. Parti de manhã cedo da Quinta do Pinheiro. A estrada seguia dos subúrbios de Lisboa para o campo, passando pelos arcos do aqueduto, ora sobre montes, ora por vales. À volta tudo estava seco e devastado, só um simples cato aqui ou ali dava indícios de vida. (…)

Para os lados da povoação vimos a certa distância um grande parque com um palacete. D. Miguel, que gostava bastante de caça, preferia estes sítios às belezas naturais da encantadora Sintra. Até aí, por toda a parte, só tinham aparecido terras pobres, nenhum ponto pitoresco, nenhum arbusto, nenhuma árvore. Apenas do lado de fora de uma humilde casa de camponeses se mostrava uma magnólia florida, cujas folhas verdes escuras brilhavam ao sol.

Sintra na névoaUm espesso véu de névoa cobria ainda a próxima Sintra, mas em breve vimos os primeiros anúncios do seu verde luxuriante: uma quinta com majestosas árvores. Nela erguia-se um grandioso palácio, que ainda não há muito havia sido residência real, pertencendo agora a um particular que o havia comprado por incrível baixo preço. Pelas grades dos portões viam-se lá dentro flores e relva, água correndo e grandes ramadas pendendo. (…)

Para a frente, por entre a densa vegetação da quinta, podia ver-se a estrada para Sintra, cujo velho palácio tem o aspeto de um convento com pequenos anexos. Duas chaminés acopladas, que mais parecem garrafas de champanhe, dominam todo o edifício, a que falta inteiramente beleza.

Diferente, mais belo e pitoresco, o palácio de verão de D. Fernando eleva-se no alto, dominando toda a região. Aí, noutros tempos, havia apenas um extenso bosque, que ainda existe, bem como o célebre convento de cortiça, pequeno edifício cujas paredes eram revestidas com casca de sobreiro. O palácio propriamente dito teve a sua origem no tempo de Vasco da Gama. No ano da célebre expedição à Índia, caçava o rei um dia lá no alto, um pouco abaixo do lugar onde hoje fica o palácio e daí avistou a frota de Gama regressando. Na sua alegria prometeu mandar construir aí um convento, o que cumpriu. Edificado, constitui ainda a parte mais bela e pitoresca de todo o palácio. Quando foram extintos os conventos e os frades expulsos, o rei D. Fernando comprou-o, gastando uma grande soma na construção do palácio e do parque.

Todo o caminho da serra é um jardim, onde a natureza e a arte maravilhosamente se combinam, o mais belo passeio que se pode imaginar. Inicia-se com catos, plátanos e magnólias para terminar com vidoeiros e espruces entre selváticos blocos de rocha. Gerânios de todas as espécies e cores floriam aí em grande quantidade, belos cardos brilhavam ao lardo da murta com a sua neve de flores brancas e odorosas. Caminhos isolados subiam caracolando por entre velhos muros cobertos de hera e rochas que, ao caírem, haviam formado arcos naturais. Pode ver-se aí bastante longe lá de cima, na direção de Lisboa até aos montes na outra margem do Tejo, o oceano Atlântico distante e para os lados de Sintra, no fundo, a grande planície que se estende até ao convento de Mafra. O ar estava tão límpido que julguei poder contar as janelas do palácio, embora estivesse a algumas milhas de distância. (…)

Perto de Sintra há um palacete em estilo mourisco, pertencente a um brasileiro rico que o mandou construir no tempo em que a leitura do romance Conde de Monte Cristo, de Dumas, era popular, dele tirando o nome. A partir deste palacete a estrada vai fazendo curvas após curvas sob um teto de folhagem de castanheiros. Uma queda de água bem conhecida no local, parecia aumentar a frescura do ambiente. Abre-se depois uma larga praça, também com árvores produzindo sombra, diante de um palacete em estilo rococó, no qual foi concluída a paz no tempo do Marques de Abrantes. À esquerda continua a ver-se a mata da Pena, e lá no alto, entre as nuvens, o castelo edificado pelos mouros, com a sua grande torre quadrada e outras mais pequenas. Tudo aqui era de uma beleza edénica. (…)

O tempo esteve sempre bom durante a minha estada em Sintra, só nos últimos dias soprou um noroeste forte. O mar, a uma boa milha distante, parecia, contudo, estar perto, assemelhando-se na sua imensidade a um manto azul estendido para longe.”

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VIAGEM A PORTUGAL (1995)

José Saramago

“A estrada sinuosa, estreitíssima, vai contornando a serra como um abraço. Abóbodas de verdura protegem-na do sol, separam o viajante ciosamente da paisagem circundante. Não se reclamem horizontes largos quando o horizonte próximo for uma cortina cintilante de troncos e folhagens, um jogo infinito de verdes e de luz. Seteais aparece insolitamente com o seu grande terreiro relvado, afinal pouco mais que um miradouro para a planície e um cenográfico ponto de vista para o Palácio da Pena, lá no alto.

Palácio da Pena

Explicar o Palácio da Pena é aventura em que o viajante não se meterá. Já não é pequeno trabalho vê-lo, aguentar o choque desta confusão de estilos, passar em dez passos do gótico para o manuelino, do mudéjar para o neoclássico, e tudo isto para invenções com poucos pés e nenhuma cabeça. mas o que não se pode negar é que, visto de longe,  o palácio apresenta uma aparência de unidade arquitetónica invulgar, que provavelmente lhe virá muito mais da sua perfeita integração na paisagem do que da relação das suas próprias massas entre si. Elemento por elemento, a Pena é a demonstração aberrativa de imaginações que em nada se preocupam com afinidades ou contradições estéticas. A torre briga claramente com o grande torreão cilindríco do outro extremo, e este pertence a família diferente dos mais pequenos torreões oitavados que ladeiam a Porta do Tritão. Grandeza e unidade tem-na os fortíssimos arcos que amparam os terraços superiores e as galerias. Aqui encontraria o viajante uma sugestão para Gaudi se não fosse mais exato terem bebido nas mesmas fontes exóticas o grande arquiteto catalão e o engenheiro alemão Von Eschwege, que veio à Pena por mando doutro alemão, D. Fernando de Saxe-Coburgo Gotha, dar corpo a delírios muito do gosto germânico.

É porém verdade que o Palácio da Pena sem a serra de Sintra não seria o que é. Apagá-lo da paisagem, eliminá-lo que fosse de uma fotografia que registe aquelas alturas, seria alterar profundamente o que já é natureza. O palácio aparece como um afloramento particular da própria massa rochosa que o suporta. E é decerto este o melhor louvor que pode ser feito a um edifício que, nas suas partes, se caracteriza, como já alguém escreveu, por “fantasia, inconsciência, mau gosto, improvisação.” Porém, onde essa fantasia, essa inconsciência, esse mau gosto, essa improvisação perdem limites e comedimento é no interior.

Deve o viajante, neste ponto, tentar explicar-se melhor. É inegável que não faltam no salão nobre, no quarto da rainha D. Amélia, na sala de Saxe, para os citar apenas, móveis e objetos de mérito, alguns de grande valor material e artístico. Tomados cada um por si, isolados do que os rodeia, justificam uma observação interessada. Mas, ao contrário dos elementos estruturantes do palácio, que se harmonizam numa inesperada unidade de contrários, aqui dentro não logram a simples conciliação elementos decorativos que precisamente se caracterizam por afinidades de gosto. E quando certas antigas peças cá vieram instalar-se, logo foram neutralizadas, primeiro, subvertidas depois, no ambiente geral: é caso disse o quarto de D. Amélia. Se o viajante quisesse fazer trocadilhos, diria que este palácio tem um recheio de palacete. Em boa verdade, o excesso romântico do exterior não merecia o excesso burguês do interior. Ao artificial caminho da ronda do castelo, às inúteis guaritas de canto e seteiras saudosas de guerras ultrapassadas, veio juntar-se o cenário teatral de cortes que da cultura tinham uma conceção essencialmente ornamental. Quando os últimos reis vinham descansar das canseiras da governação, entravam no teatro: entre isto e o papel pintado a diferença não é grande. Se tivesse de escolher, o viajante preferiria o caos organizado de Von Eschwege ao luxo novo-rico de reais pessoas.´Tendo avistado destes paços o Castelo dos Mouros, o viajante deu-se por satisfeito. Aliás, no geral, castelos é vê-los de fora, e este, tão maneirinho à distância, é assim que quer ser visto, emblematicamente. (…)

Palácio da VilaQuase tão heterogéneo de estilos como o Palácio da Pena, é o Palácio Nacional da Vila. Mas este é como uma longa praia onde as marés do tempo vagarosamente vieram deixar os seus salvados, devagar construindo, devagar pondo uma coisa no lugar doutra coisa, e, por isso, deixando desta mais do que a simples recordação: primeiro, o paço gótico de D. Dinis, depois, as ampliações decididas por D. João I, mais tarde por D. Afonso V, D. João II, e enfim D. Manuel I, por cujo mandado se construiu toda a ala do lado nascente. No Palácio da Vila sente-se o tempo que passou. Não é o tempo petrificado da Pena, ou o tempo perdido de Monserrate, ou a grande interrogação dos Capuchos. Quando o viajante se lembra de que neste palácio este o pintor Jan van Eick, pensa que ao menos algumas coisas neste mundo fazem sentido.

Para seu gosto, certas salas deveriam estar mais nuas, próximas tanto quanto possível da sua primeira serventia. ainda bem que não chegam ao teto os arranjos mobiliários de que os pavimentos são infensos sujeitos. Assim, pode o viajante olhar o teto apainelado da Sala dos Brasões, ter ele a imagem que a corte manuelina tinha, mesmo sendo diferente a leitura, e sem nada que o distraia verificar como o brasão real é aqui como um sol, à roda do qual se distribuem, como satélites, os brasões dos infantes e, em outro anel exterior, os da nobreza do tempo. Também a Sala dos Cisnes, de masseira, e o das Pegas, todas “por bem” palrando, mesmo quando declaram o que bem calado devia ficar. Porém, não se pode ser injusto com estes azulejos esplendorosos, os da Sala da Galé e todos os mais, cujos segredos de fabrico provavelmente se perderam. E isto perturba muito o viajante: nada qu o homem tivesse inventado ou descoberto devia perder-se, tudo devia transmitir-se. Se o viajante não souber como se há de voltar a repetir estes azulejos-de-fez, é um viajante mais pobre que todos os frades dos Capuchos juntos.

Poucas coisas podem ser mais belas e repousantes que os pátios interiores do Palácio da Vila, poucas de mais serena exaltação que a capela gótica.”

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