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– Os “Vencidos da Vida”

António José Saraiva

Em 1871 tinha ocorrido o grande acontecimento que despertou o cenáculo de S. Pedro de Alcântara para a vida pública: a Comuna de Paris. Foi uma grande data europeia e internacional que arrancou a tertúlia do beco a que habitualmente se limita o horizonte intelectual português. Nasceram nessa época as Conferências do Casino.

Vinte anos depois, em 1890, o grande acontecimento para Portugal é um acontecimento local: o ultimatum da Inglaterra, intimando as forças portuguesa a retirar de uma zona, hoje deslembrada, do interior de África. Assim se desvaneceu a veleidade do “mapa cor de rosa”. Deu-se esse nome a um imaginário império unindo os territórios de Angola e Moçambique, interceptando a expansão inglesa de norte para sul, que tinha em vista especialmente a zona aurífera do Transval. Era agora o tempo dos “Vencidos da Vida”.

O príncipe herdeiro D. Carlos casara em 1886 com a princesa D. Amélia, uma mulher bela, que teve o privilégio de ser admirada e quase cortejada por Eça de Queirós, o amigo dos últimos anos de Oliveira Martins. Assim se formou uma roda em torno do casal, constituída por gente do gabinete do Príncipe, parte da qual privava com Eça de Queirós (que se jactava da sua fidalguia), como o marquês de Ficalho, mordomo do Paço, Bernardo Pindela, secretário particular do Príncipe, o conde de Arnoso ou o conde de Sabugosa. Eram cortesão literatos, sensíveis ao prestígio literário dos antigos promotores das Conferências do Casino. Havia também Carlos Mayer, dilecto de Eça, além de Ramalho Ortigão, seu amigo de toda a vida. Oliveira Martins levou para lá António Cândido, célebre orador sagrado transmontano e adepto político da “Vida Nova”, e por ventura Guerra Junqueiro, seu grande admirador nesta época (…). Não constituindo um partido, nem sequer uma tertúlia, estes onze pretextavam, para se reunirem, jantarem juntos, ou em casa de cada um, ou em restaurantes conhecidos, como o Tavares ou o do hotel Bragança. Diziam-se um grupo de “jantantes” e com isso Eça de Queirós respondia aos remoques de certa imprensa que os apresentava como conspiradores políticos.

A figura central destes jantares, que reunia alguns políticos e vários jornalistas, era Oliveira Martins. (…) Foi ele mesmo que inventou o nome de “Vencidos da Vida”. Antero, na sua última passagem por Lisboa, a caminho da ilha, assistiu a um jantar do grupo.

Com a morte de Luís, em 1889, os Vencidos achegaram-se ao novo Rei, D. Carlos, tentando incutir-lhe a ideia de um governo pessoal. (…)

Pode considerar-se como órgão do grupo a Revista de Portugal, que Eça dirigia de Paris (o nº 1, saído em Julho de 1889).

O projecto do “mapa cor de rosa” revelava uma teimosa cegueira dos nossos governantes. Portugal estava enredado numa grave crise financeira, com um défice que se agravava dia a dia na balança de pagamentos e nas trocas comerciais, crise que traduzia uma crise humana e institucional. Apear disso, continuava a sonhar-se uma nação imperial, como no tempo de D. João V, contando com o ouro colonial para equilibrar as suas contas. Desde o século XVI os Portugueses procuravam o ouro da interior africano no famoso império do Monomotapa. O “mapa cor de rosa” é a continuação imaginária, no século XIX, do ouro dos “quintos” do império brasileiro. O ultimatum de 1890 foi a pancada que nos chamou à realidade da nossa insignificância como potência europeia.

1870 e a Comuna de Paris tinham despertado os nossos interesses para um largo horizonte, Eça de Queirós, como Martins, como Antero, como Batalha Reis, como Fontana, na década de 70, vivem no imaginário europeu e acompanham uma utopia europeia – o socialismo. (…)

A excitação causada pelo ultimatum inglês de 1890 foi tão forte e tão extraordinária que espanta a facilidade com que foi esquecida. (…) As manifestações foram de tal ordem que homens de grande qualidade intelectual como Antero de Quental e os seus amigos imaginaram tratar-se da ressurreição do velho Portugal quinhentista.

Eça de Queirós, que estava em Paris, chegou a hesitar. Escrevia a Oliveira Martins: “Esse inteligente patriotismo que leva os jornais a não quererem receber mais periódicos ingleses (!!), os professores as não quererem ensinar mais o inglês, os empresários a não quererem mais que nos seus teatros entrem ingleses (…) É de um cómico frio e fúnebre. O que se me afigura mais natural – é que o país foi atravessado por um sentimento vivo e forte, e que, como o país está numa perfeita anarquia de ideias, esse sentimento tomou em geral uma expressão despropositada. Em todo o caso parece-me que Portugal está numa mau momento – e (perdoa o jogo de palavras) seria talvez o bom momento para se fazer ouvir uma voz de bom senso e de verdade. Por que não levantas tu essa voz?” (…)

Eça de Queirós oferecia as páginas de Revista de Portugal a Oliveira Martins para que ele orientasse os movimentos desencontrados resultantes do choque emocional causado pelo ultimatum inglês, mas o historiador escusou-se. (…)

Antero, que ainda se conservava em Vila do Conde, contribuiu com um artigo n’A Província de 26 de Janeiro de 1890 para a expressão desse sentimento geral. A sua opinião coincidia com a de Eça. O artigo intitulava-se “Expiação” e nele dizia: “Sob o insulto imprevisto, esta nação parece agora acordar: mas é necessário que o protesto nacional seja ao mesmo tempo um acto de contrição da consciência pública (…) O nosso maior inimigo não é o inglês, somos nós mesmos.” (…)

Os estatutos da Liga foram apresentados em sessão plenária em 7 de Março por Antero, que propôs um plano de emancipação económica, de restauração das forças produtoras, de levantamento do nível intelectual e de garantia e defesa da integridade nacional, plano de ordem, justiça e moralidade sociais que significaria ao mesmo tempo a emenda dos passados erros e a esperança de um futuro em que Portugal retomasse entre as nações civilizadas um lugar digno das suas nobres tradições. (…)

Como era de prever, a Liga Patriótica transformou-se numa arena em que se digladiavam os partidos monárquicos entre si mais o republicano. Antero quis afastá-la desse destino embora reconhecendo a situação: o problema era o divórcio entre o Estado e a nação, entre o poder e o povo, entre os governantes e os governados. (…)

Como era de prever, a Liga Patriótica tornou-se um casulo disponível para os republicanos, que nessa época ainda não tinham uma estrutura organizada. Oliveira Martins compreendeu isto e num encontro nos arredores do Porto proposto por Antero num bilhete apressado convenceu-o a retirar. (…)

Semanas depois recusou-se a aderir aos comícios de protesto contra o tratado negociado pelo governo e responde ao seu convidante, o conde de Resende. “Em Portugal não pode haver revolução porque é um país eunuco.” (…)

O afundamento da Liga em tanto entusiasmo nascida foi a decepção mais amarga sofrida por Antero na sua vida. Nas Conferências do Casino, com na questão com Castilho, ele fora esmagado, pode dizer-se, pela força e pela resistência das instituições, mas conservara moralmente a sua inteireza de herói. Agora tinha de reconhecer que o Povo em que ele se queria apoiar era um povo de eunucos. Já Herculano tinha dito que o mal de Portugal era a “gente”. Isto dava vontade de morrer – dissera ele também. Dias depois Antero embarcava para Ponta Delgada, donde não voltaria. Oliveira Martins foi despedir-se e no barco teve uma síncope que o fez cair aos pés de Antero. Nunca mais veria o seu grande amigo.”

(in A Tertúlia Ocidental)

 

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