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– O Grémio Literário

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“Era o Chiado e a vida portuguesa ali reduzida e simbolizada, e nele o Grémio Literário afirmava os seus trinta anos de existência. Ele “matara o Marrare, mas não o substituíra”, maneira de dizer cronológica do cronista Zacarias d’Aça, já em 1906. De resto, no aceso da polémica do “Bom senso e do Bom gosto”, em 1886, um partidário de Castilho não descrevera os adversários indo do Grémio e ao Marrare (“vadios” todos reles) “palavrear ninharias”?… Em 1887, traduzindo a Formosa Lusitânia de Lady Jackson, Camilo não resistira à ideia de troçar da instituição onde certamente fora, em visita a Lisboa. “Ela parecia cuidar das letras (…) mas as letras fugiram de lá, retoricamente falando, porque todos os sócios abrigavam profundo conhecimento do alfabeto”… Teixeira de Vasconcelos dissera pior, numa crónica de 1865, afiançando que “o Grémio (era) literário porque se escrev(ia) com seis letras e mais nada”. e já Júlio de Castilho, logo em 1848, escrevera dele: “hoje é Grémio mas já não literário”. Referido em 1867, “O barão de Lavos entrou no Grémio e sentara-se a ler jornais” (Abel Botelho, 1888). Falando de três ou quatro anos depois, Ramalho elogiava a leitura de jornais e revistas, e confirmava que a Lisboa mundana adotava para seu uso as opiniões que corriam no grémio e na casa Havanesa. N’As Farpas ainda, o Grémio era aconselhado aos deputados da província, para sua ilustração, e o mesmo ou parecido veremos fazer Eça. É de 1881 um texto de Eça de Queirós, escrevendo de Lisboa aonde viera, “sub tegmina fagi, à sombra dessa faia constitucional que se chama o Grémio”…

Em 1879, a famosa princesa Ratazzi, uma Bonaparte dada às letras e às viagens, vindo para escrever um “Portugal à vol d’oiseau”, não ignorou o Grémio, tendo ouvido “gabar os estatutos desta associação verdadeiramente digna de elogio”.

Ramalho num António Maria de dois anos depois, refere-se de outro modo ao Grémio com referência das ideias da capital: “Todos invocam (o Povo) sob uma única condição: de que não apareça! Já ninguém vem dele; para onde a gente vai é para o Grémio”… Anselmo Braancamp Freire, filho do fundador, referir-se-á aos mesmos anos de 1881, quando contou haver, nas salas do palácio Loures, a alcunhada “Botica do Grémio”, canto de cavaco de boa ou má-língua, assegurado por quatro frequentadores habituais, o general e antigo ministro D. Luís da Câmara Leme, que fora seu presidente, o Quim Martins Teixeira de Carvalho, arqueólogo e futuro professor de Coimbra, homem de boa boémia, muito novo ainda então, Inácio Silveira da Mota, diretor do Arquivo Nacional, publicista, deputado, diretor-geral, académico e conselheiro, e o advogado progressista e republicano de 78, Alfredo Ansur de Figueiredo e Sousa. Ali se reuniam, em sítio conveniente…

Num António Maria II de 1891, fazendo elogio do clube luxuosamente instalado no Chiado, com toda a mobília escolhida pelo barão da Regaleira no estrangeiro, o “Turf”, o cronista anónimo lamenta que o Grémio Literário “arraste uma existência melancólica e sorna, sem introduzir nenhuns melhoramentos e conservando impenitente o seu ar de botica de aldeia, só própria para a má língua e o gamão, distrações essas já tão fora de moda no tempo de Tolentino…” Ela “limitava as suas fantasias diretoriais proporcionando aos sócios um chá que era mau e umas torradas que eram péssimas…” Em 1898, o Grémio é ainda uma referência passageira para o Schwalbach d’A Senhora Ministra ou para o Teixeira Queirós de D. Agostinho.

Mas foi Eça, sócio “extraordinário” nº19, por estatuto de membro ausente no estrangeiro, o mais constante frequentador do Grémio, em pessoa quando vinha à pátria, por personagens interpostas, na sua ficção. e, por ficção, instalando a Maria Eduarda d’Os Maias no prédio vizinho da Rua de S. Francisco – onde também Carlos gostaria que lhe elevassem uma estátua de pura felicidade… Ela habitava no prédio do Cruges, quatro portas ao lado do Grémio, com todos os inconvenientes mundanos da vizinhança, Dâmaso incluído…

N’Os Maias já se registaram vinte e cinco passagens em que é questão do Grémio, local de encontro ou de cruzamento, e já na versão anterior d’A Tragédia da Rua das Flores, em menção só topográfica, ele aparece. É lá que Taveira vai ler a carta torpe do Dâmaso, em sequência de locais significativos: “na casa Havanesa, no bilhar do Grémio, no Silva, nos camarins das cantoras”, para a intriga lisboeta.”

(José-Augusto França, O Grémio Literário e a sua História)

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