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LITERATURA QUEIROSIANA

Eça de Queirós (1845-1900) contribui para a campanha do Cenáculo com uma conferência sobre “A nova literatura, o realismo como nova expressão de arte”, em que faz a crítica do romantismo e da arte pela arte e recomenda o realismo “como a arte que nos pinta os nossos olhos”. Grita “abaixo os heróis!” e insiste nas circunstâncias de que o homem é produto.

A nova literatura trazida pela geração de 70 ficou a partir daí identificada com o Realismo.

A mesma ideia aparece no critério orientador do panfleto periódico que se intitulou As Farpas (início em 1871), escrito de meias com Ramalho Ortigão. Aí fez-se a crítica e a caricatura das instituições monarco-liberais e da literatura romântica então em voga. A colaboração de Eça, mais tarde reunida em Uma Campanha Alegre, é, de facto, um dos livros mais divertidos da literatura portuguesa, pela ironia ridicularizante com que são focadas personagens e situações.

Mas antes disto ele publicara em folhetins de jornal as Prosas Bárbaras, em que se exibe o mais fantasmagórico romantismo, em que os seres da natureza se transfiguram e antropomorfizam. É um universo panteísta em que o objectivo e o subjectivo são duas faces do mesmo real. Segue-se a fase programaticamente “realista”, em que, sistematicamente, Eça faz um inquérito à sociedade portuguesa do seu tempo.

N’O Crime do Padre Amaro (1876) foca  a vida de uma cidade provinciana e a influência clerical: a acção do seminário e do confessionário; a pressão das oligarquias locais; certos tipos, como o beato e o revolucionário exaltado e inofensivo de 1870.

N’O Primo Basílio (1878), fortemente influenciado pela Madame Bovary, foca uma família supostamente típica de Lisboa: a mulher casada sem formação moral e sem outra cultura além da leitura de romances românticos, que lhe abrem uma fuga para o tédio da vida conjugal; o dom-joão que espreita a ocasião, a criada humilhada. Apresenta-se-nos também como frequentadores da casa um versejador fátuo e vazio, satisfeito de si mesmo, símbolo da literatura oficial, e o conselheiro Acácio, símbolo da política constitucional. a tragédia tem por causa principal a deficiente educação feminina e uma literatura que exalta valores romanescos e pinta com cores atraentes o adultério.

Mas Os Maias (1888) já saem fora deste plano. Elevamo-nos ali ao nível da aristocracia e ao ponto de vista de uma elite capaz de diagnosticar os males da pátria. O grupo que convive no palácio do Ramalhete é, provavelmente, um auto-retrato da geração de ’70 na fase da desilusão. E na efabulação do romance há um momento trágico (próprio da tragédia grega): dois irmãos que não se conhecem, filhos de uma paixão romântica e fatal, acabam por encontrar-se em Lisboa e ter amores incestuosos.Isto apesar dos cuidados preventivos do avô, que, amargurado pela paixão e morte do filho, procurou, pela educação, imunizar o neto contra o resquício do romantismo. É uma variante da história de Édipo.

Com Os Maias cessa a análise crítica sistemática da vida portuguesa. Desde os 27 anos, como funcionário diplomático, Eça vivia habitualmente longe de Lisboa, tendo passado por Cuba, Newcastle e Paris, que lhe deram assunto para crónicas clarividentes. A Correspondência de Fradique Mendes, cuja publicação foi iniciada em 1889-1890 na Revista Portugal, é a estória de uma personagem cosmopolita que possui as qualidades de vários companheiros do Cenáculo e que manifesta as suas opiniões em cartas literárias por vezes satíricas dirigidas a vários destinatários.

Volta ao romance com A Ilustre Casa de Ramires (1897), obra construída em dois planos: um heróico, que conta os feitos de um Ramires medieval, novela que está escrevendo um Ramires contemporâneo, que se acomoda com a mediocridade e se baixa a solicitar os votos dos  vizinhos para se eleger deputado. O Ramires de agora, para se libertar  da vileza em que vegeta, decide partir para África. É praticamente um romance de uma só personagem.

Em 1901, no ano seguinte ao da morte de Eça, Ramalho Ortigão publica A Cidade e as Serras, romance que tem sido denegrido pelos incensadores do “progresso”, mas que se antecipa, pelas suas ideias, ao movimento ecologista dos nossos dias. É uma obra em que dois paineis se contrastam, o da vida na cidade (que é Paris) e o da vida no campo, nas serras do Minho.

(António José Saraiva, Iniciação à Literatura Portuguesa)

 

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