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– Leitura d’Os Maias (XVI-XVIII)

Capítulo XVI

  • Ao fim do jantar, na Rua de S. Francisco, Ega (…) entrou na sala, perguntando a Maria, já sentada ao piano: “ – Então, definitivamente, Vossa Excelência não vem ao sarau da Trindade?… (…) Ora a srª D. Maria, neste sarau, ia ver por dez tostões uma coisa também rara – a alma sentimental de um povo exibindo-se num palco, ao mesmo tempo nua e de casaca.”  (p.582)

  • Pararam à porta do Teatro da Trindade no momento em que de uma tipóia de praça se apeava um sujeito de barbas de apóstolo, todo de luto, com um chapéu de abas recurvas à moda de 1830. Passou junto dos dois amigos (Carlos e Ega) sem os ver, recolhendo um troco à bolsa. Mas o Ega reconheceu-o. “ – É o tio do Dâmaso, o demagogo! Belo tipo!” (p.586)
  • Então o poeta travou o braço do Ega: “ – Ouve lá, eu vinha justamente procurar-te. É o Guimarães, o tio do Dâmaso, que me pediu para te ser apresentado… Diz que é uma coisa séria, muito séria…Está lá em baixo no botequim, com um grogue.” (p.591)
  • O sr. Guimarães tossiu, chegou a cadeira mais para a mesa. (…) deitara por acaso os olhos ao “Futuro”, um jornal republicano (…) E avistara logo na primeira página, em tipo enorme, sob esta rubrica, aliás justa, Coisas do High Life, a carta do sobrinho… Imagine o sr. Ega o seu furor! (pp.592-593)
  • Ali mesmo (…) escrevera ao Dâmaso pouco mais ou menos nestes termos: “Li a tua infame declaração. Se amanhã não fazes outra, em todos os jornais, dizendo que não tinhas intenção de me incluir entre os bêbedos da tua família, vou aí e quebro-te os ossos um por um. Treme!” (p.593)
  • E sabia o sr. João da Ega qual fora a resposta do sr. Dâmaso? (…) “Meu caro tio! A carta de que fala foi escrita pelo sr. João da Ega. Eu era incapaz de tal desacato à nossa querida família. Foi ele que me agarrou na mão à força para eu assinar” (p.593)
  • “ – E diga-me o sr. Guimarães outra coisa, de gentleman para gentleman: como considera o seu sobrinho? um homem irrepreensivelmente verídico?” O sr. Guimarães cofiou as barbas, declarou lealmente: “ – Um refinado mentiroso.” (p.594)
  • Alencar abalara. E os dois deixaram o botequim, trocando impressões do sarau. O sr. Guimarães estava enojado com a carolice, a sabujice desse Rufino. (…) Era a Alvim que descia devagar, com a Joaninha Vilar (…) Queixou-se de uma dor de cabeça que a torturava, apesar de ter gostado loucamente do Rufino… Mas uma noite toda de literatura, que estafa! E agora, para mais, ficara lá um homenzinho (o Cruges) a fazer música clássica… (p.595)

  • No entanto, por toda a sala, o sussurro crescia. Os encatarroados tossiam livremente. Dois cavalheiros tinham aberto “A Tarde”. E caído sobre o teclado, com a gola da casaca fugida para a nuca, o pobre Cruges, suando, estonteado por aquela desatenção rumorosa, atabalhoava as notas, numa debandada. (pp.596-597)
  • E, Carlos, enervado, preso ali pelo dever de aplaudir o Alencar, chamava o Ega para irem a baixo ao botequim espairecer a impaciência – quando viu o Eusebiozinho que descia a escada. (p.605)
  • “ – Ouve cá, estupor!” – rugiu Carlos, baixo. “ – Então também andaste metido nessa maroteira da “Corneta”? Eu devia rachar-te os ossos um a um!” (…) O pobre viúvo no meio das lunetas negras que lhe voavam, do chapéu coberto de luto que lhe rolara nas lajes, dançava, escanifrado e desengonçado. Por fim Carlos atirou-o contra a porta de uma cocheira. (p.606)
  • E com efeito Alencar aparecera no estrado, onde ardia ainda o candelabro de duas velas. Esguio, mais sombrio naquele fundo cor de canário, o poeta derramou pensativamente pelas cadeiras, pela galeria, um olhar encovado e lento: e um silêncio pesou, mais enlevado, diante de tanta melancolia e de tanta solenidade. (p.607)
  • Em cima, na galeria, ressoou um bravo ardente. E imediatamente, para o sufocar, os sujeitos sérios lançaram, aqui e além um “Chut, silêncio!”. Então o Ega ergueu as mãos magras, bem alto, berrou com um destaque atrevido: “ – Bravo! Muito bem! Bravo!” (p.609)
  • Uma rajada farta e franca de bravos fez oscilar as chamas do gás! Era a paixão meridional do verso, da sonoridade, do liberalismo romântico, da imagem que esfuzia no ar com um brilho crepitante de foguete, conquistando enfim tudo, pondo uma palpitação em cada peito, levando chefes de repartição a berrarem, estirados por cima das damas, no entusiasmo daquela república onde havia rouxinóis. (p.611)
  • Ega, no entanto, através do tumulto, farejava buscando Carlos, que desaparecera depois dos abraços ao Alencar. Taveira assegurou-lhe que Carlos passara para o botequim. Depois, em baixo, um garoto jurou que o sr. D. Carlos tomara uma tipóia e já ia virando o Chiado. Ega ficou à porta, hesitando se aturaria o resto do sarau. (pp.612-613)
  • Passavam à porta do Hotel Aliança quando Ega sentiu alguém que se apressava a chamar atrás: “Ó sr. Ega! Vossa Excelência faz favor, sr. Ega?…” – Parou, reconheceu o chapéu recurvo, as barbas brancas do sr. Guimarães. (pp.613-614)

  • Todavia o sr. Guimarães baixou a voz cautelosa: “ – Aqui está o que é… Vossa Excelência sabe, ou talvez não saiba, que eu fui em Paris íntimo da mãe do sr. Carlos da Maia… (…) Basta dizer-lhe que aqui há anos ela entregou-me, para eu guardar, um cofre que, segundo dizia, continha papeis importantes… (…) Ora hoje justamente, ali no teatro, comecei a reflectir que o melhor era entregá-lo à família…” (p.614)
  • “ – Muito agradecido a Vossa Excelência! Eu junto-lhe então um bilhete e Vossa Excelência entrega-o da minha parte ao Carlos da Maia, ou à irmã.” Ega teve um movimento de espanto. “ – À irmã?… A que irmã?” “ – A que irmã!? À irmã dele, à única que tem, à Maria! (p.615)
  • “ – Como vi, ainda não há muitos dias, o sr. Carlos da Maia com a irmã e com Vossa Excelência, na mesma carruagem no Cais do Sodré… (…) Aquela mesma, a Maria Eduarda Monforte, ou a Maria Eduarda Maia, como quiser, que eu conheci em pequena, com quem andei muitas vezes ao colo, que fugiu com o Mac Gren, que esteve depois com a besta do Castro Gomes…” (pp.615-616)
  • Ega, como a um clarão de relâmpago, entrevira toda a catástrofe: e agarrou avidamente o braço do sr. Guimarães, num terror que ele abalasse, desaparecesse, levando para sempre o seu testemunho, esses papeis, o cofre da Monforte, e com eles a certeza – a certeza por que agora ansiava. (p.616)
  • Tudo isto se encadeava, concordando com a história contada por Maria Eduarda. E de tudo ressaltava esta certeza monstruosa: – Carlos amante da irmã! Guimarães não descia. No segundo andar surgira uma luz viva, numa janela aberta. Ega recomeçou a passear lentamente pelo meio do largo. E agora, pouco a pouco, subia nele uma incredulidade contra esta catástrofe de dramalhão. (p.621)
  • A porta do hotel rangeu no escuro, o sr. Guimarães adiantou-se, de boné de seda na cabeça, com o embrulho na mão. “ – Não podia dar com a chave da mala, desculpe Vossa Excelência. É sempre assim quando há pressa… E aqui temos o famoso cofre!” (p.622)

  • A carruagem parara no Ramalhete. Ega subiu como costumava, pela escada particular de Carlos. Tudo estava apagado e mudo. (…) Carlos estava àquela hora na Rua de S. Francisco, dormindo com uma mulher que era sua irmã (…) Toda a beleza de Maria, todo o requinte de Carlos, desapareciam. Ficavam só dois animais, nascidos do mesmo ventre, juntando-se a um canto como cães, sob o impulso bruto do cio! (p.624)
  • Uma ideia sulcara-o de repente. Contar tudo ao Vilaça!… Por que não? Era o procurador dos Maias. Nunca para ele houvera segredos naquela casa. (p.625)

Capítulo XVII

  • E acochado mais sob a roupa, apenas com o nariz ao frio, murmurava consigo: “É uma tolice ir ao Vilaça!” De resto não poderia ele ajuntar em si bastante coragem, para contar tudo a Carlos, logo, nessa manhã, claramente, virilmente?” (p.626)
  • Ao pé da quinta da mãe, em Celorico, no lugar de Vouzeias, houvera um sucesso parecido, dois irmãos que inocentemente iam casar. Tudo se aclarou ao reunirem-se os papeis para os banhos. (…) Aqui o engano seguira mais longe, as sensibilidades eram mais requintadas; mas os seus corações permaneciam livres de toda a culpa, inocentes absolutamente. (…) A inconsciência impedia-lhe o remorso.(p.627)
  • E de novo, insensivelmente, se refugiou na ideia de procurar o Vilaça, entregar-lhe o cofre da Monforte. (…) Só sentia em torno de si, como flutuando no ar, aquele horrorCarlos a dormir com a irmã. (pp.628-630)
  • “ – É um horror, Vilaça, um grande horror… Nem eu sei por onde hei-de começar. Então Ega, já impaciente, esvaziou toda a caixa sobre a mesa, alastrou os papeis. E entre cartas, outras contas, bilhetes de visita, um grande sobrescrito destacou com esta linha a tinta azul: “Pertence a minha filha Maria Eduarda.” (…) (pp.631-635)
  • “E por isso aqui declaro tudo isto que assino, no caso que o não possa fazer diante de um tabelião, o que tenciono logo que esteja melhor. E de tudo, se eu vier a morrer, o que Deus não permita, peço perdão a minha filha. E assino com o meu nome de casada – Maria Monforte Maia.” (p.636)
  • “ – Vá, acaba lá!” – exclamou Carlos recaindo no assento, mais pálido. (…) E tu acreditas que isso seja possível? Acreditas que suceda a um homem como eu, como tu, numa rua de Lisboa? Encontro uma mulher, olho para ela, conheço-a, durmo com ela e, entre todas as mulheres do mundo, essa justamente há-de ser minha irmã! É impossível… Não há Guimarães, não há papeis, não há documentos que me convençam! (pp.642-643)
  • Ega murmurou: “ – Já ia sucedendo um caso assim, lá ao pé da quinta, em Celorico…” E nesse momento, sem que um rumor os prevenisse, Afonso da Maia apareceu numa abertura do reposteiro (…) Mas subitamente reparou na face transtornada do neto. Reparou na atarantação do Ega, cujos olhos mal se fixavam, fugindo ansiosamente dele para Carlos” (p.643)
  • Carlos, que remexera sobre a mesa, adiantou-se com um papel na mão. “ – Aqui tem avô a declaração da minha mãe.” (…) E então Afonso, de repente, soltando o braço do Ega, murmurou-lhe junto à face, no desabafo da sua dor: “ – Eu sabia dessa mulher!… Vive na Rua de S. Francisco, passou todo o Verão nos Olivais… É a amante dele!” (pp.645-646)
  • Ega ainda balbuciou: “Não, não, sr. Afonso da Maia!” Mas o velho pôs os dedos nos lábios, indicou Carlos dentro, que podia ouvir… E afastou-se, todo dobrado sobre a bengala, vencido enfim por aquele implacável destino que, depois de o ter ferido na idade da força com a desgraça do filho – o esmagava ao fim da velhice com a desgraça do neto. (p.646)
  • “Pois tu imaginas que por me virem provar que ela é minha irmã, eu gosto menos dela do que gostava ontem, ou gosto de um modo diferente? Está claro que não! O meu amor não se vai de uma hora para a outra acomodar a novas circunstâncias, e transformar-se em amizade… Nunca! Nem eu quero!” (p.647)
  • “ – Vou-lhe eu mesmo contar tudo – murmurou Carlos. “ – Tu!? (…) O que tu devias fazer era meter-te esta noite no comboio, e partir para Santa Olávia. De lá contavas-lhe tudo. Estavas assim mais seguro.” (pp.647-648)
  • Ia à Rua de S. Francisco. (…) Decerto era terrível voltar a vê-la naquela sala, quente ainda do seu amor, agora que a sabia sua irmã… (…) Ambos tinham bastante força para enterrar o coração sob a razão, como sob uma fria e dura pedra, tão completamente que não lhe sentissem mais nem a revolta nem o choro. (pp.652-653)
  • “ – É tarde, e eu preciso sair já a procurar o Vilaça… Vinha dizer-te que tenho talvez de ir a Santa Olávia, além de amanhã, por dois ou três dias…” (…) O grande e belo corpo de Maria, embrulhado num roupão branco de seda, movia-se, espreguiçava-se languidamente, sobre o leito branco. (pp.657-658)
  • Carlos sentiu a quentura do desejo que vinha dela, que o entontecia, terrível como o bafo ardente de um abismo, escancarado na terra a seus pés. (…) E de repente, Carlos enlaçou-a furiosamente, esmagando-a e sugando-a, numa paixão e num desespero que fez tremer todo o leito. (p.658)


  • Na tipóia que os levava ao Ramalhete, Carlos e Ega permaneceram muito tempo em silêncio, cada um enterrado no seu canto, fumando. Foi já a meio do Aterro que Ega pareceu despertar: “ – E então por fim?… Sempre vais para Santa Olávia ou que fazes?” (…) “ – Talvez vá amanhã… Ainda não lhe disse nada, ainda não fiz nada… Decidi dar-me quarenta e oito horas para acalmar, para reflectir…” (p.661)
  • Ele (Ega) ficou a olhar estupidamente para aquela colcha lisa, com a dobra do lençol de renda cuidadosamente entreaberta pelo Baptista. E agora não duvidava. Carlos fora findar a noite à Rua de S. Francisco!… Estava lá, dormia lá! E só uma ideia surgia através do seu horror – fugir, safar-se para Celorico, não ser testemunha daquela incomparável infâmia!… (p.662)
  • A porta rangeu. E apareceu Afonso da Maia, pálido, com um jaquetão sobre a camisa de dormir, e um castiçal onde a vela ia morrendo. Não entrou. Numa voz enroquecida, que tremia: “ – O Carlos? Esteve lá? (…) Escusas de dizer, eu sei, mandei espreitar…” (p.663)
  • “ – Tem a bondade de escutar!… Então partes para Santa Olávia, ou quê? (…) É que não se pode ficar assim eternamente… Recebi uma carta da minha mãe… E se não partes para Santa Olávia, eu vou para Celorico… É absurdo! Já estamos nisto há três dias!” (p.664)
  • Nessa madrugada, às quatro horas, em plena escuridão, Carlos cerrara de manso o portão da Rua de S. Francisco. E, mais pungente, apoderava-se dele, na frialdade da rua, o medo que já o roçara (…) o medo do voltar ao Ramalhete! (…) Era medo do avô, medo do Ega, medo do Vilaça; medo daquela sineta do jantar que os chamava, os juntava; medo do seu quarto, onde a cada momento qualquer deles podia erguer o reposteiro, entrar, cravar os olhos na sua alma e no seu segredo… (p.665)
  • (…) nunca mais do espírito daqueles homens, que eram os seus melhores amigos, sairia a memória e a dor da infâmia em que ele se despenhara. A sua vida moral estava estragada… (…) já nessa noite, deitado junto de Maria, que adormecera cansada, o pressentira, apoderando-se dele, como um primeiro frio de agonia. (p.666)
  • Era, surgindo do fundo do seu ser, ainda ténue mas já perceptível, uma saciedade, uma repugnância por ela, desde que a sabia do seu sangue!… Uma repugnância material, carnal, à flor da pele, que passava como um arrepio.” (p.666)
  • Carlos não se moveu, sufocado; e os dois olhos do velho, vermelhos, esgazeados, cheios de horror, caíram sobre ele, ficaram sobre ele, varando-o até às profundidades da alma, lendo lá o seu segredo. (…) e os seus passos perderam-se no interior da casa, lentos, abafados, cada vez mais sumidos, como se fossem os derradeiros que devesse dar na vida! (pp.667-668)
  • Carlos entrou no quarto à escuras, tropeçou num sofá. E ali se deixou cair, com a cabeça enterrada nos braços, sem pensar, sem sentir, vendo o velho lívido passar, repassar diante dele como um longo fantasma, com a luz avermelhada na mão. (p.668)
  • “ – Ó sr. D. Carlos, ó meu menino! O avô achou-se mal no jardim, não dá acordo!…” (…) Arrebatadamente, Carlos levantara-lhe a face, já rígida, cor de cera, com os olhos cerrados, um fio de sangue aos cantos da longa barba de neve. (…) Outra vez lhe palpava o coração… Mas estava morto. (pp.668-669)
  • Em silêncio, Ega tomou a pena, redigiu um bilhete muito curto. Dizia: “Minha senhora. (Maria Eduarda) O sr. Afonso da Maia morreu esta madrugada, de repente, com uma apoplexia. Vossa Excelência compreende que, neste momento, Carlos nada mais pode do que pedir-me para eu transmitir a Vossa Excelência esta desgraçada notícia.”  (pp.673-674)
  • Apenas lá entraram, Carlos correu o reposteiro, olhou para o Ega: “ – Tens dúvida em ir falar, a ela?” “ – Não. Para quê?… Para lhe dizer o quê?” “ – Tudo.” (…) “ – Além disso, desejo que ela parta, que parta já para Paris… Seria absurdo ficar em Lisboa… Enquanto se não liquidar o que lhe pertence, há-de-se-lhe estabelecer uma mesada, uma larga mesada…” (p.677)
  • Era o gato! Era o “Reverendo Bonifácio”, que, diante do quarto de Afonso, arranhando a porta fechada, miava doloridamente. Ega escorraçou-o, furioso. O pobre “Bonifácio” fugiu, obeso e lento, com a cauda fofa a roçar o chão: mas voltou logo, e esgatanhando a porta, roçando-se pelas pernas do Ega, recomeçou a miar, num lamento agudo, saudoso como o de uma dor humana, chorando o dono perdido que o acariciava no colo e que não tornara a aparecer. (p.680)
  • Ega correu ao escritório a pedir ao Vilaça que dormisse essa noite no Ramalhete. O procurador acedeu, impressionado com aquele horror do gato a chorar. (…) “ – Há três anos, quando o sr. Afonso me encomendou aqui as primeiras obras, lembrei-lhe eu que, segundo uma antiga lenda, eram sempre fatais aos Maias as paredes do Ramalhete. O sr. Afonso da Maia riu de agouros e lendas… Pois fatais foram!” (p.681)
  • No dia seguinte, levando os papeis da Monforte e o dinheiro em letras e libras que Vilaça lhe entregara à porta do Banco de Portugal, Ega, com o coração aos pulos, mas decidido a ser forte, a afrontar a crise serenamente, subiu ao primeiro andar da Rua de S. Francisco. (p.680)
  • Agarrara rapidamente o chapéu, veio tomar-lhe a mão inerte e fria: “ –Tudo é uma fatalidade! Vossa Excelência é nova, ainda lhe resta muita coisa na vida, tem a sua filha a consolá-la de tudo… Não lhe sei dizer mais nada!” sufocado, beijou-lhe a mão que ela lhe abandonou, sem consciência e sem voz, de pé, direita no seu negro luto, com a lividez parada de um mármore. E fugiu. (p.684)

  • No dia seguinte, na estação de Santa Apolónia, Ega, que viera cedo com o Vilaça, acabava de despachar a sua bagagem para o Douro, quando avistou Maria, que entrava trazendo Rosa pela mão. (p.686)

Capítulo XVIII

  • Mas, passado ano e meio, num lindo lia de Março, Ega reapareceu no Chiado. (…) “ – E Carlos?…” “ – Magnífico! Instalado em Paris, num delicioso apartamento dos Campos Elísios, fazendo a vida larga de um príncipe artista da Renascença…” (p.689)
  • E esse ano passou. Gente nasceu, gente morreu. Searas amadureceram, arvoredos murcharam. Outros anos passaram. Nos fins de 1886, Carlos, veio fazer o Natal perto de Sevilha, a casa de um amigo seu de Paris (…) escreveu para Lisboa ao Ega, anunciando que, depois de um exílio de quase dez anos, resolvera vir ao velho Portugal, ver as árvores de Santa Olávia e as maravilhas da Avenida. (pp.689-690)
  • Com efeito, Carlos pouco se demorou em Resende. E numa luminosa e macia manhã de Janeiro de 1887, os dois amigos (Carlos e Ega), enfim juntos, almoçavam num salão do Hotel Bragança, com as duas janelas abertas para o rio. (p.690)
  • Carlos e Ega iam ao Ramalhete visitar o casarão. (p.696)
  • No salão nobre os móveis de brocado, cor de musgo, estavam embrulhados em lençóis de algodão, com amortalhados, exalando um cheiro de múmia a terebentina e cânfora. E no chão, na tela de Constable, encostada à parede, a condessa de Runa, erguendo o vestido escarlate de caçadora inglesa, parecia ir dar um passo, sair do caixilho dourado, para partir também, consumar a dispersão da sua raça… (p.707)
  • E reconheceu que tropeçara na antiga almofada de veludo do velho “Bonifácio”. (…) Vilaça (…) mandara-lhe fazer um mausoléu, uma simples pedra de mármore branco, sob uma roseira, debaixo das janelas do quarto do avô. (p.709)

  • Em baixo, o jardim, limpo e frio na sua nudez de Inverno, tinha a melancolia de um retiro esquecido, que já ninguém ama: uma ferrugem verde, de humidade, cobria os grossos membros da Vénus de Citereia; cipreste e o cedro envelheciam juntos, como dois amigos  num ermo; e mais lento corria o prantozinho da cascata, esfiado saudosamente, gota a gota, na bacia de mármore. (p.710)

  • “- Ela continua a viver em Orléans, não é verdade?” Sim, disse Carlos, numa quinta que lá comprara, chamada Les Rosières. O noivo devia habitar nos arredores algum pequeno château. Ela chamava-lhe “vizinho”. E era naturalmente um gentilhomme campagnard, de família séria, com fortuna… (p.711)
  • “ – E que somos nós?” – exclamou Ega. “ – Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão…” (p.714)
  • Riram ambos. Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua teoria da vida, a teoria definitiva que ele deduzira da experiência e que agora o governava. Era o fatalismo muçulmano. Nada desejar e nada recear… (p.715)
  • Ega, em suma, concordava. Do que ele principalmente se convencera, nesses estreitos anos de vida, era da inutilidade de todo o esforço. Não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na Terra (p.715)
  • Eram seis e um quarto! (…) Os dois amigos lançaram a passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fria e fina que lhes cortava a face. “ – Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentámos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma.” (p.716)
  • A lanterna vermelha do americano, ao longe, no escuro, parara. E foi então em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço: “ – Ainda o apanhamos!” “ – Ainda o apanhamos!” De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia. (p.716)
 

4 responses to “– Leitura d’Os Maias (XVI-XVIII)

  1. .

    Abril 17, 2010 at 3:13 pm

    esta site está excelente .
    foi pena só o ter encontrado agora mas, desde já, muitos parabéns
    obrigado pela ajuda

     
  2. Ricardo

    Maio 13, 2013 at 9:13 pm

    realmente esta muito bom😀 só é pena nao ter encontrado as intenções criticas.. grande abraço

     
  3. maria

    Fevereiro 20, 2014 at 5:51 pm

    devia ter a linguagem de eça nos capitolos e caracteristicas da narrativa

     
  4. Teresa Marques

    Fevereiro 22, 2014 at 8:54 am

    Boa leitura de Eça até ao último “capítolo”, Maria!🙂

     

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