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– Leitura d’Os Maias (XIV-XV)

Capítulo XIV

  • Foi num sábado que Afonso da Maia partiu para Santa Olávia. Cedo nesse mesmo dia, Maria Eduarda, que o escolhera por ser de boa estreia, instalara-se nos Olivais. (…) no domingo, quando Carlos recolheu ao Ramalhete ao anoitecer – Baptista anunciou que o sr. Ega tinha partido nesse momento para Sintra (p.447)
  • “ – Em todo o caso é uma rês traiçoeira, e deves ter cautela com ele…” Carlos encolheu os ombros, rindo. “ – Não, não” – dizia o Taveira muito sério. “ – Eu conheço o meu Dâmaso. (…) É capaz de tudo… Anteontem estava eu a cear no Silva, ele veio sentar-se ao pé de mim, e começou logo com umas coisas a teu respeito, umas ameaças…” (p.449)
  • “ – Ameaças! Que diz ele?” “ – Diz que dás ares de espadachim e de valentão, mas hás-de encontrar dentro em pouco quem te ensine… Que se está aí preparando um escândalo monumental… Que se não admirará de te ver brevemente com uma boa bala na cabeça…” (p.449)
  • “ – Ouve lá” – dizia-lhe o poeta (Alencar) baixo, e puxando-o pela manga, para o lado. “ – Tu não conheces este meu amigo? Pois foi muito de teu pai, fizemos muita troça juntos… (…) É o tio do Dâmaso! (…) Veio aí por causa de umas terras que herdou do irmão, dessoutro tio do Dâmaso que morreu há meses…” (pp.450-451)
  • Todo o caminho, até ao Ramalhete, Carlos foi pensando em seu pai e nesse passado, assim rememorado e estranhamente ressurgido pela presença daquele patriarca (Guimarães) (…) E isto trazia conjuntamente outra ideia, que nesses últimos dias já o atravessara, pertinaz e torturante, dando-lhe, no meio da sua radiante felicidade, um sombrio arrepio de dorCarlos pensava no avô. (p.451)
  • Sim, o avô! Ele partia com Maria, ele entrava na ventura absoluta; mas ia destruir de uma vez para sempre a alegria de Afonso, e a nobre paz que lhe tornava tão bela a velhice. (…) Para Afonso haveria apenas um homem que leva a mulher de outro, leva a filha de outro, dispersa uma família, apaga um lar, se atola para sempre na concubinagem (…) E seria para ele como o horror de uma fatalidade! (pp.451-452)
  • Chegara ao fim do Aterro. O rio silencioso fundia-se na escuridão. Por ali entraria em breve, do Brasil, o outro (…) Ah, se ele não voltasse! (…) Ah, se ele morresse!…(p.453)
  • Todas as manhãs, agora, Carlos percorria o poeirento caminho dos Olivais.  Para poupar aos seus cavalos a soalheira, ia na tipóia do “Mulato”, o batedor favorito do Ega – que recolhia a parelha na velha cavalariça da Toca. (p. 454)

  • Davam duas horas; e começavam logo nos quartos de cima, as longas lições de Rosa. Carlos e Maria iam então refugiar-se, numa intimidade mais livre, no quiosque japonês, que uma fantasia de Craft, o seu amor do Japão, construíra ao pé da rua de acácias, aproveitando a sombra e o retiro bucólico de dois velhos castanheiros. Maria afeiçoara-se àquele recanto, chamava-lhe o seu pensadoiro. (p. 455)
  •  (…) Maria desejava tão ardentemente essa noite como ele. Um tarde, ao escurecer, voltando de um fresco passeio pelos campos, experimentaram ambos a dupla chave (…) e ele ficou surpreendido ao ver que o velho portão, que ouvira sempre ranger abominavelmente, rolava agora nos gonzos com um silêncio oleoso. (pp.454-457)

  • “- Por que não havemos de partir já para Itália?” – perguntou ela (Maria Eduarda) de repente (…) “ – Em todo o caso, compreendes bem, preciso de ir primeiro de ir a Santa Olávia, ver o avô…” (…) Os olhos de Maria perdiam-se outra vez na escuridão – como recebendo dela o presságio de um futuro onde tudo seria confuso e escuro também. (p.458)
  • Passados dias, passeando com Maria nos arredores da Toca, Carlos reparou numa casita, à beira da estrada, com escritos: e veio-lhe logo a ideia de a alugar, para evitar aquela desagradável partida de madrugada (p.459)
  • Numa dessas noites, de grande calor, Carlos, cansado, adormeceu num sofá: e só despertou, em sobressalto, quando o relógio da parede dava tristemente as duas horas. (…) Agarrou o cajado, abalou, correndo pela estrada. (…) E de repente sentiu ao lado, sob as ramagens, um resfolgar ardente de homem, a que se misturavam beijos. (…) “Oh yes, oh yes…” Era a inglesa! (p.461)
  • Mas agora ia sentindo uma hesitação em contar a Maria aquele horror. A seu pesar, pensava que também Maria o esperava, com o leito aberto, no silêncio da casa adormecida; e que também ele penetrava ali, às escondidas, como o homem da manta… (p.462)
  • Assim ia passando o Verão nos Olivais. No começo de Setembro, Carlos soube por uma carta do avô que Craft devia chegar a Lisboa num sábado, ao Hotel Central. (p.464)
  • Maria lançou-lhe então os braços ao pescoço, e baixo, timidamente, confessou-lhe um grande desejo que tinha… Era ver o Ramalhete! (…) Foram então percorrer todo o Ramalhete, até ao terraço. (…) “ – Não sei porquê” – murmurou dando um olhar lento às estantes pesadas e ao Cristo na cruz – “não sei porquê, mas o teu avô faz-me medo!” (pp. 467-468)
  • Desceram ao jardim, que lhe agradou também, quieto e burguês, com a sua cascatazinha chorando num ritmo doce. Sentaram-se um instante sob o velho cedro, junto a uma mesa rústica de pedra, onde estavam entalhadas letras mal distintas e uma data antiga; o chalrar das aves nos ramos pareceu a Maria mais doce que o de todas as outras aves que ouvira; depois arranjou um ramo para levar como relíquia. (p.469)

  • Às cinco horas pensaram em jantar. A mesa fora posta numa saleta (…) Carlos pusera ali ultimamente um retrato de seu pai – uma tela banal, representando um moço pálido, de grandes olhos, com luvas de camurça e chicote na mão. (…) “ – Quem é?” – perguntou. “ – É o meu pai.”
  • Ela examinou-o mais de perto, erguendo a vela. Não achava que Carlos se parecesse com ele. (…) “ – Sabes tu com quem te pareces às vezes?… É extraordinário, mas é verdade. Pareces-te com a minha mãe! (pp.470-471)
  • “ – Pois é verdade, há um não sei quê na testa, no nariz… Mas sobretudo certos jeitos, uma maneira de sorrir… Outra maneira que tu tens de ficar assim um pouco vago, esquecido… Tenho pensado nisto muitas vezes… (p.471)
  • “ – É curioso não mo teres dito antes… Também tu nunca me falaste da tua mãe…” (…) Casou na Madeira com um austríaco (…) tive uma irmãzinha, que morreu em pequena.” (p.472)
  • A porta abriu-se – e o Ega parou, assombrado, intimidado, de chapéu branco, de guarda-sol branco, e com um embrulho de papel na mão. ” – Maria” – disse Carlos – aqui tens enfim o meu grande amigo Ega.” E ao Ega disse simplesmente: “ – Maria Eduarda.” (p.473)
  • Não era o correio. Era apenas um bilhete que o Baptista trazia numa salva: e vinha tão perturbado que anunciou “um sujeito, ali fora, na antecâmara, numa carruagem, à espera…” Carlos olhou o bilhete, empalideceu terrivelmente. (…) Era o Castro Gomes! (p.477)
  • “ – O motivo porém que me traz  esta manhã é tão urgente, que cheguei esta manhã às dez horas do Rio de Janeiro, ou antes, do Lazareto, e estou aqui!… E esta mesma noite, se puder, parto para Madrid.” (p.479)
  • “ – Eu recebi no Rio de Janeiro, antes de partir, este escrito anónimo (…) ‘a sua mulher é, à vista de toda a Lisboa, a amante de um rapaz muito conhecido aqui, Carlos Eduardo da Maia, que vive numa casa às Janelas Verdes’ (p.479)
  • “ – Não tenho nada a dizer a Vossa Excelência (Castro Gomes) senão que estou às suas ordens!…” (…) “ – Perdão… O sr. Carlos da Maia sabe, tão bem como eu, que, se isto tivesse que ter uma solução violenta, eu não viria aqui pessoalmente, à sua casa, ler-lhe este papel… A coisa é inteiramente outra.” (p.474)
  • “ – É por isso que aqui venho, muito francamente, de gentleman para gentleman, dizer-lhe, como tenho tenção de dizer a outros, que aquela senhora não é minha mulher.” (…) Aquela senhora vinha comigo, dormia comigo, portanto, para todos os efeitos do hotel, era minha mulher. (…) O que importa agora é que lhe retiro solenemente o nome que lhe emprestara; e ela fica apenas com o seu, que é Madame Mac Gren.“ (pp. 481-482)
  • “ – A pequerruchinha que ali anda não é minha filha… Eu conheço a mãe somente há três anos… Vinha dos braços de um qualquer, passou para os meus… Posso pois dizer, sem injúria, que era uma mulher que eu pagava.” (p.482)
  • Carlos ficara caído numa cadeira, junto da porta, com a cabeça entre as mãos. (…) O seu amor fora, desde que a vira, como o próprio sangue das suas veias; e escoava-se agora todo através da ferida incurável, e que nunca mais fecharia, feita no seu orgulho! (p.484)
  • “ – O que tu deves fazer, meu caro Carlos…” “- O que eu vou fazer é escrever-lhe uma carta, remetendo-lhe o preço dos dois meses que dormi com ela…” “ – Brutalidade romântica!… Isso já vem da “Dama das Camélias”… (p.486)

  • Carlos, no seu quarto, passeava diante da mesa onde a folha branca de papel, em que ia escrever a Maria Eduarda, já tinha a data desse dia, depois: Minha senhora, numa letra que ele se esforçava por traçar bem firme e serena. (p.486)
  • Mas porquê? Porquê? Por que entrara ela nesta longa fraude, tramada dia a dia, mentindo em tudo, desde o pudor que fingia até ao nome que usava! (…) E então, pouco a pouco, foi surgindo nele o desejo de ir aos Olivais… Sim, não lhe bastaria desforrar-se arrogantemente, atirando-lhe ao regaço um cheque embrulhado numa insolência! (pp.488-489)
  • “ – Sabes uma coisa que me parece certa?” – disse de repente o Ega da janela. “ – Quem escreveu a carta anónima ao Castro Gomes foi o Dâmaso! (p.490)
  • Daí a pouco rodava pela estrada dos Olivais. (…) Então veio-lhe uma fraqueza. Bateu nos vidros para fazer parar, reflectir um instante, mais calmamente, no silêncio das rodas. O cocheiro não ouviu: o trote largo da parelha continuou batendo a estrada escura. E Carlos deixou seguir, outra vez hesitante. (pp.491-492)
  • Estavam próximo do portão da Toca. Carlos retrocedeu, respirando fortemente, com o chapéu na mão. E agora todo o seu orgulho se ia sumindo, sob a violência da sua ansiedade. (p.494)
  • Um momento com o coração cheio de fadiga, pensou em voltar a Lisboa. Mas para além daquele negro muro estava ela, perdida de choro, querendo morrer… E lentamente, recomeçou a caminhar para o portão. (p.494)
  • “ – É a tua mentira que nos separa, a tua horrível mentira, a tua mentira somente!” (…) “ – Que queres tu dizer? Que estas lágrimas têm outro motivo, estas súplicas são fingidas? Que finjo tudo para te reter, para não te perder, ter outro homem, agora que estou abandonada?…” (pp.499-501)
  • Num instante Maria estava caída a seus pés, com os braços abertos para ele. “ – Juro-te por alma da minha filha, por alma de Rosa! Amo-te, adoro-te doidamente, absurdamente, até à morte!” (p.501)
  • Carlos voltou-se ferido no coração. (…) “ – Maria, queres casar comigo?” (p.502)
  • Ela ergueu a cabeça, sem compreender, com os olhos desvairados. Mas Carlos tinha os braços abertos; e estava esperando para fechar dentro deles outra vez, como sua e para sempre… (p.502)

Capítulo XV

  • Maria Eduarda e Carlos – que ficara essa noite nos Olivais, na sua casinhola, acabavam de almoçar. (…) E, arranjando-lhe (Rosa) a fita do cabelo, perguntou, muito séria, muito comovida, se ela gostaria que Carlos viesse viver com elas de todo e ficar ali na toca… (p.504)
  • A pequena ficou pasmada para o seu amigo, depois para a mãe. E pareceu compreender tudo; escorregou dos joelhos da Maria, veio encostar-se a Carlos com uma meiguice humilde. (p.504)
  • Quando Maria entrou no quiosque, trazia um cofre de sândalo. (…) Era toda a sua existência que ela desejava contar. (…) Nascera em Viena: mas pouco se recordava dos tempos de criança. (…) Enfim a mamã metera-a num convento ao pé de Tours. (…) a mamã ao princípio vinha vê-la todos os meses. (pp.505-507)

  • A mamã ao princípio vinha vê-la todos os meses, demorando-se me Tours dois ou três dias; trazia-lhe uma profusão de presentes (…) e havia sempre oficiais a cavalo, que escoltavam a caleche – e tratavam a mamã por tu. (p.507)
  • Depois a mamã começou a aparecer menos em Tours. Esteve um ano longe, quase sem escrever, viajando na Alemanha; voltou um dia, magra e coberta de luxo, e ficou toda a manhã abraçada a ela a chorar. (…) Mas na visita seguinte vinha mais moça, mais brilhante, mais ligeira, com dois grandes galgos brancos (p.507)
  • Ela (Maria Eduarda) tinha quase dezasseis anos (…) Um dia, porém, apareceu para a levar para Paris, para a mamã, uma Madame de Chavigny, fidalga pobre (…) O que ela chorara ao deixar o convento! Mais choraria se soubesse o que ia encontar em Paris! (p.508)
  • A casa da mamã, no Parque Monceaux, era na realidade uma casa de jogo – mas recoberta de um luxo sério e fino. (…) Depois, uma noite, estando deitada, sentira de repente gritos, uma debandada brusca na escada: veio encontrar a mamã estirada no tapete, desmaiada; ela dissera-lhe apenas mais tarde, alagada em lágrimas, “que tinha havido uma desgraça”… (p.508)
  • Mudaram então para um terceiro andar da Chaussée-d’Antin. Aí começou a aparecer uma gente desconhecida e suspeita. (…) e ela, só com a mamã, insensivelmente, fatalmente, fora-se misturando com essa vida tresnoitada de grogues e bacará. (pp.508-509)
  • Por fim houve uma penhora: uma noite tiveram de enfardelar à pressa roupa num saco, e ir dormir a uma hotel. E, pior que tudo, Mr. De Trevernnes começava a olhar para ela de um modo que a assustava. (p.509)
  • A mamã, uma manhã, partiu com uma súcia para Baden. Fiquei em Paris só, num hotel… Tinha um palpite, um terror que Trevernnes aparecia… E eu só! Estava tão transtornada que pensei em comprar um revólver… Mas quem veio foi Mac Gren. (…) E partira com ele, sem precipitação, como sua esposa, levando todas as malas. (p.509)
  • De repente rebentou a guerra com a Prússia. Mac Gren, entusiasmado, e apesar das súplicas delas, correra a alistar-se (…) Começaram então dias de infinito sobressalto. Felizmente Rosa convalescia. (…) com o dinheiro que Mac Gren deixara, partiram para Londres. (p.509)
  • Ela (Maria Eduarda) procurava uma ocupação qualquer – costura, bordados, traduções, cópias de manuscritos… Não achava nada. (…) A mamã não cessava de chorar (…) as suas alusões constantes à facilidade de se ter em Londres dinheiro, conforto e luxo, quando se é nova e se é bonita. (p.509)
  • Um dia, por acaso, em Regent Street, encontrara um amigo de Mac Gren, outro irlandês, que muitas vezes jantara com eles em Fontainbleau. (…) Ao partirem, na estação de Charing Cross, o irlandês levou-a para um canto, e engasgado, torcendo os bigodes, disse-lhe que Mac Gren tinha morrido na batalha de Saint-Privat. (pp.514-514)
  • Em Paris recomecei a procurar trabalho. (…) A mamã já se queixava da doença de coração que a matou… (…) Conheci então Castro Gomes em casa de uma antiga amiga da mamã (…) Há só uma coisa mais que te quero dizer. E é a santa verdade, juro-te pela alma de Rosa! É que nestas duas relações que tive, o meu coração conservou-se adormecido… Dormiu sempre, sempre, sem sentir nada, sem desejar nada, até que te vi… (p.514)
  • Por isso Carlos concebera outro plano, mais sagaz: consistia em esconder ao avô o passado de Maria. Casavam secretamente em Itália. Regressavam: ela para a Rua de S. Francisco, ele filialmente para o Ramalhete. Depois levava o avô a casa da sua boa amiga, que conhecera em Itália, Madame Mac Gren. (p.516)
  • Agora, ao aproximar-se da Toca, Ega ia receando esse primeiro encontro com Maria Eduarda. (…) Por fim tudo se passou com uma facilidade risonha. (…) Como dizia o Ega, devia esperar, deixar-se ir… E no entanto Maria e ele não poderiam isolar-se ali todo um longo Inverno, sem o calor sociável de alguns amigos em redor. Por isso uma manhã, (Carlos) encontrando Cruges (…) pediu-lhe para vir jantar à Toca no domingo. (pp.519-524)
  • Desde o meado de Outubro, Afonso da Maia falava da sua partida de Santa Olávia (…) Carlos e Maria pensavam também em abandonar os Olivais. (…) Mas o correio, nessa manhã, consistia apenas numa carta do Ega e dois números de jornal cintados – um para ele, outro para “Madame Castro Gomes, na quinta do sr. Craft, aos Olivais”. (p.530)
  • Carlos abriu a carta do Ega. Era da véspera com a data: “À noite, à pressa.” E dizia: “Lê, nesse trapo que te mando, esse superior pedaço de prosa que lembra Tácito. Mas não te assustes; eu suprimi, mediante pecúnica, toda a tiragem (p.530)
  • Inquieto, Carlos descintou o jornal. Chamava-se “Corneta do Diabo”: e na impressão, no papel, na abundância de itálicos, no tipo gasto, todo ele revelava imundície e malandrice. Logo na primeira página duas cruzes a lápis marcavam um artigo que Carlos, num relance, viu salpicado com o seu nome. E uma única ideia surgia através da sua confusão – matar o bruto que escrevera aquilo. (p.530-531)
  • Muito discretamente Maria olhara para o rio. Ega fez então um gesto rápido com os dedos, significando “dinheiro, só questão de dinheiro”. Carlos sossegou: e Ega voltou a falar dos inundados do Ribatejo e do sarau literário e artístico que, em benefício deles, se “ia cometer” no salão da Trindade. (p.536)
  • Mas a tipóia estacou antes da calçada, rente ao passeio, em frente de uma loja de alfaiate. E nesse instante achava-se aí parado, calçando as suas luvas pretas, um velho alto, de longas barbas de apóstolo, todo vestido de luto. Ao ver Maria, que se inclinara à portinhola, o homem pareceu assombrado (…) “ – Quem é?” – perguntou Carlos. “ – É o tio do Dâmaso, o Guimarães” – disse Maria, que corara também. – É curioso, ele aqui!” (p.537)
  • Seguindo devagar pelo Aterro, Ega contou a história da imundície. (…) O artigo, pois, fora-lhe (ao Palma “Cavalão”) simplesmente encomendado e pago. (p.538)
  • “ – Vamos ao ponto essencial… Quanto quer o sr. Palma por me dizer quem lhe encomendou o artigo da “Corneta”? (…) Imediatamente Carlos tirou da algibeira das calças um punhado de libras, que começou a deixar cair uma a uma dentro do prato. (…) (Carlos) reconheceu a letra do Dâmaso. (pp.540-542)
  • “ – E agora salta para dentro e vamos liquidar o Dâmaso…” (…) O duelo devia ser à espada ou ao florete (…) Senão, a única explicação que Carlos aceitaria do sr. Salcede seria um documento em que ele escrevesse esta coisa simples. “Eu, abaixo assinado, declaro que sou um infame.” (…) Portanto Ega e ele Cruges iam a casa do Dâmaso pedir-lhe a honra ou a vida. (pp.544-549)
  • “ – Aqui está a sua carta remetendo ao Palma “Cavalão” o rascunho do artigo. (…) O Dâmaso não é só o inspirador, mas materialmente o autor do artigo… O nosso amigo Carlos da Maia exige, pois, como injuriado, uma reparação pelas armas… (…) Dâmaso deu um salto da poltrona (p.553)
  • “ – o Dâmaso injuriou Carlos da Maia: ou se retrata publicamente dessa injúria, ouuma reparação pelas armas… (…) Em resumo, Dâmaso, desdiz-se ou bate-se?” “ – Desdizer-me? (…) Eu sou lá homem que me desdiga!” (…)” – Perfeitamente, então bate-se…” “ – Qual bater-me! Eu sou lá homem que me bata!” (p.555)
  • Dâmaso voltava com o seu sumptuoso papel de monograma e coroa. (…) o brasão de Salcede, onde havia um leão, uma torre, um braço armado, e por baixo, a letra de ouro, a sua formidável divisa: “Sou forte”. (p.557)
  • ”(…) e a minha única desculpa está em que o compus ( o artigo) e enviei à redacção da “Corneta” no momento de me achar no mais completo estado de embriaguez…” “ – Embriaguez é com “n” ou com “m”? (pp.558-561)
  • “ – Eu (Carlos) estou mais que vingado” – concluiu Carlos. – “Guarda o papel: é obra tua (Ega), usa-o como quiseres…” (p.562)
  • Mas quase imediatamente, um criado trouxe-lhe um telegrama de Afonso da Maia, anunciando que chegava no dia seguinte ao Ramalhete. Ega teve de sair, telegrafar para os Olivais, avisar Carlos. (…) Carlos e Ega acharam Afonso mais acabado, mais pesado. (…) Ele (Afonso da Maia) encolheu os ombros, queixando-se de ter sentido, desde o fim do Verão, vertigens, um cansaço vago…” (pp.564-565)
  • Subitamente, com uma ideia, (Ega) palpou por sobre o bolso a carteira onde na véspera guardara a carta do Dâmaso… (…) E abalou, desceu a Rua da Trindade, cortou pelo Loreto como uma pedra que rola, enfiou, ao fundo da Praça da Camões, num grande portão que uma lanterna alumiava. Era a redacção d’ ”A Tarde”. (p.571)
  • Era meia-noite, Ega saiu. E na tipóia que o levava ao Ramalhete, já mais calmo, começou logo a reflectir que o resultado da publicação da carta seria despertar em toda Lisboa uma curiosidade voraz. (…) E subindo para o quarto, Ega decidida correr depois de almoço à redacção d’ “A Tarde”, suster a publicação da carta. (pp.579-580)
  • Mas toda essa noite (Ega) sonhou com Raquel e com Dâmaso. (…) Acordou nestes urros de agonia: e a sua cólera contra o Dâmaso ressurgiu, mais nutrida pelas incoerências do sonho. Além disso chovia. E decidiu não voltar “À Tarde”, deixar imprimir a carta. (p.580)
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