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– Leitura d’Os Maias (XI-XIII)

Capítulo XI

  • Na manhã seguinte, Carlos, que se erguera cedo, veio a pé do Ramalhete até à Rua de S. Francisco, a casa de Madame Gomes.  (…) ‘ – Tenha Vossa Excelência a paciência de esperar um instantinho que eu vou dar parte à srª D. Maria Eduarda…’  (…) Maria Eduarda, Carlos Eduardo… Havia uma similitude nos seus nomes. Quem sabe se não pressagiava a concordância dos seus destinos. (pp.345-346)
  • (…) Carlos, tirando as luvas, deu uma volta curiosa e lenta pela sala.  (…) sobre uma estante ao lado, cheia de partituras, de músicas, de jornais ilustrados, pousava um vaso do Japão onde murchavam três belos lírios brancos. (p.347)
  • E, confortavelmente enroscada no macio da cadeira, achava-se aí, nesse momento a famosa cadelinha escocesa, que tantas vezes passara nos sonhos de Carlos, trotando ligeiramente atrás de uma radiante figura pelo Aterro fora, ou aninhada e adormecida num doce regaço. (…) Carlos ia coçá-la e amimá-la, quando um passo leve pisou a esteira. Voltou-se, viu Maria Eduarda diante de si. (p.348)

  • Os cabelos não eram loiros, como julgara de longe à claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e castanho- escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa. Na grande luz escura  dos seus olhos havia ao mesmo tempo alguma coisa de muito grave e de muito doce. (p.349)
  • Ela sorriu também com um lindo sorriso que lhe fazia uma covinha no queixo, dava uma doçura mais mimosa às suas feições sérias. E alegremente, batendo as palmas, chamando para dentro do biombo: ‘– Niniche! Estão-te a fazer elogios, vem agradecer!’ Niniche apareceu a bocejar. Carlos achava lindo este nome de Niniche. E era curioso, tinha tido também uma galguinha italiana que se chamava Niniche… (p.350)

  • Melanie correu um reposteiro de linho cru, fê-lo (Carlos) entrar num quarto claro e fresco: aí fora encontrar a pobre Miss Sara num leitozinho de ferro, sentada, com um laço de seda azul ao pescoço, e os bandós tão lisos, tão acamados pela escova, como se fosse sair num domingo para a capela presbiteriana. (p.350)
  • Apenas Carlos se sentou, ela (Miss Sara) imediatamente, com duas rosetas de vergonha na face, entre frouxos de tosse, declarou que não tinha nada. (…) E quando ouviu que eram precisos tantos agasalhos, que teria de estar ali no quarto ainda quinze dias, perturbou-se mais, duas lagrimazinhas tímidas quase lhe fugiram das pestanas. Carlos terminou por lhe afagar paternalmente a mão. ‘- Oh! Thank you, sir! – murmurou ela, comovida de todo. (p.351)
  • ‘ – Pobre Sara! – dizia ela (Maria Eduarda) – E é curioso, não é verdade? Veio com o pressentimento, quase com a certeza, que havia de adoecer em Portugal… (…) Oh! tem-lhe já horror! Acha muito calor, por toda a parte maus cheiros, gente hedionda… Tem medo de ser insultada na rua… Enfim é infelicíssima, está ardendo por se ir embora… (pp.354-355)

  • ‘- E Vossa Excelência tem-se dado bem em Portugal, minha senhora?’ Ela encolheu os ombros indecisa. ‘- Sim… devo dar-me bem… É o meu país.’ (…) Maria Eduarda queixava-se sobretudo das casas, tão faltas de comodidade, tão despidas de gosto, tão desleixadas. Aquela em que vivia fazia a sua desgraça.  (pp.355-356)
  • (Carlos) deu um olhar às paredes, ao estuque enxovalhado dos tectos – e lembrou-lhe de repente a quinta do Craft, com a sua vista de rio, o ar largo, as frescas ruas de acácias. (p.356)

  • O dr. Chaplain? Justamente, Carlos conhecia muito o dr. Chaplain. (…) E este sentimento comum pareceu de repente aproximá-los mais docemente: cada um nesse instante adorou o dr. Chaplain: e continuaram ainda falando dele prolongadamente, gozando, através dessa trivial simpatia por um velho clínico, a nascente concordância dos seus corações. (p.357)
  • No seu quarto, no Ramalhete, Baptista entregou-lhe uma carta. (…) Era da Gouvarinho! Meia folha de papel, tendo simplesmente escrito a lápis: All right.” Carlos amarrotou-a furioso. A Gouvarinho!… Não se tornara quase a lembrar dela, desde a véspera, no radiante tumulto em que andara o seu coração. (p.359)

  • (Carlos) Decidiu não lhe escrever. Iria à noite a Santa Apolónia, e no momento do comboio partir correria à portinhola, a balbuciar fugitivamente uma desculpa. (…) Penetrava enfim na sala de espera – quando esbarrou com o Dâmaso (pp.360-361)
  • Foi então que (Carlos) reparou que ele estava carregado de luto (…) “- Morreu-te alguém?” “ – Meu tio Guimarães. (…) o de Penafiel…” (p.361)
  • “- Olha os Gouvarinhos!” Carlos deu um salto também. (…) “- De viagem, conde?” Era verdade. Decidira acompanhar a condessa ao Porto, aos anos do papá… (p.363)
  • Então todos os dias, durante semanas, (Carlos) teve essa hora deliciosa, esplêndida, perfeita, “a visita à inglesa”. (p.365)
  • Foi um encanto para Carlos quando Maria o associou às suas caridades (…) Carlos cumpria esses encargos com o fervor de acções religiosas. E nestas piedades achava-lhe semelhanças com o avô. (p.368)
  • Uma tarde falaram do Dâmaso. Ela achava-o insuportável. (…) “ – O Dâmaso tem-me dito que Vossa Excelência o conhece muito…” Ela erguera os olhos, com um fugitivo rubor no rosto. “ – Mr. Guimarães… Sim, conheço muito… Ultimamente víamo-nos menos, mas ele era muito amigo da mamã.” (p.369)
  • “ – É o sr. Dâmaso!…” (…) Ela (Maria) olhou o Romão, surpreendida daqueles modos, e quase escandalizada. “ – Pois bem, mande entrar!” E Dâmaso rompeu pela sala, carregado de luto (…) Mas ao ver Carlos ali, intimamente de cadelinha ao colo, estacou assombrado (p.373)
  • “ – Então diz-me cá! Como diabo te vou eu encontrar hoje com a brasileira?… Como a conheceste tu? Como foi isso?” (…) Então Dâmaso atirou-se para o canto do sofá e confessou que ao entrar na sala, quando dera com os olhos em Carlos, de cadelinha ao colo, ficara furioso. (pp.377-379)

Capítulo XII

  • Na segunda feira seguinte chuviscava quando Carlos e Ega, no coupé fechado, partiram para o jantar dos Gouvarinhos. (…) “ – Diz-me uma coisa, se não é segredo sacrossanto… Quem é essa brasileira com quem tu agora passas todas as manhãs?” (…) “ – Foi o Dâmaso que me disse. Isto é, foi o Dâmaso que me rugiu…” (pp.386-387)
  • A condessa (de Gouvarinho) tomou o braço de Carlos – e, ao atravessar o salão, entre o frouxo murmúrio de vozes e o rumor lento das caudas de seda, pôde dizer-lhe asperamente: “ – Esperei meia hora: mas compreendi logo que estaria entretido com a brasileira…” (p.389)
  • “ – Que tolice foi essa da brasileira?… Quem lhe disse isso?” Ela confessou-lhe logo que fora o Dâmaso…”
  • Os homens, sós, acenderam os seus charutos; o escudeiro serviu o café. Então o sr. Sousa Neto (…) aproximou-se de Carlos (…) “ – Pessoa muito respeitável… O pai de Vossa Excelência era… enfim, era o que se chama “um elegante”. Tive também o prazer de conhecer a mãe de Vossa Excelência…” E, de repente, calou-se assombrado. (p.397)
  • Depois, lentamente, (Sousa Neto) voltou-se para escutar melhor o Ega, que ao lado discutia com o Gouvarinho sobre mulheres. (…) O conde afirmou logo com exuberância que não gostava também de mulheres literatas; sim, decerto o lugar da mulher era junto do berço, não na biblioteca…” (p.397)
  • Neto, grave, murmurou: “ – Uma senhora, sobretudo quando ainda é nova, deve ter algumas prendas…” Ega protestou, com calor. (…) A mulherdevia ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem. (p.398)

  • Ega atirou os braços ao ar, consternado: “ – Oh! sr. Sousa Neto! Então Vossa Excelência, um chefe de família, acha o amor um assunto escabroso?! O sr. Neto encordoou. E muito direito, muito digno, falando do alto da sua posição burocrática: “ – É meu costume, sr. Ega, não entrar nunca em discussões, e acatar todas as opiniões alheias, mesmo quando sejam absurdas… (pp.398-399)
  • “- E diga-me outra coisa – prosseguiu o sr. Sousa Neto, com interesse, cheio de curiosidade inteligente. –  Encontra-se por lá, em Inglaterra, desta literatura amena, como entre nós, folhetinistas, poetas de pulso?” Carlos deitou a ponta de charuto para o cinzeiro, e respondeu, com descaro: “ – Não, não há nada disso.” (p.400)
  • Nesse instante a condessa voltava de dentro, um pouco afogueada (…) E voltando-se vivamente para Carlos com um sorriso: “- Eu estou com vergonha… Mas se o sr. Carlos da Maia quisesse ter o incómodo de o (Charlie) vir ver um instante… (p.401)
  • E, aí, bruscamente, ela (a Gouvarinho) parou, atirou os braços ao pescoço de Carlos, os seus lábios prenderam-se aos dele num beijo sôfrego, penetrante, completo, findando num soluço de desmaio… Ele ainda sentia aquele lindo corpo estremecer (…) “ – Amanhã, em casa da titi, às onze – murmurou ele, quando pôde falar. “ – Pois sim.” (p.401)
  • “ – Que doida que eu sou… Vamos ver Charlie.” O quarto do pequeno era ao fundo do corredor. (…) Charlie dormia, sereno, fresco (…) a criada escocesa, que trouxera uma luz de sobre a cómoda, disse, sorrindo, tranquilamente: “ – O menino nestes últimos dias tem andado muitíssimo bem…” (p.401)
  • Carlos pôde enfim soltar a pergunta que lhe faiscara nos lábios toda a noite: “ – Ó Ega, quem é aquele homem, aquele Sousa Neto, que quis saber se em Inglaterra havia também literatura?” Ega olhou-o com espanto: (…) “ – Oficial superior de uma grande repartição do Estado! (…) Da Instrução Pública!” (p.402)
  • Na tarde seguinte, às cinco horas, Carlos, que se demorara demais em casa da titi com a condessa, retido pelos seus beijos intermináveis, fez voar o coupé até à Rua de S. Francisco, olhando a cada momento o relógio, num receio de que Maria Eduarda tivesse saído por aquele lindo dia de Verão.” (p.403)
  • Nesse instante, Domingos, erguendo o reposteiro, anunciou que estava ali o sr. DâmasoMaria Eduarda teve um movimento brusco de impaciência: “ – Diga que não recebo!” (p.406)
  • E com uma súbita ideia, (Maria Eduarda) atirando o bordado para o açafate, cruzando as mãos nos joelhos: “ – Diga uma coisa que lhe tenho querido perguntar… Não me seria possível arranjar por aí uma casinhola, um cottage, onde eu fosse passar os meses de Verão?… Era tão bom para a pequena! Mas não conheço ninguém, não sei a quem me hei-de dirigir… Carlos lembrou-se logo da bonita casa do Craft, nos Olivais (p.406)

  • “ – Nos Olivais, muito perto daqui, vai-se lá numa hora de carruagem… (…) Estou aqui a preparar lenha para me queimar!… Porque se for para lá instalar-se, e depois vier o calor, quem é que a torna a ver?” Ela pareceu surpreendida: “ – Mas que lhe custa a si, que tem cavalos, que tem carruagens, que não tem quase nada que fazer?…” (p.408)
  • “ – Quanto incómodo por mim causa! – disse ela. – Realmente! Como lhe hei-de agradecer?…” Calou-se; mas os seus olhos ficaram um instante pousados nos de Carlos (…) Ele murmurou: “ – Por mais que eu fizesse, ficaria bem pago de tudo se me olhasse outra vez assim.” Uma onda de sangue cobriu toda a face de Maria Eduarda. “ – Não diga isso…” “- E que necessidade há que eu lho diga? Pois não sabe perfeitamente que a adoro, que a adoro, que a adoro!
  • “ – Escute! Sabe bem o que sinto por si, mas escute… Antes que seja tarde, há uma coisa que lhe quero dizer…” (…) (Carlos) tomou-lhe lentamente as mãos e beijava-lhas ora uma, ora outra, e as palmas e os dedos, devagar, murmurando apenas: “ – Eu sei o que é! (…) É que um amor como o nosso não pode viver nas condições em que vivem outros amores vulgares…” (pp.409-410)
  • Carlos continuava (…) “ – Sempre que pensava em si, era já com esta esperança de uma existência toda nossa, longe daqui, longe de todos, tendo quebrado todos os laços presentes, pondo a nossa paixão acima de todas as ficções humanas, indo ser felizes para algum canto do mundo, solitariamente e para sempre…” (p.410)
  • “ – Meu Deus! Fugirmos?” – murmurou ela, assombrada. Carlos erguera-se. “ – E que podemos fazer? Que outra coisa podemos nós fazer, digna do nosso amor? (…) Um instante Maria Eduarda ficou pensativa, como recolhida no fundo do seu coração, escutando-lhe as derradeiras agitações. Depois soltou um longo suspiro. “ – Pois seja assim! Seja assim… Havia uma coisa que eu lhe queria dizer, mas não importa… É melhor assim…” (pp.410-411)
  • “- Você quer vender-me tudo isto, Craft?” (…) E ali mesmo concluiram a negociação, passeando numa ruazinha de buxo por entre gerânios em flor. (…) e como Carlos não tinha no Ramalhete lugar para este vasto bricabraque, Craft alugava-lhe por um ano a casa dos Olivais, com a quinta. (p.412)
  • Afonso da Maia aprovou plenamente a compra das colecções do Craft. “É um valor”, disse ele ao Vilaça, “e acabamos de encher com boa arte Santa Olávia e o Ramalhete.” Mas o Ega indignou-se, chegou a falar em “desvario” – despeitado por essa transacção secreta para que não fora consultado. O que o irritava sobretudo era ver, nesta aquisição inesperada de uma casa de campo, outro sintoma do grave e do fundo segredo que pressentia na vida de Carlos. (p.415)
  • Ega escutava-o (Carlos) sem uma palavra, enterrado no fundo do sofá. Supusera um romancezinho (…) e, agora, só pelo modo como Carlos falava daquele grande amor, ele sentia-o profundo, absorvente, eterno, e para o bem e para o mal tornando-se daí por diante, e para sempre, o seu irreparável destino. (p.417)
  • Ega ficou um momento a olhar para Carlos como para um fenómeno prodigioso, e murmurou: “ – É de arromba!” Mas que outra coisa podiam eles fazer? Daí a três meses talvez, Castro Gomes chegava do Brasil. (…) Só lhes restava uma solução digna, decente, séria – fugir. (p.418)

Capítulo XIII

  • Mas nesse instante o correio chegava, com a “Revista dos Dois Mundos”, e uma carta para Carlos. Era da Gouvarinho. (…) A Gouvarinho, num tom amargo, queixava-se que, já por duas vezes, Carlos faltara ao rendez-vous em casa da titi, sem lhe ter sequer escrito uma palavra. “ – Excelente ocasião para acabar! – exclamou Ega (…) “ – É o que eu vou fazer!disse Carlos, começando a calçar as luvas. – Jesus! Que mulher maçadora! (p.421)
  • “ – Tu não tens visto o Dâmaso?” “ – Nunca mais me apareceu – disse Carlos. – Creio que está amuado… Eu sempre que o encontro, aceno-lhe de longe amigavelmente com dois dedos…” “- devia ser antes com a bengala. O Dâmaso anda por aí, por toda a parte, falando de ti e dessa senhora, tua amiga… A ti, chama-te “pulha”, e a ela pior ainda. (p.422)
  • (Carlos) não se conteve, atravessou a rua. Foi breve, e foi cruel: sacudiu a mão do Gouvarinho, saudou de leve o Cohen: e sem baixar a voz, disse ao Dâmaso “ – Ouve lá. Se continuas a falar de mim e de pessoas das minhas relações do modo como tens falado, e que não me convém, arranco-te as orelhas.” (p.426)
  • Depois de jantar, Carlos vestia-se para ir à Rua de S. Francisco – quando o Baptista veio dizer que o sr. Teles da Gama lhe desejava falar com urgência. (…) Carlos olhou-o (Teles da Gama) muito sério: “ – O quê!? Se tinha intenção de ofender o Dâmaso, quando o ameacei de arrancar as orelhas? De modo nenhum: tinha só intenção de lhe arrancar as orelhas!” (p.428)
  • Ao outro dia, por uma radiante manhã de Julho, Carlos saltava do coupé, com um molho de chaves, diante do portão da quinta do Craft. Maria Eduarda devia chegar às dez horas. (…) “ – Vamos ver a casa” – disse ela.
  • ”– Isto é encantador!” – repetia ela. “ – É um paraíso! (…) Como se há-de chamar? (…) Nós chamávamos-lhe a Toca.” Maria Eduarda achou originalíssimo o nome de Toca. (pp.432-433)
  • Mas depois o quarto que devia ser o seu, quando Carlos lho foi mostrar, desagradou-lhe com o seu luxo estridente, sensual. Era uma alcova recebendo a claridade de uma sala forrada de tapeçarias, onde desmaiavam, na trama da lã, os amores de Vénus e Marte (…) e o leito de dossel, envolto de solenes cortinas também amarelas de velho brocatel, enchia a alcova, esplêndido e severo, e como erguido para as voluptuosidades grandiosas de uma paixão trágica do tempo de Lucrécia ou de Romeu. (pp.433-434)

  • Maria Eduarda não gostou destes amarelos excessivos. Depois impressionou-se, ao reparar num painel antigo, defumado, ressaltando em negro do fundo de todo aquele oiro – onde apenas se distinguia uma cabeça degolada, lívida, gelada, no seu sangue, dentro de um prato de cobre. (p.434)

  • E para maior excentricidade, a um canto, de cima de uma coluna de carvalho, uma enorme coruja empalhada fixava no leito de amor, com um ar de meditação sinistra, os seus dois olhos redondos e agoirentos.(p.434)

  • “- Aquela horrível cabeça! – murmurou ela. Carlos arrancou a coberta do leito, escondeu a tela sinistra. E então todo o rumor se extinguiu, a solitária casa ficou adormecida entre as árvores, numa demorada sesta, sob a calma de Julho… (p.438)
  • Os anos de Afonso da Maia foram justamente no dia seguinte, domingo. (…) Neste instante Baptista, aparecendo à porta do bilhar, chamou Carlos em silêncio, com um leve olhar. Carlos veio surpreendido. “ – É um cocheiro de praça” – murmurou Baptista. – Diz que está ali uma senhora dentro de uma carruagem que lhe quer falar.” (…) Era a Gouvarinho! (pp.438-439)
  • Ele (Carlos) agitava-se no seu canto, sem achar um maneira suave, afectuosa ainda, de lhe dizer que todo o seu desejo dela (Gouvarinho) findara. Terminou por afirmar que não era amuo. (…) “ – Então é um rompimento?…” “ – Não, também não… Um rompimento absoluto, para sempre, não…” “- Então é um amuo? Porquê?” Carlos não respondeu. Ela, perdida, sacudiu-o pelo braço. “Mas fale! Diga alguma coisa, santo Deus! Não seja cobarde, tenha coragem de dizer o que é!” (p.443)
  • Ela recomeçara os seus beijos. Mas tinha perdido a chama que um instante os fizera quase irresistíveis. Agora Carlos sentia só uma fadiga, um desejo infinito de voltar ao seu quarto, ao repouso de que ela (Gouvarinho) o arrancara para o torturar com estas recriminações, estes ardores entre lágrimas… E de repente, enquanto a condessa balbuciava (…) – ele viu surgir na alma, viva e resplandecente, a imagem de Maria Eduarda (…) “ – Basta! Tudo isto é absurdo… As nossas relações estão acabadas, não temos mais nada que nos dizer!” (pp.445-446)
  • Ela ficou um instante como atordoada. Depois estremeceu, teve um riso nervoso, repeliu-o também, freneticamente, pisando-lhe o braço. “ – Pois bem! Vai, deixa-me! Vai para a outra, para a brasileira! Eu conheço-a, é uma aventureira que tem o marido arruinado, e precisa quem lhe pague as modistas!” (p.446)


 

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