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– Leitura d’Os Maias (VIII-X)

Capítulo VIII

  • Na manhã seguinte, às oito horas pontualmente, Carlos parava o break na Rua das Flores, diante do conhecido portão da casa do Cruges.  (…) A criada dissera que o sr. Cruges vivia agora na Rua de S. Francisco, quatro portas adiante do Grémio. (p.218)
  • Enfim, o maestro desceu, a correr, quase aos trambolhões, com um cache-nez de seda na mão, o guarda-chuva debaixo do braço, abotoando atarantado o paletó. Quando vinha pulando os últimos degraus, uma voz esganiçada de mulher gritou-lhe de cima: ‘- Olha não te esqueçam as queijadas!’ (p.219)

  • ‘- Com franqueza, aqui para nós, que ideia foi esta de ir a Sintra?’ Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela alma melodiosa de Mozart e pelas ‘fugas’ de Mozart? Pois bem, a ideia era vir a Sintra, respirar o ar de Sintra, passar o dia em Sintra… Mas, pelo amor de Deus, que o não revelasse a ninguém. (p.220)
  • Carlos, no entanto, pensava no motivo que o trazia a Sintra. E realmente não sabia bem por que vinha: mas havia duas semanas que ele não avistava certa figura que tinha um passo de deusa pisando a Terra, e que não encontrava o negro profundo de dois olhos que se tinham fixado nos seus: agora supunha que ela estava em Sintra, corria a Sintra. (p.222)
  • Depois, era possível que daí a pouco, na velha Lawrence, ele a cruzasse de repente no corredor, roçasse talvez o seu vestido, ouvisse talvez a sua voz. (…) o bom Dâmaso apresentaria o seu amigo Maia; aqueles olhos negros, que ele vira pousar de longe como duas estrelas, pousariam mais devagar nos seus. (p.223)
  • ´- Vamos para o Nunes, estamos lá muito melhor!’ Tomara-o uma timidez, a que se misturava um laivo de orgulho, o receio melindrado de ser indiscreto, seguindo-a assim a Sintra (…) E ao mesmo tempo repugnou-lhe a ideia de lhe ser apresentado pelo Dâmaso” (p.224)
  • Cruges, entusiasmado com Sintra, rompeu pela escada acima a assobiar (…) E apenas chegou à porta da sala de jantar, estacou, ergueu os braços, teve um grito. ‘ – Oh! Euzebiozinho!’ Carlos correu, olhou… Era ele, o viúvo, acabando de almoçar com duas raparigas espanholas. (p.225)
  • (…) o sujeito obeso (Palma ‘Cavalão’), limpou com o guardanapo a boca, a testa e o pescoço, encavalou laboriosamente no nariz uma grande luneta de vidros grossos, e erguendo a face larga, balofa e cor de cidra, examinou detidamente Cruges, e depois Carlos com uma impudência tranquila. (p.226)
  • ‘- Acredite você isto, Silveira. Olhe que eu (Palma ‘Cavalão’) tenho experiência. E o sr. Maia que lhe diga se isto não é verdade, ele que tem também experiência e sabe viver com espanholas!’ E isto foi dito com tanto calor, tanto respeito – que Cruges desatou a rir, fez rir Carlos também. (p.230)

  • Eusebiozinho (…) lá partia a passos lentos pelo corredor a pedir perdão à Concha. E, logo atrás dele, Carlos e Cruges deixaram a sala, sem se despedirem do sr. Palma – que de resto, indiferente também, já se acomodara à mesa a preparar regaladamente o seu grogue. (p.231)
  • Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o a Cruges. ‘- Tem os ar mais simpático’ –disse o maestro. (…) Carlos não respondeu, os seus olhos não se despegavam daquela fachada banal, onde só uma janela estava aberta com um par de botinas de duraque secando ao ar. (p.232)

  • Um som de rodas interrompeu-os, uma caleche descoberta desembocou a trote do lado de Seteais. (…) Durante um momento o poeta ficou assombrado, com os braços abertos, no meio da estrada. Depois, (…) apertou Carlos contra o coração, beijou o Cruges na face (p.234)
  • ‘- E esse Palma’ – acrescentou ele – ‘é um traste! Eu conheço-o; ele teve uma espécie de jornal, e já lhe dei muita bofetada na Rua do Alecrim. (…) Aquele canalha! (…) Aquela vil bolinha de matéria pútrida!… Aquele chouricinho de pus! (p.238)
  • Defronte da Lawrence, os dois burriqueiros, de cigarro na boca, não tendo podido apoderar-se dos ingleses, preguiçavam ao sol. ‘- Vocês sabem’ – perguntou Carlos – se uma família, que está aqui no hotel, foi para a Pena?’ ‘- A família que o senhor diz foi agora ali para baixo, para o palácio…’ (p.242)
  • (Carlos) Deixou os outros ainda indecisos, abalou para o palácio, em quatro passadas largas estava lá. E logo da praça avistou (…) a famosa família hospedada na Lawrence e a sua cadelinha de luxo. Era, com efeito, um sujeito de barba preta (…) e, ao lado dele, uma matrona enorme (…) e o cãozinho felpudo ao colo. (p.243)
  • Carlos ficou a olhar para aquele par com a melancolia de quem contempla os pedaços de um mármore quebrado. (…) Correu à Lawrence por um caminho diferente, ávido de uma certeza: – e aí, o criado que lhe apareceu disse que o senhor Salcede e os senhores Castro Gomes tinham partido na véspera para Mafra… (p.243)
  • Sintra de repente pareceu-lhe intoleravelmente deserta e triste. Não teve ânimo de voltar ao palácio nem quis sair dali (…) sentia um desejo desesperado de galopar para Lisboa, correr ao hotel Central, invadir-lhe o quarto, vê-la, saciar os olhos nela!… (p243)
  • Outros viam-na. O Taveira vira-a. No Grémio, ouvira um alferes de lanceiros falar nela, perguntar quem era, porque a encontrava todos os dias. O alferes encontrava-a todos os dias. Ele (Carlos) não a via nem sossegava… (p.244)
  • O criado trouxe o conhaque. Então Carlos (…) conversou com ele (…) A senhora era muito madrugadora (…) O sr. Castro Gomes, que dormia num quarto separado, nunca se mexia antes do meio-dia. (…) Ele e o sr. Dâmaso jogavam dominó. A senhora tinha montões de flores no quarto; e tencionavam ficar até domingo, mas fora ela que apressara a partida… (p.244)
  • ‘ – Sim, senhor, com cuidado na menina que ficara em Lisboa…’ (…) Assim, a brilhante deusa era também uma boa mamã, e isto dava-lhe um encanto mais profundo. (…) Achava-a assim adorável. (p.245)
  • Ah! poder ter o direito de estar junto dela, nessas horas de intimidade, bem junto sentindo o aroma da sua pele (…) E, pouco e pouco foi-lhe surgind0 na alma um romance, radiante e absurdo: um sopro de paixão, mais forte que as leis humanas, enrolava violentamente, levava juntos o seu destino e o dela, depois, que divina existência, escondida num ninho de flores e de sol, longe, nalgum canto da Itália… (p.245)
  • Na Lawrence o jantar prolongou-se até às oito horas (…) A aparição do bacalhau foi um triunfo – e a satisfação do poeta foi tão grande, que desejou mesmo, caramba, rapazes, que ali estivesse o Ega! (…) ‘Eu, palavra, gosto do Ega! Lá essas coisas de realismo e romantismo, histórias… Um lírio é tão natural como um percevejo… Uns preferem fedor e sarjeta; perfeitamente, destape-se o cano público… (p.249)
  • Eram nove horas, fazia luar, quando Carlos subiu para a almofada do break. (…) ‘ – Com mil raios!’ – exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da manta, com um berro que emudeceu o poeta, fez voltar Carlos na almofada, assustou o trintanário. O break parara, todos olhavam suspensos (…) ‘ – Esqueceram-me as queijadas!’ (p.251)


Capítulo IX

  • Mas quase em seguida apareceu Afonso da Maia (…) com uma carta na mão, que era para Carlos (…) um convite do conde (Gouvarinho) para jantar no sábado seguinte. (p.256)
  • Um passo ansioso ressoou na antecâmara, o Dâmaso apareceu esbaforido, de olho esgazeado, com a face em brasa. (…) ‘ – Ainda bem que te encontro, caramba! Quero que venhas daí, que me venhas ver um doente… Eu te explicarei… É aquela gente brasileira. (…) ‘ – Qual bebé!… É uma pequena crescida, de seis anos… (p.257)
  • ´- Escuta, homem! Foram para Queluz, mas a pequena ficou com a governanta… depois do almoço deu-lhe uma dor. A governanta queria um médico inglês, porque não fala senão inglês… (…) e lembrei-me logo de ti…’ (p.258)
  • O coupé parara à porta do Hotel Central. (…) Melanie, uma rapariga magra e sardenta, disse que mademoiselle estava mais sossegada, e ela ia avisar miss Sara, a governanta. (…) Mas o olhar de Carlos prendia-se sobretudo a um sofá onde ficara estendido, com duas mangas abertas, à maneira de dois braços que se oferecem, o casaco branco de veludo lavrado de Génova com que ele a vira, a primeira vez, apear-se à porta do hotel. (pp. 259-261)
  • Carlos tranquilizou Miss Sara. (…) ‘estas meninas estrangeiras, tão débeis, tão delicadas…’ E o labiozinho gordo da inglesa traía um desdém compassivo por estas raças inferiores e deterioradas. (p.262)
  • ‘ – Eu chamo-me Rosa, mas o papá diz que eu sou Rosicler.’ (…) Ele (Carlos) de vez em quando, sorria-lhe, ou acariciava-lhe a mãozinha. Os olhos da mãe eram negros: os do pai de azeviche e pequeninos: de quem herdara ela aquelas maravilhosas pupilas de um azul tão rico, líquido e doce? (p.262)

  • Ao voltar à sala, o Dâmaso saltou do sofá (…) ‘ – A coisa é esta… O marido daqui a dias vai para o Brasil, tem lá negócios. E ela fica! Fica com as criadas e com a pequena, à espera, dois ou três meses. Diz que já andaram até a ver casas mobiladas, que la não quer estar no hotel… E eu, íntimo, a única pessoa que ela conhece, metido de dentro… Hem?, percebes agora? (pp. 264-266)
  • Não, por imprudência, não havia ele (Dâmaso) de ‘perder a coisa’. Aquilo ia com todas as regras. Lá nisso sobrava-lhe experiência. (…) ‘Ela conhece meu tio (Joaquim Guimarães) , é íntima dele desde pequena, tratam-se até por tu…’ (p.267)

  • ” – Tu (Carlos) sempre vais à noite, ao Cohens, de dominó? O meu fato de selvagem ficou divino. Eu (Dâmaso) venho mostrá-lo à noite à brasileira… ” (…)  Às dez horas Carlos  vestia-se para o baile dos Cohens” (p. 268) 
  • ´- Cheguei a casa dos Cohens’ – continuou Ega por fim com esforço e quase balbuciando (…) Ele (Cohen) vem direito a mim, e diz-me ‘Você, seu infame, ponha-se já no meio da rua… Já no meio da rua, senão, diante desta gente, corro-o a pontapés!’ (p.269)
  • Nesse instante houve um rumor na sala, Ega abriu violentamente a porta. ‘ – Não há nada’ – exclamou ele – (Cohen) ‘Deu-lhe (à mulher) uma coça e vão amanhã para Inglaterra!’ (p.282)
  • ‘ – (…) não tem ideia de como ele descobriu?…’ (…) ‘Foi a senhora que sonhou alto com Vossa Excelência, disse tudo, o sr. Cohen ouviu (…) espreitou-a e descobriu a marosca…’ (p.284)
  • Logo ao outro dia Dâmaso aparecera no Ramalhete, e por ele ouviram os rumores de Lisboa. Já se sabia no Grémio, no Chiado, por toda a parte, que ele (Dâmaso) fora expulso da casa dos Cohens. (p.288)
  • Ega, com efeito, sentia-se ‘enterrado’. E nessa noite declarou a Carlos que decidira recolher-se à quinta da mãe, passar lá a acabar as ‘Memórias de Um Átomo’, e reaparecer em Lisboa com o seu livro publicado, triunfando sobre a cidade, esmagando os medíocres. (p.289)
  • E, duas tardes depois, (Carlos) ao descer o Aterro – o primeiro encontro que teve, às Janelas Verdes, foi o Castro Gomes, de caleche descoberta, com a mulher ao lado, e a cadelinha ao colo. Ela passou sem o ver. E logo ali Carlos decidiu findar aquela tortura, pedir muito simplesmente ao Dâmaso que o apresentasse ao Castro Gomes. (p.291)
  • Mas toda essa semana (Carlos) achou-se constantemente, sem saber como, na companhia dos Gouvarinhos. (…) (Carlos) teve um momento de intimidade com a condessa (…) baixavam a voz, as duas cadeiras estavam mais juntas – quando o escudeiro anunciou a sra. D. Maria da Cunha. (p.291)
  • Insensivelmente, irresistivelmente, Carlos achou-se com os lábios nos lábios dela (condessa de Gouvarinho). (…) Ele deu um passo, tendo-a assim enlaçada (…) o seu joelho encontrou um sofá baixo que rolou e fugiu. Com a cauda de seda enrolada nos pés, Carlos seguiu, tropeçando, o largo sofá, que rolou, fugiu ainda, até que esbarrou contra o pedestal onde o conde erguia a fronte inspirada.
  • De repente, na antecâmara, ouviu-se a voz do conde. (…) Ao ver Carlos no boudoir, o conde teve um bela surpresa, esteve-lhe (a Carlos) apertando a mão muito tempo, com calor, assegurando-lhe que ainda essa manhã, na Câmara, se lembrara dele… (p.298)

Capítulo X

  • E com efeito a velha traquitana de rodas amarelas acabava de ser uma alcova de amor, perfumada de verbena, durante as duas horas que Carlos rolara dentro dela, pela estrada de Queluz, com a senhora condessa de Gouvarinho. (p.300)
  • Mas Carlos vinha de lá enervado, amolecido, sentindo já na alma os primeiros bocejos da saciedade.  Havia três semanas apenas que aqueles braços perfumados de verbena se tinham atirado ao seu pescoço – e agora (…) ele ia pensando como se poderia desembaraçar da sua tenacidade, do seu ardor, do seu peso… (pp.301-302)
  • No domingo, pois, daí a cinco dias, eram as corridas (no hipódromo de Belém)… E ‘ela’ (a deusa) estaria lá, ele (Carlos) ia conhecê-la enfim! Durante essas três últimas semanas vira-a duras vezes: uma ocasião (…) à porta do Hotel Central (…) de outra vez ela viera parar à porta do Mourão, no Chiado, num coupé da Companhia, e ficara esperando enquanto o trintanário levava dentro à loja um embrulho que tinha a forma de um cofre. (p.304)
  • Resolveram então esperar pelas corridas, onde os Castro Gomes tencionavam ir. (…) Carlos olhou casualmente; e viu, debruçado à portinhola, um rosto de criança, de brancura adorável, sorrindo-lhe, com um belo sorriso que lhe punha duas covinhas na face. Reconheceu-a logo. Era Rosa, era Rosicler: e ela não se contentou em sorrir, com o seu doce olhar azul. (p.305)
  • Ela (Maria Eduarda) até aí não o conhecia talvez. Mas, depois de atirar o seu grande adeus, Rosa, ainda sorrindo, voltara-se para a mãe, a dizer-lhe decerto que aquele era o médico que a curara a ela e à boneca. (p.306)
  • ‘- Caramba! – murmurou Dâmaso desconfiado. – Estás com furor de a conhecer!’ Mas enfim concordou que era chique a valer! E via aí uma bela ocasião para ele!… enquanto Carlos e Craft andassem mostrando as curiosidades ao Castro Gomes e lhe falassem de cavalos, ele, zás, ia para  quinta passear com ela… a calhar! (p.310)
  • Desde o Ramalhete (Carlos) viera assim governando, irritadamente, sem descerrar os lábios. É que toda aquela semana, desde a tarde em que combinara com o Dâmaso a visita aos Olivais, fora desconsoladora. O Dâmaso tinha desaparecido, sem mandar a resposta a Castro Gomes. Ele, por orgulho, não procurara o Dâmaso. (p.312)
  • À entrada para o hipódromo, abertura escalavrada num muro de quintarola, o faetonte teve de parar atrás do dog-cart do homem gordo – que não podia também avançar porque a porta estava tomada pela caleche de praça, onde um dos sujeitos de flor ao peito berrava furiosamente com um polícia. (p.313)
  • No recinto em declive, entre a tribuna e a pista, havia só homens, a gente do Grémio, das secretarias e da Casa Havanesa, a maior parte à vontade, com jaquetões claros, e de chapéu de coco; outros mais em estilo, de sobrecasaca e binóculo a tiracolo, pareciam embaraçados e quase arrependidos do seu chique. Falava-se baixo, com passos lentos pela relva, entre leves fumaraças de cigarro. (p.315)

  • Seguiram devagar ao comprido da tribuna. Debruçadas no rebordo, numa fila muda, olhando vagamente, como de uma janela em dia de procissão, estavam ali todas as senhoras que vêm no High Life dos jornais, as dos camarotes de S. Carlos, as das terças-feiras dos Gouvarinhos.
  • A condessa de Gouvarinho ainda não viera. E não estava também aquela que os olhos de Carlos procuravam, inquietamente e sem esperança. (…) Eram quase três horas, e agora decerto “ela” já não vinha: e a condessa de Gouvarinho não aparecia também… (pp. 317-319)
  • O desejo de Carlos agora era achar Dâmaso, saber porque falhara a visita aos Olivais – e depois ir-se embora para o Ramalhete, esconder aquela melancolia que o enevoava. (p.321)
  • O bufete estava instalado debaixo da tribuna, sob o tabuado nu, sem sobrado, sem um ornato, sem uma flor. Ao fundo corria uma prateleira de taberna com garrafas e pratos de bolos. E, no balcão tosco, dois criados, estonteados e sujos, achatavam à pressa fatias de sanduíches com as mãos húmidas de espuma da cerveja. (p.321)
  • Por entre o alarido vibravam, furiosamente, os apitos da polícia; senhoras, com as saias apanhadas, fugiam através da pista, procurando espavoridamente as carruagens – e um sopro grosseiro de desordem reles passava sobre o hipódromo desmanchando a linha postiça de civilização e a forçada atitude de decoro. (p.325)
  • Depois, ao voltar-se, (Carlos) viu de repente a Gouvarinho, que acabava decerto de chegar, e conversava em pé com D. Maria da Cunha. (…) Ela (a condessa de Gouvarinho) explicou-lhe (a Carlos) o plano que imaginara, encantador. (p.329)
  • Em lugar de partir na terça-feira para o Porto – ia na segunda à noite, só com a criada escocesa, sua confidente, num compartimento reservado. Carlos tomava o mesmo comboio. Em Santarém, desciam ambos, muito simplesmente, e iam passar a noite ao hotel. No dia seguinte, ela seguia para o Porto, ele recolhia a Lisboa… (p.329)
  • Carlos abria os olhos para ela, assombrado, emudecido. Não esperava aquela extravagância. (…) Ninguém a reconheceria, disfarçada num grande water-proof, e com uma cabeleira postiça. (pp.329-330)
  • Agora (Carlos) começava a divertir-se. (…) Todos perdiam, ele apanhava a poule, ganhava as apostas, empolgava tudo. Que sorte! (…) ‘- Ah, monsieur – exclamou a vasta ministra da Baviera, furiosa – Vous connaissez le proverbe: heureux au jeu…’ (pp. 334-336)

  • Carlos descia da tribuna, sem ter descoberto o Dâmaso – quando deu justamente de frente com ele (…) Dâmaso atirou os braços ao ar. Então Carlos não sabia? Havia grandes novidades! Ele não voltara ao Ramalhete, como estava combinado, porque o Castro Gomes não podia ir aos Olivais. Ia partir para o Brasil. Já partira mesmo, na quarta-feira. (pp. 337-338)
  • Dâmaso explicou a instalação de madame. Era muito engraçado, morava no prédio do Cruges! (…) ‘ – E para mim, muito cómodo, ali ao pé do Grémio… Então não voltas cá acima, a cavaquear com o femeaço? Até logo… Está hoje chique a valer a Gouvarinho! E está a pedir homem! Good-bye. (pp. 338-339)
  • O olhar da condessa não o deixava. Ele aproximou-se, enfim, contrariado. (…) E naquela insistência ela era o homem, o sedutor, com a sua veemência de paixão activa, tentando-o, soprando-lhe o desejo: enquanto ele parecia a mulher, hesitante e assustada. (…) ‘- Pois bem, perfeitamente… Amanhã à noite na estação.’ (pp.339-340)

  • Daí a pouco, a trote largo no faetonte, Carlos descia o Chiado, dava a volta para a Rua de S. Francisco. Ia numa perturbação deliciosa e singular, com aquela certeza de que ela estava só na casa do Cruges (p.341)
  • No peristilo, o velho guarda-portão esperava, descoberto, com uma carta na mão para Carlos. (…) Era uma letra inglesa de mulher, num envelope largo, lacrado com um sinete de armas. Carlos ali mesmo abriu-a, e, logo à primeira linha, teve um movimento tão vivo, de tão bela surpresa, iluminando-se-lhe tanto o rosto, que Craft do lado perguntou sorrindo: ‘ – Aventura? Herança?’ (p.343)
  • (…) começava assim:  ‘Madame Castro Gomes apresenta os seus respeitos ao sr. Carlos da Maia, e roga-lhe o obséquio…’ (…) Carlos espreguiçou-se, sorrindo. Depois olhou para Craft um momento, em silêncio, encolheu os ombros e murmurou: ‘ – A gente, Craft, nunca sabe se o que lhe sucede é, em definitivo, bom ou mau.’ ‘ – Ordinariamente é mau’ – disse o outro friamente (p.344)
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