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– Leitura d’Os Maias (V-VII)


Capítulo V

  • Eusébio rosnou algumas palavras sobre os trens de Carlos, os nove cavalos, o cocheiro inglês, os grooms…  Carlos não conhecia os Gouvarinhos (…) a condessa, uma senhora inglesada, de cabelo cor de cenoura, muito bem feita… (p.126)
  • O laboratório de Carlos estava pronto. (…) mas as semanas passavam, e todo esse belo material de experimentação, sob a luz branca da clarabóia, jazia virgem e ocioso. (…) Carlos realmente não tinha tempo de se ocupar do laboratório. (p.128)

*


 *

  • Carlos já falava a sério da sua carreira. (…) pensava em fazer um livro de ideias gerais que se devia chamar “Medicina Antiga e Moderna”. De resto ocupava-se sempre dos seus cavalos, do seu luxo, do seu bricabraque. (p.129)
  • “Tu (Carlos) queres ser apresentado aos Gouvarinhos? (…) Eles desejam conhecer-te, sobretudo a condessa faz empenho… Gente inteligente, passa-se lá bem… então, decidido! Terça-feira vou-te buscar ao Ramalhete, e vamo-nos “gouvarinhar”. (p.135)
  • O conde de Gouvarinho, além de muito maçador e muito pequinhento, não tinha nada de cavalheiro (…) O conde e a senhora não se davam bem: (…) uma ocasião à mesa, tinham-se pegado de tal modo que ela agarrou o copo e o prato, e esmigalhou-os no chão. E outra qualquer teria feito o mesmo, porque o senhor conde, quando começava a repisar, a remoer, não se podia aturar.” (p.139)
  • Ega apresentou-o (Carlos) ao senhor conde de Gouvarinho, no corredor das frisas. (…) E daí a um momento, Carlos, apresentado como “vizinho de camarote”, recebia da senhora condessa um grande shake-hands. (…) Os olhos (da condessa) brilhavam-lhe, diziam mil coisas (…) e em torno dela errava (…) um aroma exagerado de verbena. (pp.142-143)



  • O conde acompanhou-o (Carlos) fora, ao corredor. “É sempre uma honra para mim – dizia ele caminhando ao lado  de Carlos – fazer conhecimento das pessoas que valem alguma coisa neste país… Vossa excelência é desse número, bem raro infelizmente.” (p.144)

Capítulo VI

  • Carlos, nessa manhã, ia visitar de surpresa a casa do Ega, a famosa Vila Balzac (…) na solidão da Penha de França (…) Ega quis imediatamente mostrar a Carlos o seu quarto de cama: aí reinava um cretone de ramagens alvadias, sobre fundo vermelho; e o leito enchia, esmagava tudo. Parecia ser o motivo, o centro da Vila Balzac; e nele se esgotara a imaginação artística do Ega. (pp.145-147)
  • Carlos, no entanto, fumando preguiçosamente, continuava a falar na Gouvarinho e nessa brusca saciedade que o invadira, mal trocara com ela três palavras numa sala. (…) Seria o seu (de Carlos) um desses corações de fraco, moles e flácidos, que não podem conservar um sentimento, o deixam fugir, escoar-se pelas malhas lassas do tecido reles? (p.151)
  • “Tu és extraordinário, menino!… Mas o teu caso é simples, é o caso de D. Juan. Don Juan tinha essas alterações de chama e cinza. (…) Tu és simplesmente, como ele, um devasso; e hás-de vir a acabar desgraçadamente como ele, numa tragédia infernal!” (p.152)
  • Decididos os convidados, fixado o jantar (no hotel Central) para uma segunda-feira, Ega teve uma conferência com o maitre d´hotel do Central (…) e ele mesmo sugeriu uma ideia: tomates farcies à la Cohen… (pp.154-155)
  • Entravam no peristilo do Hotel Central – e nesse momento um coupé da Companhia (…) veio estacar à porta. (…) uma senhora alta, loira, com um véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carnação ebúrnea. Carlos e Craft afastaram-se, ela passou diante deles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de oiro, e um aroma no ar. (pp.156-157)


  • Ega apresentou a Carlos o sr. Dâmaso Salcede (…) O sr. Dâmaso Salcede, que não despregava os olhos de Carlos, acudiu logo: “Bem sei! Os Castro Gomes… conheço-os muito… Vim com eles de Bordéus… Uma gente muito chique que vive em Paris.” (p.157)
  • E apareceu um indivíduo muito alto, todo abotoado numa sobrecasaca preta, com uma face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz aquilino, longos, espessos, românticos bigodes grisalhos: já todo calvo na frente, os aneis fofos de uma grenha muito seca caíam-lhe inspiradamente sobre a gola: e em toda a sua pessoa havia alguma coisa de antiquado, de artificial e de lúgubre. (p.159)
  • “Não sei se são de relações. Carlos da Maia… Tomás de Alencar, o nosso poeta… (…) Carlos, surpreendido, murmurou: “Eu conheço muito de nome…” (…) E o outro com o olho cavo, o lábio trémulo: “Ao meu camarada, ao inseparável, ao íntimo de Pedro da Maia, do meu pobre, do meu valente Pedro!” (p.159)
  • “Teu pai – dizia ele (Alencar) – o meu Pedro, queria-te pôr o nome de Afonso, desse santo, desse varão de outras idades, Afonso da Maia! Mas a tua mãe, que tinha lá as suas ideias, teimou em que havias de ser Carlos. E justamente por causa de um romance que eu lhe emprestara, nesses tempos podia-se emprestar romances a senhoras, ainda não havia a pústula e o pus…” (pp.160-161)
  • Pobre Alencar! O naturalismo, esses livros poderosos e vivazes, tirados a milhares de edições (…) tinha desnorteado o pobre Alencar e tornara-se o desgosto literário da sua velhice. (…) Desde então reduziu a expressão do seu rancor ao mínimo, a essa frase curta, lançada com nojo: “Rapazes, não se mencione o excremento!” (pp.164-165)
  • Ega, horrorizado, apertava as mãos na cabeça – quando do outro lado Carlos declarou que o mais intolerável do realismo eram os seus grandes ares científicos. (…) Assim atacado entre dois fogos, Ega trovejou: justamente o fraco do realismo estava em ser ainda pouco científico (…) A forma pura da arte naturalista devia ser a monografia, o estudo seco de um tipo (…) tal qual se tratasse de um caso patológico (p.164)
  • “Isso é absurdo – dizia Carlos – os caracteres só se podem manifestar pela acção…” “E a obra de arte – acrescentou Craft – vive apenas pela forma…” (p.164)
  • “Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá… O empréstimo faz-se ou não se faz?” (…) Cohen (…) respondeu com autoridade “A única ocupação mesmo dos ministérios era esta – cobrar o imposto e fazer o empréstimo. E assim se havia de continuar… (…) Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota. (p.165)
  • Ega, porém, incorrigível nesse dia, soltou outra enormidade: “Portugal não necessita de reformas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão espanhola.” (…) E no silêncio que se fez, Dâmaso (…) disse, com ar de bom senso e de finura: “Se as coisas chegassem a esse ponto, se se pusessem assim feias, eu cá, à cautela, ia-me raspando para Paris…” (pp. 167-169)
  • Todos cortesmente admiraram a finura do Cohen. Ele agradecia, com o olho enternecido, passando pelas suiças a mão onde reluzia um diamante. E nesse momento os criados serviam o prato de ervilhas num molho branco, murmurando: “Petits pois à la Cohen.”(pp.170-171)
  • Carlos e Craft, que abafavam, foram respirar para a varanda; e aí começou logo, naquela comunidade de gostos que os começava a ligar, a conversa da Rua do Alecrim sobre a bela colecção dos Olivais. Craft dava detalhes: a coisa rica e rara que tinha era um armário holandês do século XVI; de resto, alguns bronzes, faianças e boas armas… (pp.171-172)

*

  • Mas ambos se voltaram ouvindo, no grupo dos outros, junto à mesa, estridências de voz, e como um conflito que rompia (…) Dâmaso, muito pálido, quase sem voz, ia de um a outro: “Oh! meninos, oh! meninos, aqui, no Hotel Central! Jesus!… Aqui no Hotel Central!…” (pp.172-174)
  • “Que tipo! – exclamou Dâmaso, vendo-o afastar-se – E a coisa ia-se pondo feia…” E imediatamente, sem transição, começou a fazer elogios a Carlos. O sr. Maia não imaginava há quanto tempo ele desejava conhecê-lo! (…) “Creia Vossa Excelência… Eu não sou de sabujices… Mas pode Vossa Excelência perguntar ao Ega, quantas vezes o tenho dito: vossa Excelência é a melhor coisa que há em Lisboa!” (p.176)


  • E era simpático o pobre Alencar! Com que cuidado exagerado, ao falar de Pedro, de Arroios, dos amigos e dos amores de então, ele evitara pronunciar sequer o nome de Maria Monforte! (…) E isto fê-lo insensivelmente recordar da maneira como essa lamentável história lhe fora revelada em Coimbra” (p.182)
  • Porque o avô, obedecendo à carta testamentária de Pedro, contara-lhe um romance decente: um casamento de paixão, incompatibilidades de naturezas, uma separação cortês, depois a retirada da mamã com a filha para França, onde tinham morrido ambas. Mais nada. A morte do pai fora-lhe apresentada sempre como brusco remate de uma longa nevrose… (p.182)
  • Pobre avô! (…) Mas narrou-lhe, detalhe a detalhe, o feio romance todo até àquela tarde em que Pedro lhe aparecera lívido, coberto de lama, a cair-lhe nos braços, chorando a sua dor com a fraqueza de uma criança. (p.183)
  • O avô tinha-lhe dito que era loira. Não sabia mais nada. Não os conhecera; não lhes dormira nos braços; nunca recebera o calor da sua ternura. Pai, mãe, eram para ele como símbolos de um culto convencional. O papá, a mamã, os seres amados, estavam ali todos – no avô. (p.184)

Capítulo VII

  • Craft tornara-se, em poucas semanas, íntimo do Ramalhete. Carlos e ele, tendo muitas similitudes de gosto e ideias, o mesmo fervor pelo bricabraque e pelo bibelot, o uso apaixonado da esgrima, igual diletantismo de espírito, uniram-se imediatamente em relações de superfície, fáceis e amáveis. (p.186)
  • E desde esse dia, (Dâmaso) não o deixou mais. Se Carlos aparecia no teatro, Dâmaso imediatamente arrancava-se da sua cadeira (…) vinha instalar-se na frisa, ao lado de Carlos (…) segui-lo de sala em sala como um rafeiro. (…) Carlos fugiu vexado. Chegou a odiá-lo; respondia-lhe só com monossílabos (p.189)
  • Mas Carlos não escutava nem sorria já. Do fim do Aterro aproximava-se, caminhando depressa, uma senhora – que ele reconheceu logo, por esse andar que parecia uma deusa pisando a Terra (…) por aquele corpo maravilhoso onde vibrava, sob as linhas ricas de mármore antigo, uma graça quente, ondeante e nervosa. (pp.202-203)
  • Mas Carlos não pôde detalhar-lhe as feições, apenas de entre o esplendor ebúrneo da carnação, sentiu o negro profundo de dois olhos que se fixavam nos seus. (…) À maneira que ela se afastava, parecia-lhe maior, mais bela. E aquela imagem falsa e literária de uma deusa marchando pela Terra prendia-lhe a imaginação. (p.203)
  • Ao outro dia, (Carlos) voltou mais cedo, e, apenas dera alguns passos entre as árvores, viu-a logo. Mas não vinha só, ao seu lado o marido, esticado, apurado numa jaqueta de casimira quase branca (…) trazia a cadelinha debaixo do braço. (…) Nessa tarde não era a deusa descando das nuvens de oiro (…) era uma bonita senhora estrangeira que recolhia ao seu hotel. (p.204)
  • Ao fim da semana estava Carlos no consultório, já para sair (…) reconheceu a Gouvarinho (…) do caroço não havia vestígio, e então uma ligeira vermelhidão subiu-lhe ao rosto (…) querendo ver neles a confissão do sentimento que a trouxera ali com um pretexto pueril, sob aquela toiltte negra, aqueles véus que a mascaravam. (…) No entanto, fez perguntas de médico (p.206)
  • “É necessário tratar-se, voltar aqui, consultar-me… Tenho talvez muito que lhe dizer!” (…) “Venha-mo antes dizer um dia destes, tomar chá comigo, às cinco horas…” (p.209)
  • O Ega desta vez não fantasiara: aquele bonito corpo oferecia-se, tão claramente como se se despisse. Ah! se ela fosse de sentimentos errantes e fáceis – que bela flor a colher, a respirar, a deitar fora depois! (p.210)
  • “Diz-me uma coisa: onde viste tu o Dâmaso, com essa gente? Para que lado iam?” “Iam pelo Chiado abaixo; anteontem, às duas horas… Estou convencido que iam para Sintra. Levavam uma maleta no landau, e atrás ia uma criada num coupé com uma mala maior… Aquilo cheirava a ida a Sintra. (p.214)
 

2 responses to “– Leitura d’Os Maias (V-VII)

  1. nina meireles

    Maio 26, 2009 at 3:50 pm

    Parabéns assim fica bem mais facil para estudar.

     
  2. luana Texi da silva

    Janeiro 11, 2010 at 4:52 pm

    Muito bom! Está de parabéns! Os capítulos sintetizados desta forma fica mais fácil.

     

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