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– Leitura d’Os Maias (III-IV)

Capítulo III

  • O Vilaça, de guarda-sol debaixo do braço, contemplava-o embevecido. “Está uma linda criança! Faz gosto! E parece-se com o pai. Os mesmos olhos, olhos dos Maias, o cabelo encaracolado… Mas há-de ser muito mais homem!” (p. 54)
  • Mas não, parece que era o sistema inglês! Deixava-o correr, cair, trepar às árvores, molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro. (p.57)
  • Os três homens sentaram-se à mesa do café. Defronte do terraço, o Brown, de boné escocês posto ao lado e grande cachimbo na boca, puxava ao alto a barra do trapézio para Carlos se balouçar. (…) “Bela coisa, a ginástica!” exclamou Afonso. (pp.65-66)

  • D. Ana Silveira, a solteira e mais velha, passava pela talentosa da família (…) A viúva D. Eugénia (…) tinha dois filhos, a Teresinha, a “noiva” de Carlos, uma rapariguinha magra e viva com cabelos negros como tinta, e o morgadinho, o Eusebiozinho, uma maravilha muito falada naqueles sítios. (p.68)
  • “Ó filho, diz aqui ao sr. Vilaça aqueles lindos versos que sabes… Não sejas atado, anda!… Vá, Eusébio, filho, sê bonito.” Mas o menino, molengão e tristonho, não se deslocava das saias da titi: teve ela de o pôr de pé, ampará-lo, para que o tenro prodígio não aluísse sobre as perninhas flácidas. (pp.75-76)
  • Afonso da Maia, no entanto, com as pernas estiradas para o lume, recomeçara a falar do Silveirinha. Tinha três ou quatro meses mais que Carlos, mas estava enfezado, estiolado, por uma educação à portuguesa. (…) Passava os dias nas saias da titi a decorar versos. (p.78)
  • E agora, de repente, a Monforte aparecia outra vez em Paris! e o seu pobre Pedro estava morto! e aquela criança que dormia ao fundo do corredor nunca vira sua mãe… (…) “E está em Paris com o italiano?” (…) “Não senhor, está com quem lhe paga.”(p.79)
  • Por isso pedi ao Alencar, que é um excelente rapaz, que escrevesse numa carta tudo o que me contou. Assim, temos um documento.  (…) Foi ela que, muito decidida, deu a adresse, o nome por que devia perguntar: Madame de l´Estorade.  Viveu três anos em Viena de  Áustria com Tancredo. (…) Depois tinham estado no Mónaco (…) Passara algum tempo em Londres: e daí viera habitar Paris. (pp. 79-80)
  • “E a pequena?”  – perguntou Afonso. “Isso não sei. Mas enquanto a mim, a pequena morreu. (…) Se a pequena fosse viva, a mãe podia reclamar a legítima que cabe à criança… (…) Se não o faz é porque a pequena morreu.” (p.81)
  • Passadas duas semanas, Afonso recebia uma carta do administrador, trazendo-lhe com a adresse da Monforte, uma revelação imprevista. (…) Ela respondera que era o retrato da filha que lhe morrera em Londres. (p.83)

Capítulo IV

  • Carlos formara-se em Medicina. (…) O  doutor juiz de direito confessou mesmo um dia a sua descrença de que o sr. Carlos da Maia quisesse ser médico a sério. (p.89)
  • Matriculou-se realmente com entusiasmo. Para esses longos anos de quieto estudo o avô prepara-lhe uma linda casa em Celas. (…) Um amigo de Carlos (um certo João da Ega) pôs-lhe o nome de Paços de Celas. (p. 89)
  • (Carlos) tremeu pensando no desgosto do avô: moderou a dissipação intelectual, acantoou-se mais na ciência que escolhera (…) Mas tinha nas veias o veneno do diletantismo. (p.90)
  • As férias, realmente, só eram divertidas para Carlos quando trazia para a quinta o seu íntimo, o grande João da Ega (que) era considerado não só em Celorico, mas também na Academia, que ele espantava pela audácia e pelos ditos, como o maior ateu, o maior demagogo, que jamais aparecera nas sociedades humanas. (p.92)
  • Em Agosto, no acto da formatura de Carlos, houve uma alegre festa em Celas. Afonso viera de Santa Olávia, Vilaça de Lisboa. (…) E então Carlos Eduardo partira para a sua longa viagem pela Europa. Um ano passou. Chegara esse Outono de 1875: e o avô instalado enfim no Ramalhete, esperava por ele ansiosamente. (pp.95-96)

  • (Carlos) era decerto um formoso e magnífico moço, alto, bem feito, de ombros largos, com uma testa de mármore sob os aneis de cabelos pretos, e os olhos dos Maias, aqueles irresistíveis olhos do pai, de um negro líquido, ternos como os deles e mais graves. (p.96)

  • “Agora que tencionas fazer?” “Agora, general?” respondeu Carlos, sorrindo e pousando o copo. “Descansar primeiro e depois passar a ser uma glória nacional!” (p.97)
  • As semanas foram passando nestes planos de instalação. Carlos trazia realmente resoluções sinceras de trabalho: ciência como mera ornamentação interior do espírito, mais inútil para os outros que as próprias tapeçarias do seu quarto. (p.97)
  • Mas as suas ambições flutuavam, intensas e vagas: ora pensava numa larga clínica; ora na composição maciça de um livro iniciador; algumas vezes em experiências fisiológicas, pacientes e reveladoras… Sentia em si, ou supunha sentir, o tumulto de uma força, sem lhe discernir a linha de aplicação. (…) No fundo era um diletante. (p.98)
  • “E o consultório, meu senhor, não é aqui nem acolá; é no Rossio, ali em pleno Rossio! (…) daí a dois dias tinha alugado um primeiro andar de esquina. Carlos mobilou-o com luxo. (…) Ocupava-se então mais do laboratório, que decidira instalar num armazém, às Necessidades. (pp.98-99)
  • Os almoços no Ramalhete eram sempre delicados e longos.; depois do café, ficavam ainda conversando, e passava da uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma exclamação, precipitando-se sobre o relógio, se lembrava do seu consultório. (…) “Ao trabalho, ao trabalho!” exclamava.
  • E no dog-cart, com aquela linda égua, a “Tunante”, ou no faetonte com que maravilhava Lisboa, Carlos lá partia em grande estilo para a Baixa, para o “trabalho”. O seu gabinete, no consultório, dormia numa paz tépida (…) mas não aparecia jamais um doente. (…) terminava por decidir que aquelas duas horas de consultório eram estúpidas! (pp.102-103)
  • Foi uma dessas manhãs que preguiçando assim no sofá com a “Revista dos dois Mundos” na mão, que ele ouviu um rumor na antecâmara, e logo uma voz bem conhecida, bem querida (…) Ega vinha para sempre. Tinha dito do alto da diligência, às várzeas de Celorico, o adeus da eternidade. (…) era outro Ega, um Ega dandy, vistoso, paramentado, artificial e com pó de arroz.” (pp.104-105)
  • “Mas conta-me tu, que diabo, que fazem vocês no Ramalhete? O avô Afonso? Quem vai por lá?…” (…) Ia o Sequeira, cada vez mais atarracado, a estoirar de sangue, à espera da sua apoplexia… Ia o conde de Steinbroken, ministro da Finlândia (…) aparecia Taveira, sempre muito correcto, empregado agora no Tribunal de Contas; um Cruges, (…) um diabo adoidado, maestro, pianista, com uma pontinha de génio; o marquês de Souselas… (p.107)
  • “Não há mulheres? (…) se não aparecem mulheres, importam-se, que é em Portugal para tudo recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo vem em caixotes pelo paquete.” (pp.109-110)
 

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