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– Leitura d’Os Maias (I-II)

OS MAIAS
Eça de Queirós, Ed. Livros do Brasil

Capítulo I

  • A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. (p.5)

  • O Ramalhete possuía um pobre quintal inculto, abandonado às ervas bravas, com um cipreste, um cedro, uma cascatazinha seca, um tanque entulhado, e uma estátuta de mármore (onde Monsenhor reconheceu logo Vénus Citereia) enegrecendo a um canto na lenta humidade das ramagens silvestres. (p.6)
  • Os Maias desde a Regeneração viviam retirados na sua Quinta de Santa Olávia, nas margens do Douro. (p.7)
  • Afonso assombrou Vilaça, anunciando-lhe que decidira vir habitar o Ramalhete. O procurador compôs logo um relatório a enumerar os inconvenientes e, por fim, aludia mesmo a uma lenda, segundo a qual eram sempre fatais aos Maias  as paredes do Ramalhete. (p.7)
  • No salão nobre, raramente usado, todo em brocados de musgo cor de Outono, havia uma bela tela de Constable, o retrato da sogra de Afonso, a condessa de Runa. (p.9)
  • Havia vinte e cinco anos que Afonso não via Lisboa e, ao fim de alguns curtos dias, confessou a Vilaça que estava suspirando outra vez pelas suas sombras de Santa Olávia. (p.10)
  • E gostava até do seu quintalejo. Não era decerto o jardim de Santa Olávia: mas tinha o ar simpático, com os seus girassóis perfilados, o cipreste e o cedro envelhecendo juntos como dois amigos tristes, e a Vénus Citereia parecendo agora, no seu tom claro de estátua de parque, ter chegado de Versalhes… E desde que a água abundava, a cascatazinha era deliciosa, dentro do nicho de conchas. (p.10)



  • Afonso era um pouco baixo, maciço, de ombros quadrados e fortes: e com a sua face larga de nariz aquilino, a pele corada, quase vermelha, o cabelo branco todo cortado à escovinha, e a barba de neve aguda e longa. (p.12)
  • Este pesado e enorme angorá, branco com malhas louras, era agora o fiel companheiro de Afonso. Tinha nascido em Santa Olávia e recebera o nome de Bonifácio: depois ao chegar à idade do amor e da caça, fora-lhe dado o apelido mais cavalheiresco de D. Bonifácio de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no remanso das dignidades eclesiásticas, e era o Reverendo Bonifácio… (p.13)



  • Caetano da Maia era um português antigo e fiel que se benzia ao nome de Robrspierre, e que, na sua apatia de fidalgo beato e doente, tinha só um sentimento vivo – o horror, o ódio ao Jacobino. (p.13)
  • Afonso partiu. Era na Primavera – e a Inglaterra toda verde, os seus parques de luxo, os copiosos confortos, a harmonia penetrante dos seus nobres costumes, aquele raça tão séria e tão forte – encantaram-no. (p.14)


  • Seu pai morreu de súbito, ele teve de regressar a Lisboa. Foi então que conheceu D. Maria Eduarda Runa, filha do conde de Runa, uma linda morena, mimosa e um pouco adoentada.  Ao fim de um ano casou com ela. Teve um filho. (…) e daí a semanas, com a mulher e com o filho, Afonso da Maia partia para Inglaterra e para o exílio.” (pp.15-16)
  • A sua devoção (devoção dos Runas!) sempre grande, exaltara-se. (…) Odiando tudo o que era inglês, não consentira que seu filho, o Pedrinho, fosse estudar ao colégio de Richmond. (…) e para o educar mandou vir de Lisboa o padre Vasques, capelão do conde de Runa.” (pp.17-18)
  • Foi necessário calmá-la, regressar a Benfica. (…) O Pedrinho no entanto estava quase um homem. Ficara pequenino e nervoso como Maria Eduarda, tendo pouco da raça, da força dos Maias; a sua linda face oval de um trigueiro cálido, dois olhos maravilhosos e irresistíveis, prontos sempre a humedecer-se, faziam-no assemelhar-se a um belo árabe. (pp.19-20)
  • Quando a mãe morreu, (…) Pedro teve na sua dor os arrebatamentos de uma loucura. (…) Muitos meses ainda não o deixou uma tristeza vaga. (…) Nesses meses ainda tornara-se devoto: lia “Vidas de Santos”. (p.21)
  • Pedro da Maia amava! (…) sob as rosinhas que ornavam o seu chapéu preto, os cabelos loiros, de um oiro fulvo, ondeavam de leve sobre a testa curta e clássica: os olhos maravilhosos iluminavam-na toda; a friagem fazia-lhe mais pálida a carnação de mármore: e com o seu perfil grave de estátua, o modelado nobre dos ombros e dos braços que o xale cingia – pareceu a Pedro nesse instante alguma coisa de imortal e superior à Terra. (p.12)
  • Quando ela atravessava o salão, os ombros vergavam-se no deslumbramento de auréola que vinha daquela magnífica criatura, arrastando com um passo de deusa a sua cauda de corte, sempre decotada como em noites de gala, e, apesar de solteira, resplandecente de jóias. (p.23)


  • Os criados interrogados disseram apenas que a menina se chamava Maria. (…) As senhoras, deliciando-se em vilipendiar uma mulher tão loira, tão linda e com tantas jóias, chamaram-lhe logo a “negreira”. (pp.24-25)
  • Nunca Maria Monforte aparecera mais bela (…) estes tons de seara madura batida do sol, fundindo-se com o ouro dos cabelos, iluminando-lhe a carnação ebúrnea, banhando as suas formas de estátua, davam-lhe o esplendor de uma Ceres. (p.26)
  • Daí a dias, Afonso da Maia viu enfim Maria Monforte. Tinha jantado na quinta do Sequeira ao pé de Queluz, e tomado ambos o seu café no mirante, quando entrou pelo caminho estreito que seguia o muro a caleche azul com os cavalos cobertos de redes. Maria abrigada sob uma sombrinha escarlate, trazia um vestido cor-de-rosa cuja roda, toda em folhos, quase cobria os joelhos de Pedro, sentado ao seu lado. (p.29)
  • Afonso não respondeu: olhava cabisbaixo aquela sombrinha escarlate que agora se inclinava sobre Pedro, quase o escondia, parecia envolvê-lo todo – como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde triste das ramas. (p.30)
  • Dois dias depois, Vilaça entrou em Benfica, com as lágrimas nos olhos, contando que o menino casara nessa madrugada e (…) ia partir com a noiva para Itália. (p.30)

Capítulo II

  • Pedro e Maria, no entanto, numa felicidade de novela, iam descendo a Itália. (…) Foram para França. (…) E quando ela apareceu grávida, ansiou por tirá-la daquele Paris batalhador e fascinante, vir abrigá-la na pacata Lisboa adormecida ao sol. Antes de partir, porém, escreveu ao pai. (pp.32-33)

*

  • Fez-se então entre pai e filho uma grande separação. Quando lhe nasceu uma filha, Pedro não lho participou. (p.34)
  • Nunca Maria fora tão formosa. (…) com a sua radiante figura de Juno loira, os diamantes das tranças, o ebúrneo e lácteo do colo nu, e o rumor das grandes sedas. Com razão querendo ter, à maneira das damas da Renascença, uma flor que a simbolizasse, escolhera a tulipa real, opulenta e ardente. (p.36)
  • Quando, porém, Maria teve outro filho, um pequeno, o sossego que então se fez em Arroios trouxe de novo muito vivamente, ao coração de Pedro, a imagem do pai abandonado naquela tristeza do Douro. Falou a Maria de reconciliação. (p.38)
  • (Maria) andava lendo uma novela de que era herói o último Stuart, o romanesco príncipe Carlos Eduardo (…) Um tal nome pareceu-lhe conter todo um destino de amores e façanhas. (p.38)
  • Pedro podia já sair para uma caçada na sua quinta da Tojeira, adiante de Almada (…) para obsequiar o italiano. (…) Toda essa noite Maria dormiu mal, na excitação vaga que lhe dava aquela ideia de um príncipe entusiasta (…) ferido agora por cima do seu quarto. (…) tudo nele fascinava, a sua figura, o seu mistério, até o seu nome de Tancredo. (pp.39-41)
  • Uma sombria tarde de Dezembro, de grande chuva, Afonso da Maia (…) viu Pedro diante de si. Vinha todo enlameado, desalinhado, e na sua face lívida, sob os cabelos revoltos, luzia um olhar de loucura. (p.44)
  • A Maria tinha fugido de casa com a pequena… Partiu com um homem, um italiano… (…) Achei esta carta. “É uma fatalidade, parto para sempre com Tancredo, esquece-me, que não sou digna de ti, e levo a Maria, que me não posso separar dela.” Afonso sentou-se lentamente na sua poltrona, e acomodou o neto ao colo. (pp.45-46)

  • Mas de repente parou diante do pai, com um riso seco, um brilho feroz nos olhos. “Sempre desejei ver a América, e é uma boa ocasião agora… É uma ocasião famosa, hem? Posso até naturalizar-me, chegar a presidente, ou rebentar… Ah! Ah! (p.48)
  • Afonso demorou-se ainda ali, com um livro na mão, sem ler, atento só a algum rumor que viesse de cima; mas tudo jazia em silêncio. (…) Pareceu espantado de ver o pai: e na face que ergueu, envelhecida e lívida, dois sulcos negros faziam-lhe os olhos mais refulgentes e duros. (p.51)
  • A madrugada clareava, Afonso ia adormecendo – quando de repente um tiro atroou a casa. (…) Entre duas velas que se extinguiam, com fogachos lívidos, deixara-lhe uma carta lacrada com estas palavras sobre o envelope, numa letra firme: “Para o papá.” Daí a dias fechou-se a casa de Benfica. Afonso da Maia partia com o neto (…) para a quinta de Santa Olávia. (p.52)

 

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