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– Carlos Eduardo, o nome


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— Diz-lhe que já o adoro — murmurava ela curvada sobre a escrivaninha acariciando os cabelos de Pedro. — Diz-lhe que se tiver um pequeno lhe hei-de pôr o nome dele…

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Para abrandar desde já o papá, Pedro quis dar ao pequeno o nome de Afonso. Mas nisso Maria não consentiu. Andava lendo uma novela de que era herói o último Stuart, o romanesco príncipe Carlos Eduardo; e, namorada dele, das suas aventuras e desgraças, queria dar esse nome a seu filho… Carlos Eduardo da Maia! Um tal nome parecia-lhe conter todo um destino de amores e façanhas.

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No entanto Alencar (que à luz viva parecia mais gasto e mais velho) começara uma grande história, e como fora ele o primeiro que vira Carlos depois de nascer, e como fora ele que lhe dera o nome. — Teu pai — dizia ele — o meu Pedro, queria-te pôr o nome de Afonso, desse santo, desse varão de outras idades, Afonso da Maia!Mas tua mãe, que tinha lá as suas ideias, teimou em que havias de ser Carlos. E justamente por causa de um romance que eu lhe emprestara; nesses tempos podia-se emprestar romances a senhoras, ainda não havia a pústula e o pus… Era um romance sobre o último Stuart, aquele belo tipo do príncipe Carlos Eduardo, que vocês, filhos, conhecem todos bem, e que na Escócia, no tempo de Luís XIV… Enfim, adiante! Tua mãe, devo dizê-lo, tinha literatura e da melhor. Consultou-me, consultava-me sempre, nesse tempo eu era alguém, e lembro-me de lhe ter respondido… (Lembro-me apesar de já lá irem vinte e cinco anos… Que digo eu? Vinte e sete! Vejam vocês isto, filhos, vinte e sete anos!). Enfim, voltei-me para tua mãe, e disse-lhe, palavras textuais: «Ponha-lhe o nome de Carlos Eduardo, minha rica senhora, Carlos Eduardo, que é o verdadeiro nome para o frontispício de um poema, para a fama de um heroísmo ou para o lábio de uma mulher!»

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“Metade da população portuguesa tem o nome próprio Maria, José, Manuel, António ou Ana. Incrível, não é? Cinco milhões de portugueses viram a cabeça quando ouvem pronunciar estes “sons”! E se acrescentarmos o apelido Silva a probabilidade de acertarmos no nome de alguém que acabamos de conhecer aumenta substancialmente. Mais de um milhão de portugueses (cerca de dez por cento da população) tem o apelido Silva, sendo Santos o apelido mais frequente no nosso país. Porquê? Será que somos todos parentes? O nosso país é pequeno mas não a esse ponto… Não somos os únicos a repetir os nomes uns dos outros. Em Espanha os nomes mais frequentes também são Maria e José, com percentagens acima dos valores nacionais!

Há nomes que perduram, que resistem à erosão do tempo e da memória. Outros parecem seguir tendências cíclicas: ora estão na moda ora caem em desuso para mais tarde ressurgirem. Há trinta anos quem escapava a chamar-se Carla, Sandra ou Paula? Hoje prefere-se Beatriz, Inês, Carolina… sem esquecer as Floribelas recém-nascidas, que irão perpetuar a célebre protagonista da novela televisiva.

Tudo começa com a escolha do nome que, não pode ser feita pelo próprio, já que a legislação obriga a que a criança seja registada no prazo de vinte dias. Hoje são quase sempre os pais e irmãos, se os houver, que escolhem o nome para o bebé que está para chegar. Mas outrora vigorava a tradição de a escolha do nome ser feita pelos padrinhos de batismo que, não raras vezes, para infelicidade de muitas pessoas, faziam questão de “partilhar” o seu nome próprio com o rebento recém-chegado à comunidade. A atribuição dos nomes dos avós ou de outro elemento significativo da família era e ainda é uma prática frequente, o que ajudará a explicar esta nossa aparente falta de imaginação na hora de decidir o nome dos filhos.

Hoje consultamos páginas eletrónicas ou folheamos livros com centenas de nomes em busca daquele que mais nos agrada ou que suscita menos “anticorpos” no seio da família. Mas não há muitos anos olhava-se para o calendário no dia em que a criança nascia e atribuía-se o nome do respetivo santo, para que protegesse o bebé e o fizesse medrar, numa época de elevada mortalidade infantil. A crença nos santos protetores levava muitas famílias a cumprir a promessa no momento de registar os filhos. “Há uma grande influência da religião, presente quer nos nomes próprios quer nos apelidos, e uma fortíssima tradição mariana em Portugal. As filhas eram quase sempre Marias e usava-se os nomes dos santos até como uma forma de as distinguir”, explica o genealogista Luís Amaral, responsável pelo portal Genea Portugal. “A devoção mariana, que vem desde as origens de Portugal, chegou ao ponto de os reis deixarem de se coroar a partir de D. João IV, porque Nossa Senhora da Conceição era considerada rainha de Portugal. É um caso único na Europa”. Não é de estranhar que os dois nomes mais usados em Portugal – Maria e José – tenham origem hebraica e remetam para figuras bíblicas. o catolicismo perdura nos nossos nomes.”

(Oliveira, Gabriela, in Notícias Magazine, nº784, 2007)

 

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