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– As Mulheres de Eça – III

adultério

O PROBLEMA DO ADULTÉRIO

Eça de QUEIRÓS

Uma Campanha Alegre

Hoje a mulher é educada exclusivamente para o amor – ou para o casamento, como realização do amor. É claro que, como Dumas, falamos das classes ricas e improdutivas.

É fácil ver. Que se lhe ensina desde o momento em que a pequenina mulher de 7 anos, nos bicos dos pés, diante do espelho, com a sua sainha tufada e o seu puff pueril, se enfarinha de pó-de-arroz, rindo com os seus brancos dentinhos de rato?

Educa-se-lhe primeiro o corpo para a sedução. Não pela ginástica – isso agora apenas começa vagamente, como uma imitação inglesa – mas pela toilette: ensina-se-lhe a vestir, estar, andar, sentar-se, encostar-se com todas as graças para sensibilizar, dominar as atenções, ser espétaculo, vencer o noivo. Ensina-se-lhe a arte sentimental e inútil de bordar flores e pássaros; o bordado é a mais perniciosa excitação da fantasia; sentada, imóvel, curvada, picando delicadamente a talagarça, o voo inquieto das imagões e dos desejos palpita-lhe em roda, como um enxame de abelhas: e é isto que perde as rosas como diz um velho poeta ascético: é porque a rosa não pode fugir, andar, sacudir o enxame, que ela é sempre ferida no cálice.

Depois ensina-se-lhe a música, o piano, o canto, Bellini, Donizetti, todos os amorosos. A música clássica, os velhos minuetes, os mutetes, as fugas, as árias simples – eram uma serenidade para o espírito, um correr de água fresca. Os românticos são como uma chama impaciente. Prepara-se-lhe assim um meio de encantar, de sensibilizar, de adormecer, e dá-se-lhe alguma coisa da habilidade das sereias. – Depois, o seu espírito como é educado? Pelo romance, que lhe descreve o amor, pelo teatro que lho dialoga, pela ópera que lho suspira, pela opereta que lho assobia.

No mundo, nas soirées, ao gás dos bailes, na intimidade das mulheres, que interesses vai encontrar? os da política? os da ciência? os da arte? os da economia doméstica? os da guerra? Decerto que não: os do amor.

Que lhe diz o luxo, por meio de sedas sonoras, das caxemiras, das pedrarias, da vitrina das lojas, das rendas loucas, dos saltos à Luís XV, da fofa penumbra dos cupés? Amor.

Que ideia lhe dá a família, a maternidade? O encanto do amor legítimo.

Que lhe ensina a religião? O amor.

(…) Ora o que se faz a esta mulher inteiramente, exclusivamente educada para o amor? Esta mulher, assim formada, casa. O marido vai, decerto, dar a esta natureza que vem curiosa, impressionável e agitável, uma ocupação que a absorva e que a preencha? – Não. É nas classes ricas: o marido trata de lhe tirar todo o trabalho, todo o movimento, toda a dificuldade, alarga-lhe a vida em redor, e deixa-a no meio, isolada, fraca e tenra, abandonada à fantasia, ao sonho e à chama interior: a cabeleireira penteia-a, os criados vestem-na, a governanta trata-lhe da casa, a ama cuida-lhe dos filhos, as moças arrumam-lhe os quartos, o marido ganha-lhe o dinheiro, a modista faz-lhe os vestidos – um cupé macio caminha por ela, um jornal de modas pensa por ela. – O que resta a esta infeliz criatura, encolhida no tédio da sua causeuse? Resta-lhe a sua genuína ocupação, a que lhe ensinaram e em que é perfeita – o amor.

Se o marido se conserva um amante – bem. Mas se o marido, naturalmente, como deve ser, se ocupa dos seus negócios, do seu escritório, da sua política, dos seus fundos, do seu clube, dos seus amigos – mal. Ela naturalmente faz como um amanuense que, tendo por profissão escrever, quando tem escrita e cheia a primeira folha de papel, toma outra – para continuar a escrever.

E querem uma prova? É que as mulheres mais ocupadas são as mais virtuosas. É isto evidente na pequena burguesia, no mundo proletário, nas classes agrícolas. Os adultérios aí, a não ser as exceções de temperamentos, são quase todos oriundos na necessidade e na pobreza.

*

*

A PRESENÇA MASCULINA N’OS MAIAS

Beatriz BERRINI

Portugal de Eça de Queirós

A presença masculina é avassaladora n’Os Maias. Ocupam os homens maior espaço, quantitativa e qualitativamente. O foco narrativo, por exemplo, quase nunca se fixa na consciência de mulher alguma e sempre as conhecemos através do seu discurso ou do seu agir, de outras personagens ou do olhar omnisciente do narrador que, eventualmente, nelas se detém. É o ponto de vista masculino o dominante. É possível conhecer-se intimamente o interior de Carlos, de Ega, até de Afonso ou de um ou outro frequentador do Ramalhete. Mas a Gouvarinho, a Raquel, e mesmo a própria Maria Eduarda, nós somente as vemos de fora.

(…) Mostrando o casamento português na burguesia e na nobreza, como resultado de arranjos económicos – é o caso dos Gouvarinhos, entre outros, no qual o marido contribui com o sangue nobre, o título histórico, e ela com a fortuna do pai comerciante – Eça de Queirós critica o matrimónio burguês. Em muitos casos, não passa de uma farsa, sendo o casamento uma instituição minada e que se nega a si mesma, uma das causas e um dos frutos da decadência social e moral do País, num círculo vicioso.

Como são outros casamentos presentes nos textos de Eça de Queirós e ainda não referidos? Eusebiozinho, no fim d’Os Maias, surge-nos ainda mais fúnebre, ainda mais tísico, “dando o braço a uma senhora muito forte” (p. 474). Continua “descaído e molengo”, apenas agora caminha ao lado da aventesma da mulher que – ao que parece – o derreia à pancada. É a conclusão da vida de solteiro despendida em lupanares.

O Dâmaso, ainda n’Os Maias, casa-se também. O seu dinheiro alcança obter uma das filhas dos condes de Águeda, uma gente arruinada. Constituíra-se, o Dâmaso, em “verdadeira sorte grande para aquela distinta família” (p. 649), explica Ega a Carlos. E acrescenta: a mulher “faz aí a felicidade de um rapazote simpático, chamado Barroso”.

Assim, ou o casamento como um acordo comercial, em que se troca dinheiro por um título histórico, ou o adultério.

 

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