RSS

– As Mulheres de Eça – II

mulheres de eça.2

REFLEXÃO SOBRE A CRÍTICA DE FIALHO DE ALMEIDA A OS MAIAS

João C. REIS

(Universidade da Ásia Oriental)

“Naquelas novecentas páginas – coisa singular! – escreve o crítico Fialho de Almeida – não há lugar para uma só mulher que seja honesta, e o amor, mesmo a que se dão sem pagamento de tarifa, o amor é coisa exclusivamente física e bestial, sem idealidade, sem ternura e sem preparo – como entre animais de espécie imunda.”

À partida – isto passa por não ser verdade, e não são poucas as passagens do livro em que o amor se consuma com a “idealidade requerida, com ternura, e com preparo”. Pelo menos da parte da mulher, que, raramente, e mesmo aí, sem uma razão especificamente exógena – será cínica, premeditada ou desonesta.

Por outro lado, utilizar expressões associadas à prostituição, ao adultério e à promiscuidade, em relação a mulheres outras além das Conchas e das Encarnações da Rua de S. Roque, não significa apenas ver o problema por cima e com descuidada (?) displicência. Revela uma mentalidade, de resto generalizada e hipócrita, de uma sociedade de tabus, de valores acanhados e de tendência repressiva, de que Fialho se faz polícia e delator, quando, sem razão que o justifique terá por óbvia intenção molestar e friamente prejudicar, não só o escritor de sucesso que o enciúma, e a sua probidade de artista, como o cidadão, que, e não por acaso, é funcionário da Administração Pública.

Quando o autor de Os Gatos, com efeito, assim simplifica e generaliza esta questão, não lobrigando na obra senão adúlteras e prostitutas, depravadas viciosas, e animais, subjuntivamente produto mórbido de um criador recalcado, tem por objectivo evidente, como outros não deixariam de fazer (antes e depois dele) praticar a denúncia simples perante as instituições e os costumes. Além de usar um ponto de vista meramente redundante, e de fácil consumo de um público leitor de instintos inconfessadamente propensos, mas, no fundo, sem dúvida conservador e retrógrado, ou ignorante, e por isso intolerante e fanático, para quem a mulher era uma propriedade ou um objecto, e o amor não passava de uma “torpeza legítima” (como se o sentimento pudesse, ou devesse, ser regulamentado por leis) – Fialho nem sequer é original.

Ramalho Ortigão, já, antes dele, havia dito o mesmo, e de maneira muito crua:

“Há em todos os grandes romancistas modernos, desde Balzac até ao Senhor Eça de Queirós uma tendência, de que o vulgo tem feito o atributo de uma escola, tendência febril a demorarem sensualmente as análises da torpeza e da podridão.”

Torpeza e podridão, citados a propósito de presumidas ilegitimidades, eis o que era o amor para o grande Ramalho, ainda para quem – “mesmo em anatomia (a descrição do) completo conjunto do corpo humano (isto é, o nu) é obsceno, porque é inútil.”

Para quem, igualmente, “as meninas nunca devem ler romances, quaisquer que fossem, e se os podiam ler as mulheres, era outra questão, à qual respondia que podiam, embora com esta reserva: às escondidas!”

Também Machado de Assis não sentia a menor dificuldade em ajuizar e avaliar os romances do “senhor Queirós”, um realista que “não queria ser mitigado”. Para ele, O Crime do Padre Amaro era um livro escuso e torpe, de um realismo implacável, consequente, lógico, levado à puerilidade e obscenidade.”

Passando de lado sobre a questão de qual seria, para os críticos, o conceito e o significado de “honestidade” em relação à mulher – ficaria ainda por descortinar e decidir se, em última análise, a duas dimensões, das suas personagens (homens e mulheres) ou se o sentido crítico da sua subconsciência não se sobrepunha, de facto, à mão da sua caligrafia artística. Isto é, se a mulher, tal como nos é apresentada, tão notoriamente e tão gravemente acusada pelo moralismo público não se constituía, pelo contrário, no símbolo do ser maltratado, impiedosamente vilipendiado e punido por uma sociedade de terror, que a todo o tempo, e em todas as circunstâncias, a ameaçava, domesticava e fustigava, através de inflexíveis esquemas de diversos condicionalismos opressores: dogmas, leis, códigos, superstições, coacções, a polícia, e outras instituições, robustecidas de um perverso poder de retaliação, que desenvolviam o medo como uma natureza, refreavam os impulsos de emancipação, ludibriavam a moral, escamoteavam a justiça, escarneciam a dignidade humana, discriminavam as pessoas, adulteravam o sentimento (com uma fraseologia que não se distinguia pela contenção…) e exautoravam o amor como uma infâmia.

À volta do amor, pois, instituíram-se regras de um verdadeiro terrorismo cultural, exacerbado por uma dialéctica paradigmática e odiosa de que constituirão exemplos conspícuos as crónicas dos autores referidos.

O amor, perfidamente alongado, como conceito e como expressão, no “pecado original”, tornava-se equivalente à ilicitude, à licenciosidade, à vergonha, ao imoralismo.

O sentimento associava-se, por isso, à evasão. Criava, na realidade, a necessidade fugir. Fugia-se por se amar e para se amar. Pelo peso do pecado. Pela indignidade da exploração pública e da calúnia. E por medo à polícia…

Luísa, pobre e ingénua, e pobre vítima de si mesma, mais do que dos outros, queria fugir com o homem que amara.

Para escapar aos horrores das maledicências dos Dâmasos e dos Palma Cavalões, que infestavam o Chiado, Carlos Eduardo queria refugiar-se com Maria Eduarda, em Itália, e a Gouvarinho propusera-se expiar, fugindo, as consequências de um sentimento reprovável. A Monforte, a negreira, isto é, já de si, anatemizada por ser produto de amores pecaminosos, escapara-se com o refugiado como de um remorso – o remorso de ter feito um casamento mistificado, com um homem desequilibrado. E por não fugirem, Ana Plácido e Camilo não foram poupados ao cárcere e ao ultraje, e um Samuel (Vieira de Castro) – que se arrogaria a uma “consciência” com que atacaria As Farpas – acabaria por assassinar, com a implícita aprovação e simpatia de muitos, a sua jovem mulher, matrimoniada contra vontade, que se deixaria, depois, enlear por um sentimento que a sociedade não consentia e, severamente, punia.

Não será propriamente por acaso que na obra queirosiana o amor e a tragédia aparecem muitas vezes de mãos dadas. E as vítimas são quase sempre mulheres, que Fialho tão ligeiramente classificaria de prostitutas e depravadas.

Carmen, a argentina do Mistério da Estrada de Sintra, por amores não correspondidos, ou traídos, morria dramaticamente no meio do Mediterrâneo, e a sua rival nos afectos de Rhytmel, a condessa, não acabaria com melhor sorte, sepultando-se viva num convento, não antes de envenenar o amante. Amélia, do Padre Amaro, enlouquecia e morria tragicamente. Luísa, morta, sem remissão, esvaída no remorso e no terror do inferno. A Monforte expiaria o seu “crime” nos bordeis de Paris, mas a sua alma gémea, Genoveva, ensandecia, deitar-se-ia de uma janela abaixo. E Maria Eduarda, no final da derradeira decepção de um destino cheio de terríveis adversidades, renunciando à vida, iria enterrar-se no fundo de uma província de França.

Não precisa de remontar a As Farpas para perceber como a consciência de Eça de Queirós funcionava muito mais profunda e complexamente de que supuseram (ou fingiram que não entenderam) os seus críticos. Quando da publicação de O Crime do Padre Amaro toda a gente se entreteve a analisar a história indecorosa daqueles amores profanos, a execrabilidade do carácter daquele padre sem vergonha e sem moral. Ninguém tomou em consideração, ao menos como hipótese, a possibilidade de o escritor ter, porventura, querido assumir-se contra a prática obrigatória do celibato eclesiástico, à sombra do qual tantas situações, trágicas ou não, em todo o caso imorais, semelhantes às de Amaro e Amélia, ocorriam no País – pesem, embora, a fragilidade denunciada, no romance, de uma rapariga culturalmente desprevenida, e emocionalmente desequilibrada, e as idiossincrasias velhacas e calculistas de um padre pecador.

Fialho, como outros, equivocou-se. Profundamente. Não só em relação às mulheres, como também, sem dúvida, ao próprio escritor, à nobreza do seu carácter, e à coerência das suas convicções, que vinham, desde 1886, à sua probidade de artista, e de crítico desassombrado de uma sociedade armadilhada e perversa, sempre pronta a cair, com fúria de um farisaísmo estúpido, sobre os desacautelados e desprotegidos da vida, aqueles que, de uma forma ou de outra, comiam o pão que o diabo amassava…

O capítulo a que se faz referência no começo destas despretensiosas considerações é aquele em que, pela primeira vez, Maria Eduarda e Carlos, na casa alugada da mãe Cruges, dias após as celebradas corridas de cavalos de Belém, se encontram frente a frente.

Nem Fialho de Almeida, nem Ramalho, nem Pinheiro Chagas, nem ninguém o notou – mas Eça de Queirós, neste capítulo verdadeiramente singular em toda a sua obra, utiliza, espontaneamente, cromo creio, ou premeditadamente, concedo, cerca de duzentas e cinquenta palavras e expressões de enternecimento e de simpatia, ou solidariedade, mais de trinta das quais terminadas em inho.

Fialho equivocou-se, de igual modo, quando tal mal profetizaria vida efémera a Os Maias como romance falhado que na sua obra era.

(Para si, Os Maias revelavam) “A mais completa ausência de vida interior nas personagens que quase todas falam, procedem, pensam, segundo alguma falha moral de irresponsáveis, com a veia da ironia literária do seu Autor, e a força da veneração que nos faz agradecer a Deus a providência de nunca a sua obra poder vir a tornar-se popular”.

Fialho, na verdade, nunca compreendeu, ou não quis compreender, (faço-lhe a justiça de preferir a segunda proposição, a despeito do que esta possa significar) nem o Homem, nem o Escritor, nem a Obra, designadamente Os Maias.”

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: