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– As Mulheres de Eça – I

mulheres de eça.1

A MULHER NOS ROMANCES DE EÇA DE QUEIRÓS

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Maria do Pilar FIGUEIREDO

(E. P. Augusto Gil)

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“Eça de Queirós considerado por muitos como o mais culto, impiedoso e límpido satirizador dos nossos costumes, criou uma vasta galeria de tipos inesquecíveis, sejam eles personagens principais, sejam pouco mais que simples figurantes e cuja passagem é, por vezes, um pouco fugaz, quase diluída, mas sempre necessária à caracterização de uma determinada atmosfera social.

É voz corrente que Eça, ao contrário de Camilo, foi nos seus romances, duro para com as mulheres e há mesmo quem vá mais longe ao afirmar que Eça foi menos exigente na criação de personagens masculinas que nas femininas, embora como é evidente, elas não possam ser dissociadas do papel que desempenham na acção.

Segundo Mário Sacramento, “as mulheres (…) são pelo menos da qualidade dos seus homens. Não há tangível diferença de nível entre os seus mundos masculino e feminino. E até, quiçá, as suas Maria Eduarda, Amélia e Luísa sejam superiores aos seus Carlos da Maia, Amaro e Basílio. São elas pelo menos, as vítimas, as figuras mais sinceras, as únicas que abandonam e sacrificam.”

Na verdade, Amélia morre ao dar à luz o fruto dos seus amores pecaminosos. Luísa, que inicia no adultério as suas atribulações, acaba também, por morrer. E, igualmente n’Os Maias, Maria Eduarda, ao entregar-se ao amor ilícito, se não sucumbe na morte como Luísa e Amélia, cai na desgraça do incesto que, de certo modo, vai ensombrar toda a sua vida futura.

Temos, ainda, Ana de Lucena que teve um amante de quem nada se sabe, mas também ela vai, mais tarde, pagar por isso, ao ser rejeitada pelo seu pretendente Gonçalo Ramires. E a adúltera Raquel Cohen acaba por ser castigada, com uma valente coça que o marido, à boa maneira portuguesa, lhe dá como castigo da sua relação amorosa com Ega.

E até Gracinha Ramires é, embora temporariamente, vítima do irmão depois de este lhe ter destruído o sossego e, indirectamente, a ter deixado indefesa, à mercê de um adultério que também ela acabará por cometer. Falta grave que, no entanto, não será punida como o foi Luísa porque para o castigo já lhe bastará ter de suportar o fardo de um marido meio pateta, o convívio com um irmão frouxo e pusilâmine, o cerco que André escandalosamente lhe faz, despertando a maledicência duma vila de província onde os seguidores das manas Lousadas abundam.

Todas elas são, dum modo geral, penalizadas enquanto os homens saem ilesos de todas essas situações. Deste modo, Amaro, morta e enterrada Amélia, parte para outras paragens onde vai continuar a sua carreira de eclesiástico. Basílio volta as costas a Luísa e parte para Paris. Carlos da Maia foge também e a Ega nada lhe acontece.

Em face de tudo isto, forçoso é notar que a posição da mulher, nos romances de Eça, acaba por ser diferente da dos homens. Essa atitude, porém, não surpreenderá se levarmos em linha de conta que a mulher foi sempre quem sofreu o peso das ideologias, razão por que sobre elas assenta mais intensamente, a crítica queirosiana.

Não quer isto dizer que as personagens masculinas escapem ao látego da ironia de Eça. Mas, de facto, parece que o seu crítico olhar está mais fortemente dirigido para o baixo nível das mulheres que para o dos homens.

Deste modo, não é só Amélia que se apresenta dominada pela paixão, sem um consciente remorso, mas sobretudo as outras, as casadas. E assim, a Condessa de Gouvarinho é viciosa e adúltera. Raquel Cohen igualmente. Maria Monforte também o foi. Luísa passa pelo adultério sem remorso nem dramas de consciência.

Estamos pois perante um conjunto de situações em que o amor não parece ter lugar. É a própria Luísa que chega a essa conclusão, nas suas reflexões: “É que o amor é essencialmente perecível, e na hora em que nasce começa a morrer” (…) “Era o que fazia Leopoldina, inconstante, tomando um amante, conservando-o uma semana, abandonando-o como um limão espremido”. Essa Leopoldina igualmente adúltera, mas que não se deixa vencer pelo ócio como a sua amiga Luísa, e que procura um rumo para a sua vida.

Assim, salvo uma ou outra excepção, a mulher queirosiana é, em certa medida, negativa., não só do ponto de vista espiritual e comportamental como do ponto de vista físico: ou são burlescas, mais ou menos grosseiras de aspecto, ou belas, mas vis. Traiçoeiras, algumas vezes.

Não acontece de igual modo com os homens que, frequentemente, até são bons como é o caso de João Eduardo, rapaz sério e bem intencionado, traído pela Amélia. Jorge, bom marido, traído pela Luísa com seu primo Basílio. O Raposo d’A Relíquia, é claramente traído pela Adélia, que o humilha e quase o faz rastejar. Pedro da Maia é traído por Maria Monforte. E até Zé Fernandes d’A Cidade e as Serras é traído por Madame Colombe, figura abjecta do submundo parisiense.

Assim e deste ponto de vista, a obra queirosiana constitui uma vasta galeria de mulheres mais falsas que Judas. Mulheres, de certo modo, demoníacas. Tão demoníacas como aquelas que espiam o pecado dos outros para dele tirar proveito. Mulheres de baixo estofo moral e cujo aspecto físico está de acordo com a sua alma carregada de sujidade.

Assim, nas páginas d’O Primo Basílio é Juliana quem logo chama a atenção. É uma personagem excepcionalíssima, que se nos apresenta com toda a carga negativa que é possível comportar um ser humano. E, ainda, a inculcadeira Vitória, mulher ambígua, que “tem mais manhas que cabelos.”

N’A Ilustre Casa de Ramires, as manas Lousadas, secas, escuras e gárrulas como cigarros, tecedeiras de todas as intrigas. As manas Lousadas e os seus quatro olhinhos perfurantes de azeviche, convertendo tudo em sujidade.

Igualmente activas são as beatas que povoam os serões da S. Joaneira, preocupadas em saber todos os pormenores da vida de Padre Amaro. É um desfilar de mulheres sem virtude nem beleza que o narrador nos vai apresentando e cujos comentários são de si significativos: assim, D. Maria Assunção possui nariz encavalado e “enormes dentes esverdeados, cravados nas gengivas como cunhas”. A D. Joaquina Gansoso apresenta-se como “pessoa seca (…) a boa muito espremida (…) voz dominante e aguda” em contraste com a irmã que é surda e nutrida. E por fim D. Josefa, “criatura mirrada de linhas aduncas”, por alcunha a “Castanha Pilada”.

Mulheres que o narrador designa por “as Velhas” e que muito próximo da sua condição animal, são metaforicamente citadas com uma antipatia que ele traduz deste modo: “Sentia-se o mastigar ruminado dos queixos” e mais adiante “As velhas, pela escada, empacotadas nos abafos, iam ganindo adeusinhos”.

Temos ainda outra velha beata, mulher austera, deformada por um fanatismo religioso que n’A Relíquia é D. Patrocínia Neves, donzela e “velha ressequida como um galho de Sarmento”. E D. Felicidade dividida entre as suas orações e suspiros, ridiculamente apaixonada pelo Conselheiro Acácio.

Mulheres que pouco se dão a conhecer. Passam velozmente, sem origem nem destino, seres mesquinhos, entregues à bisbilhotice. Mulheres volúveis. Falsas, também.

E, assim, a irrepreensível Miss Sara d’Os Maias de cândido e virginal aspecto é na realidade uma mulher despudorada, que à noite se transformava “em cabra (…) e lá ia para a relva com qualquer!”

Adélia d’A Relíquia sedutora, transforma-se numa mulher exigente, cruel, agressiva. E n’A Capital, o poeta Artur Corvelo apaixonado por uma esbelta figura de mulher que imaginava ser a Baronesa de Paradas e a quem envia os seus poemas, vê, em seu lugar, surgir a verdadeira baronesa, uma senhora atarracada que se atafulha de bolos e que a seus olhos é “um bicho”, “um monstro”, sem aquela gentileza e dotes físicos e espirituais que para ela imaginara.

Como vemos, o padrão por que são avaliadas as personagens criadas por Eça, em especial as femininas, parece manter-se inalterável ao longo dos seus romances. Se algumas, as feias, pela sua negatividade, despertam asco, desprezo ou comiseração, outras são caracterizadas em termos valorativos, pelos seus dotes físicos. Assim, Amélia era bela, alta, forte, bem feita. Luísa, gentil, de cabelos louros, olhos castanhos muito grandes. Gracinha Ramires, pequenina e frágil, de olhos esverdeados, transforma-se mais tarde, numa belíssima mulher. E Maria Eduarda, mais que estas, bela como uma deusa, no esplendor da sua carnação ebúrnea.

Mas há também as que são valorizadas pelo dinheiro que possuem: as raparigas casadoiras. Assim, vemos que o Agostinho, antigo pretendente de Amélia n’O Crime do Padre Amaro, acaba por ajustar casamento com a Menina do Vimeiro e com o casamento “apanha nada menos que os seus trinta contos”. Ana de Lucena, viúva e jovem, vale duzentos contos de reis. Rosinha do Rio Manso é a mais rica herdeira das redondezas. Jesuína, d’A Relíquia, tem um bom dote ao contrário de Gracinha Ramires que não casa com André Cavaleiro porque o seu dote é pequeno.

Mas também as velhas valem pelo dinheiro que possuem, sobretudo as Tias. Assim o Agostinho, vago namorado de Amélia, era um partidão porque iria herdar das Tias. Teodorico Raposo esperava igual sorte, que aliás falhou e que, por sinal, é em grande parte distribuída por homens: o Padre Casimiro, o Padre Pinheiro, o Padre Negrão e o Dr. Margaride.. E, ainda, a Marquesa de Alegros que deixou no testamento um legado para que Amaro pudesse ingressar no Seminário.

Daqui se poderá, portanto, deduzir que as mulheres queirosianas velhas ou novas, se não ricas, estão destinadas a, com o seu dinheiro, ajudar não outras mulheres, mas os homens.

Sabido é que Eça, talvez por temperamento e em obediência a uma Escola de que ele foi inovador na sua terra, tratou as mulheres de modo diferente de Camilo e disso tem consciência ao colocar na voz de Zé Fernandes d’A Cidade e as Serras a ironia com que faz a apreciação de uma das raparigas casadoiras da região “(…) A D. Beatris Veloso… Essa é bonita… Mas, menino, que horrivelmente bem falante! Fala como as heroínas de Camilo. Tu nunca leste Camilo. E depois num tom de voz que te não sei descrever, o tom com que se fala no D. Maria em peças de sentimento.” E mais adiante é ainda o narrador-personagem Zé Fernandes que nos apresenta a D. Beatris Veloso, no jantar da Tia Vicência. “vestida de cassa branca sobre seda, que a tornava mais aérea e magra, com uma imensa trunfa de cabelo riçado.”

Há quem pretenda ver nas últimas obras de Eça Queirós uma nova atitude em relação à vida. E, de facto, assim parece ser. Os romances acabam bem. Não há crime nem incesto. Mas no que respeita às personagens femininas, com uma ou outra excepção, elas continuam pouco mais ou menos grotescas, se a sua fealdade vem do corpo. Vis, se apresentam os mesmos defeitos das dos primeiros romances.

Assim, tal como n’O Crime do Padre Amaro ou n’O Primo Basílio, elas aí estão n’A Cidade e as Serras, as parisienses com a sua beleza física, os seus vícios, as suas mazelas morais e as camponesas com as suas virtudes peculiares e a sua fealdade.

Deste modo, Jacinto, ao elogiar a sua cozinheira de Tormes, comenta: “Mulher sublime! Ela é horrenda, quase anã, com os olhos tortos, um verde e outro preto. Mas que paladar!” E referindo-se à Ana Vaqueira que em Tormes o serve bem, diz: “É uma bela moça, mas bruta. Não há ali mais poesia, nem mais sensibilidade, nem mais beleza que numa linda vaca turina.”

E na troca de impressões com Zé Fernandes acerca de um possível casamento com noiva das redondezas, comenta: “Com efeito há aqui falta de mulher com M grande. Mas essas senhoras daí das casas dos arredores…Não sei. Mas estou pensando que se devem parecer com legumes. Sãs, nutritivas, excelentes para a panela – mas, enfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam às flores são sempre das cortes, das capitais.”

No entanto, nesse já citado cenário que é Paris, as tais flores que os poetas poderiam cantar, surgem nesse mesmo romance com toda a sua baixeza de comportamento sórdido: desde Madame de Oriol, envolta em austeros vestidos quaresmais, volúvel, e que tem por amante o trintanário, até à cocotte Diana de Lorges, passando pela Condessa de Trèves, esta dividida entre o marido e o amante, “o terrível banqueiro judeu, David Efraim” para nos determos na equívoca Madame Colombe, “criatura seca, quase tisnada, com dois olhos taciturnos e negros.” (…) “Aquela besta suja e magra” como mais tarde a haveria de recordar Zé Fernandes.

Toda uma série de amores ilícitos que continuam a aparecer mesmo nos últimos romances e em que o apelo de Eros transporta consigo algo que Eça considera, simplesmente, como escreve Coimbra Martins, “indecoroso e rasteiro”. Tão rasteiro que, por vezes, lhe associa como elemento de sedução, os pés femininos. Os pés, vizinhos da lama e do pó, rasteiros por oposição ao rosto onde os sentimentos se reflectem.

Assim e como exemplo, veja-se este fragmento da descrição do quarto destinado a abrigar os amores de Maria Eduarda e Carlos da Maia: “um tapete de veludo do mesmo tom rico, fazia um pavimento de ouro vivo, sobre que poderiam correr nus, os pés ardentes de uma deusa amorosa!”

Curiosamente, a criada Juliana, que não sendo uma amorosa é espia e verdugo dos amores de Luísa, tem nos pés o seu único sinal de beleza o que, aliás, resulta no seu vício, as botinas caras, e consequente ruína.

Ainda no mesmo romance vemos Luísa, após se despedir de Basílio num dos seus primeiros encontros, descansar os pezinhos no assento do coupé. E, mais adiante, já no quarto denominado “o Paraíso”, Basílio olhando os pezinhos de Luísa, calçados de meias cor-de-rosa, seduzido, tomou-lhos entre as mãos e beijou-lhos.

No romance Os Maias, quando um grupo de homens critica os dotes de uma cantora lírica, o Marquês interroga: “E o pezinho?” enquanto “com os olhos acesos passava devagar a mão pela calva”. E ainda o velho Videirinha, personagem d’A Capital, que se nos apresenta seduzido e ridiculamente apaixonado pelo pé da sua espanhola Mercedes.

Uma vez mais aí está presente a ironia queirosiana que, no entanto, se apaga, poderemos afirmá-lo, ao tratar de uma figura diferente que nos surpreende n’A Cidade e as Serras: Joaninha Flor da Malva. A doce Joaninha, ténue e fugaz, bela “no esplendor branco da sua pele.”

A este respeito escreve Mário Sacramento: “Tem-se apontado joaninha d’A Cidade e as Serras como único tipo feminino que se salva na galeria queirosiana, sem se querer reparar em que a própria fugidia pincelada com que é dada, pela imprecisão se nega (…) Joaninha não vem à festa da Tia para que não a vejamos na intimidade (…) Não aparece num retrato de frente.”

De facto, Joaninha é uma espécie de sonho cor-de-rosa, tal como a Rosinha de Rio Manso com quem Gonçalo Ramires casará e de quem apenas se sabe que é a herdeira mais rica das redondezas e que vai proporcionar a Gonçalo Ramires um futuro tranquilo porque além de dinheiro terá virtude e, possivelmente, um coração puro e fiel, uma vez que tal como Joaninha.

São igualmente algumas dessas qualidades que levam Teodorico Raposo a aceitar Jesuína como esposa.

Daqui se poderá concluir, portanto, que as mulheres jovens estão destinadas pelo casamento, a favorecer os homens, não só com o seu dote, mas, também, com as qualidades domésticas que possuam. Beleza e inteligência não são imprescindíveis no casamento. Apenas bons sentimentos que não causem incómodo a ninguém e, muito menos, aos homens seus maridos.

Portanto, amor e casamento parecem distantes um do outro. Aliás, é assim que pensa Teodorico Raposo ao decidir-se casar com Jesuína, ciente que ela não lhe oferecerá os prazeres do amor que a inglesa Mary ou a portuguesa Adélia lhe ofereceram mas, em contrapartida, será garantia de um bom futuro.

Por isso mesmo ignora que Jesuína já tem trinta e dois anos, é vesga e corpulenta, comentando entusiasmado com a perspectiva do casamento: “Amor, amor, não… Mas acho-a um belo mulherão: gosto-lhe muito do dote.” Além disso, aprecia-lhe as prendas domésticas, sobretudo o jeito que ela tem para confeccionar o prato de ovos queimados.

Deste modo, deverá o herói queirosiano, em face do casamento, optar por uma solução tipo Jesuína ou, melhor, por uma tipo Rosinha de Rio Manso, se os deuses lhe oferecerem tal oportunidade.

Segundo Mário Sacramento, “Eça de Queirós deu na medida em que lhe era possível (por temperamento e Escola) a tragédia da mulher no mundo, minúscula como todas as tragédias dos seus livros.”

Na verdade é vasta a galeria de tipos que apenas esboçou ou delas deu retrato completo, e que raramente tratou com benevolência ou simpatia. Personagens femininas frequentemente amorais, equívocas, degradadas.”

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One response to “– As Mulheres de Eça – I

  1. Sofia

    Junho 16, 2012 at 9:31 pm

    Mais uma vez Teresa o seu blog é uma lufada de ar fresco para qualquer professor.
    Bem haja,
    Sofia Coimbra

     

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