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– As Conferências do Casino

“AS CONFERÊNCIAS DEMOCRÁTICAS” NO CASINO LISBONENSE

(António José Saraiva)

*

Oliveira Martins teve de assistir sozinho, longe dos amigos, ao grande acontecimento que confusamente se pressentia: a Comuna de Paris, no termo da guerra franco-prussiana. Antero aguardara as notícias da guerra na praia de Santa Cruz, cerca de Torres Vedras, onde passava as férias com Jaime Batalha Reis.

A Comuna foi um acontecimento de grandeza imprevista e que excedia a capacidade individual de percepção e apreciação, como os sismógrafos se tornam incapazes de medir os tremores de terra, se estão próximos do epicentro. Antero deu-se conta disso e escreveu, em Abril de 1871, numa carta ao seu amigo António de Azevedo Castelo Branco: “A Comuna de Paris foi sublime na sua cegueira, como um elemento, uma força natural. Eu cá por mim admiro-a, e mal me atrevo a discuti-la. A crítica, que se aprende na escola do senso comum, deve ser posta de parte em face destas coisas gigantescas e tenebrosas por aonde a história se revela de séculos a séculos pelo seu lado mais sublime mas também mais obscuro – a fatalidade. A nossa crítica guardemo-la para as acções ordinárias e as ideias de todos os dias. Sim, guardemos a crítica para os personagens secundários e os comparsas do drama: mas quando o protagonista fatídico entra em cena, evoquemos então as potências ocultas e irresistíveis do nosso ser, forças que não discutem nem se discutem, e que só sabem dizer com uma espontaneidade fatal: isto é grande! e é eterno!… Tal se apresenta a Comuna na sua terrível majestade: fora do senso ordinário, como uma grande coisa religiosa…”

Só um poeta interessado pela Metafísica seria capaz de sentir esta dimensão transcendental da História, que se torna patente em certos acontecimentos, “que não cabem no senso ordinário”. Oliveira Martins apercebeu-se dessa dimensão, ou pelo menos da sua aparência, ao relatar o terramoto de 1755 na História de Portugal, catástrofe que precipitará a transformação da sociedade portuguesa do século XVIII.

Em Portugal a Comuna provocou, obviamente, ataques dos jornais constitucionais e católicos e de jornalistas de establishement como Pinheiro Chagas, mas também houve “progressistas” que apareceram na imprensa a defendê-la. Entre as relações de Antero vale a pena citar Guilherme de Azevedo (que será um dos promotores das Conferências do Casino) e José Falcão, contemporâneos da Universidade. Ambos tinham subscrito o manifesto ao país dos estudantes de 1862. É da autoria de José Falcão um panfleto indignado contra o governo de Thiers, que lembra pelo estilo os de Antero, panfleto intitulado A Comuna de Paris e o Governo de Versailles. A principal consequência dos acontecimentos de Paris em Portugal foram as célebres “Conferências Democráticas” no Casino Lisbonense.

A Comuna foi proclamada em Paris em 18 de Março de 1871 e ainda se combatia nesta cidade quando em 29 de Abril apareceu o primeiro anúncio na Revolução de Setembro dizendo que num dos salões públicos de Lisboa se iam efectuar conferências “sobre matérias políticas e sociais”. Dias depois apareceu no mesmo jornal o programa, donde destacamos os seguintes períodos: “Ninguém desconhece que se está dando em volta de nós uma transformação política, e todos pressentem que se agita, mais forte que nunca, a questão de saber-se como deve regenerar-se a organização social.”

É claro que quem escrevia isto estava pensando nos acontecimentos recentes: a guerra franco-prussiana, a insurreição de Paris, os acontecimentos de Roma que levavam à unificação da Itália sob a égide da monarquia laica. Eram estes acontecimentos que impunham (segundo o manifesto):

  • “Procurar adquirir a consciência dos factos que nos rodeiam, na Europa.
  • Agitar na opinião pública as grandes questões da Filosofia e da Ciência moderna.
  • Estudar as condições da transformação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa.

Tal é o fim das Conferências Democráticas.”

Seguidamente o programa chamava a atenção para “a imensa vantagem” que as Conferências vinham trazer: preparar a consciência para a revolução “é dar não só uma segunda base à constituição futura, mas também, em todas as ocasiões, uma sólida garantia à ordem”.

Este programa, divulgado em folha volante, era assinado pelos seguintes nomes.

  • Adolfo Coelho (o jovem etnógrafo)
  • Antero de Quental
  • Augusto Soromenho (professor do Instituto Superior de Letras)
  • Augusto Fuschini (estudante de Matemática em Coimbra)
  • Eça de Queirós
  • Germano Vieira Meireles
  • Guilherme de Azevedo
  • Jaime Batalha Reis
  • J. P. Oliveira Martins
  • Teófilo Braga

(Sabemos que Teófilo foi convidado por Antero, mas ignoramos a sua resposta. Antero assinou por ele. O administrador da parte material foi José Fontana, gerente em 1871 da casa Bertrand.)

Antero orientava tudo e escrevia a Teófilo: “Temos um programa mas não uma doutrina: somos uma associação mas não uma igreja. Isto é, liga-nos um comum espírito de racionalismo, de humanização positiva das questões morais, de independência de vistas, mas de modo nenhum impomos uns aos outros opiniões e ideias, fora do âmbito tão largamente marcado à nossa unidade por este comum ponto de vista. Seremos, em religião, pelo sentimento criador do coração humano contra os mitos doutrinais das teologias. Seremos, em política, pelo governo do povo pelo povo; em sociologia pela emancipação do trabalho; em literatura e arte pelo fim social e civilizador da arte e da literatura, combatendo as tendências egoístas e esterilizadora que hoje predominam. (…)

Eu dou grande importância a esta tentativa não só esperando bons resultados directos como indirectos ou outros talvez maiores, por exemplo o gosto das conferências desenvolvendo-se fora de Lisboa, abrindo-se outras em Coimbra e Porto, etc. A minha imaginação galopa nessa região agitadora, ardente e animada.”

(…)

Foi Antero quem proferiu o discurso de abertura, parafraseando o que dizia o programa de que já falámos. Foi também a Antero que coube a 2ª conferência, “Causas da decadência dos povos peninsulares”, ocupando-se do tema escaldante da federação ibérica, que já fora tratado em Portugal perante a Revolução de Espanha, de 1868; os “ordeiros” atribuíam à situação republicana instaurada em Espanha os acontecimentos, por vezes ferozes e sangrentos, da revolta “comunalista” que ameaçava desconjuntar o Estado espanhol, paredes meias com Portugal, e invadir as nossas fronteiras. Essa conferência não tem grande originalidade. Reconhece-se aí o pensamento de Herculano, que dava como causa da decadência nacional “o absolutismo e o fanatismo”, isto é, a centralização monárquica e a Inquisição. Como se sabe, a concentração do poder, tanto político como religioso, fora sempre para Herculano a causa de todos os males. (…)

Seguiu-se na série Augusto Soromenho, anunciado como “lente de Literatura moderna e um dos maiores eruditos do nosso país”. Era um arabista e fora um colaborador de Alexandre Herculano. Não pertencia ao grupo de Antero, mas era amigo de Oliveira Martins. Era um homem de outra geração e citava Chateaubriand como exemplo de boa literatura. Na sua conferência não fez ondas.

O mesmo não aconteceu com Eça de Queirós, que falou sobre “A literatura nova. O realismo como nova expressão de arte”.

Eça, que estava no princípio da sua carreira de escritor, fez tudo para chamar as atenções sobre si. Apresentou-se com um fato espalhafatoso, como mais tarde João da Ega na primeira aparição que fez em Os Maias, irrompendo no consultório de Carlos Eduardo. E compreendeu que para dar nas vistas era preciso desde logo identificar-se como adepto de um partido, o partido “revolucionário”, isto é, o partido da Comuna, cujos acontecimentos ainda se discutiam no Chiado. O autor que cita mais vezes é Proudhon, cujo alvo é a Justiça. A Arte deveria ser a expressão da Revolução, que pretendia a Justiça e a Verdade. Outro autor que influencia Eça é Taine, com a sua teoria ou factores determinantes da obra de arte: o meio, a época, a raça (teoria positivista, que mais tarde mutatis mutandis, transitaria para o marxismo). A arte que se fazia em Portugal e no mundo era falsa porque não reproduzia a realidade, e a Revolução pretendia torná-la verdadeira (era preciso explicar por que é que não reproduzia a realidade, quando, segundo a doutrina positivista de Taine, era necessariamente o produto dela): “Eu, na minha conferência, condenava a arte pela arte, o romantismo, a arte sensual e idealista – e apresentara a ideia de uma restauração literária pela arte moral, pelo realismo, pela arte experimental e racional.”

Mas Eça não era então um intelectual especulativo. Bastavam-lhe temas e pretextos para frases e exemplos. O exemplo que ele dá de arte falsa é o quadro da passagem dos Alpes por Napoleão num cavalo branco, segundo o pintor David; o exemplo do que é arte verdadeira são três quadros de Courbet, que ele, Eça, descrevia com minúcia, eloquência e convicção sem nunca os ter visto. Mas Courbet fora um dos membros em evidência da Comuna. Em literatura o exemplo de “realismo” citado por Eça é a Madame Bovary, de Gustav Flaubert.

Seguiu-se o jovem Francisco Adolfo Coelho, jovem mas já sábio. Depois de ter feito uma profissão de fé hegeliana, atacou o que ele achava ser o fundo da questão: a união da Igreja e do Estado estabelecida na Carta Constitucional, que tornava impossível um “ensino científico”. Considerava que Strauss, autor de um revolucionário livro sobre a vida de Jesus, viria a ter nas ciências humanas um papel equivalente ao de Copérnico na astronomia.

Estava anunciada a conferência seguinte sobre “Os historiadores críticos da vida de Jesus” por um hebreu que diziam ser colaborador de Renan, Salomão Sáragga, mas o público que acorreu encontrou a porta fechada com um papel anunciando o encerramento das conferências por ordem da autoridade.

O procurador geral da Coroa, Martens Ferrão, enviara ao governo um parecer dizendo que as conferências violavam um princípio básico da Carta Constitucional, pois que atacavam a religião do Estado, cuja protecção era garantida pela Carta. Além disso, relacionava as conferências com a Comuna, reiterando o que diziam os jornais católicos. Não se realizaram, por causa deste encerramento administrativo, as conferências já anunciadas, como a de Batalha Reis sobre “o Socialismo, exposição crítica dos diferentes sistemas socialistas, principalmente os de J. P. Proudhon, Karl Marx e Engels” (sic), e outra sobre tema não indicado, por Oliveira Martins, residente na Andaluzia castelhana.

Mais uma vez Antero se ergueu sobre o seu pedestal de herói tribunício e teve ocasião de exercitar o seu talento de polemista. Redigiu o protesto contra a ordem do governo, que é uma obra-prima de polémica, só deslustrada por uma alusão pessoal à filiação paterna de António José de Ávila, que ele pretendia no seu protesto ser uma maquilhagem nobilitante de António José da Vila. Esta alusão era uma leviandade, como um demonstrou um documento autêntico publicado pelo visado. Antero arrependeu-se e mandou uma rectificação para os jornais. Coisas destas aconteciam-lhe.

Utilizando os bons ofícios de José Fontana, gerente da Livraria Bertand (editora de Herculano), que já em 1865 editara um panfleto de Teófilo Braga, Antero obteve também uma carta-protesto de Alexandre Herculano, então retirado em Vale de Lobos. Antero e Oliveira Martins tinham uma veneração filial e uma grande admiração pelo Velho; mas ele viu o problema de maneira inesperada para os jovens socialistas: sem dúvida o governo tinha o dever constitucional de defender a religião. Mas qual religião? Aquela que fora adoptada pelo Estado após a revolução, em 1834. Ora desde aquele ano a religião católica sofrera tais modificações que não podia já considerar-se a mesma, nomeadamente depois do Concílio do Vaticano em 1869, em que foram decretados os dogmas da infalibilidade do Papa e da imaculada conceição da Virgem. Daqui seguia-se que quem tinha violado a Carta Constitucional não tinham sido os jovens das Conferências, mas a Igreja Católica e o governo, obedecendo-lhe. Conclusão recta e lógica, sem dúvida própria do espírito jurídico de Alexandre Herculano, e que, apesar de ser inesperada para alguns dos jovens promotores das Conferências, ia direita ao fundo da questão posta pelo parecer do promotor da Coroa.

Nas semanas seguintes à proibição de Antero, acolitado por Batalha Reis, despendeu uma grande actividade, quer na redacção do protesto, quer na angariação das assinaturas, quer em diligências para levar a questão aos tribunais e provocar a sua discussão no Parlamento. Era como um general em plena campanha.

Ele marchava à frente do público que se juntara diante da porta fechada e, entrando no primeiro café à esquina do Chiado, redigiu um protesto “contra este acto de brutal violência”, protesto subscrito pelos organizadores presentes e ainda por meia dúzia de aderentes. Dias depois acrescentaram as suas assinaturas os restantes organizadores, a que se juntou por telegrama Oliveira Martins, ausente em Santa Eufémia.

Entre estes organizadores que protestavam com atraso figurava Teófilo Braga, que residia no Porto e estava preparando os concursos a que se ia apresentando sucessivamente. Antero assinou por ele e comunicou-lhe: “Usei o seu nome, sem o consultar precisamente para o juntar aos nossos amigos numa adesão ao protesto contra a portaria do Ávila. Fiz isto porque, urgindo que o protesto dos outros conferentes que não estavam em Lisboa aparecesse (visto que já se estranhava essa falta), entendi que de modo nenhum ia contra os seus sentimentos pondo o seu nome entre os de outros amigos. Eu conheço o seu carácter e tenho tal confiança que não hesitei um momento.”

Teófilo não respondeu e não autorizou o uso que Antero fez do seu nome porque não queria comprometer um concurso que preparava. Guardou na sua memória, para a ocasião oportuna, mais esta leviandade de Antero, que, afinal, não conhecia bem o seu conterrâneo e antigo colega. Um era tão leviano quanto o outro era premeditado e cauteloso. Nascidos quase no mesmo ano e na mesma região, formavam entre si um vivo contraste, como uma gaivota e uma tartaruga. Antero era um “coração de pousada”, onde os inquilinos entravam e saíam, onde nada se petrificava, e tudo era espontâneo, o outro, pelo contrário, um coração de pedra, que nada esquecia e nada perdoava.”

(in Tertúlia Ocidental)

 

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