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EÇA DE QUEIRÓS

METAMORFOSES DE UM ESCRITOR

Quando Eça de Queirós era estudante em Coimbra, conheceu os luminares do grupo a que se chamaria a “Geração de 70”: Teófilo Braga e Antero de Quental. O encontro com o primeiro vem narrado nas extraordinárias e comovidas páginas que Eça consagrou a Antero, sob o título “Um génio que era um santo”, e com que colaborou no In Memorian de Antero de Quental, volume organizado pelos seus amigos como resposta ao duro golpe que para eles foi o suicídio do poeta em Ponta Delgada em 1891. Quanto a Teófilo Braga, Eça não descreve a impressão que lhe deixou. Sabemos que participou nos ensaios de um drama histórico em verso composto por Teófilo, que se intitulava Resignação e versava o fim trágico do poeta setecentista Correia Garção na masmorra a que o condenou o Marquês de Pombal. Numa carta supostamente dirigida a um confidente, mas forjada anos depois para ser publicada, Teófilo Braga escrevia: “A figura principal é desempenhada pelo quintanista Eça de Queirós, que tem um grande talento dramático.”

Vários testemunhos que nos chegaram acerca de Eça evidenciam uma grande capacidade mímica da sua parte. Provavelmente o seu papel no drama de Teófilo foi uma das primeiras manifestações do seu talento artístico.

A este talento mímico se refere Jaime Batalha Reis no prefácio que escreveu para as Prosas Bárbaras de Eça de Queirós, crónicas que o autor publicou em folhetins na Gazeta de Portugal. Os títulos são significativos:

  • Notas Marginais
  • Macbeth
  • O Milhafre
  • O Senhor Diabo
  • O Lume
  • Mefistófeles
  • Memórias de uma Forca

Estes textos foram escritos antes da viagem do autor à Palestina, da qual resultou este último folhetim, já com carácter diferente, que se chama A Morte de Jesus e foi publicado na Revolução de Setembro, em 1869. Aqui reflectem-se as influências da viagem ao Próximo Oriente e, ao mesmo tempo, das leituras de Renan. Batalha Reis traça uma imagem viva de Eça em transe, gesticulando e passeando no quarto quando redigia as crónicas para a Gazeta de Portugal.

Esta fase da sua actividade podíamos dizer que é ultra-romântica e experimental. Os adjectivos amontoam-se independentemente de toda a lógica e de qualquer ordenação, de modo a produzir um efeito de irrealidade, como numa alucinação. Dir-se-ia que Eça está experimentando efeitos resultantes dessa mesma acumulação de palavras desencontradas. Percebe-se o escritor à procura de tema e estilo, e há sobretudo uma vontade de escrever que ainda não se definiu.

A metamorfose seguinte é a redacção do Distrito de Évora, jornal político que Eça se encarregou de redigir na totalidade. Ele desdobrava-se em vários colaboradores e em várias secções, desde o simples noticiário até à coluna política de oposição ao governo. Em Évora havia já anteriormente um outro periódico, onde colaborava João de Deus – a Folha do Sul. No Distrito, Eça tenta uma experiência diversa da ensaiada na Gazeta de Portugal: multiplica-se em personagens todas diferentes. Já não há amontoamento de vocábulos: estes têm de ser escolhidos segundo a sua adequação à personagem que escreve. Os temas vão desde a crítica à administração pública até às proclamações declamatórias sobre temas sociais, passando pela crítica literária. O jornal durou aproximadamente um ano. este estilo polémico e doutrinário anuncia as Farpas, de 1871. É a terceira metamorfose artística do escritor à procura de uma forma.

Um acontecimento importante para a história literária de Eça é a viagem ao Médio Oriente para noticiar a inauguração do Canal de Suez, por conta do Diário de Notícias.

Canal de Suez

Canal de Suez 1

Canal de Suez 2

Daqui resultariam, ao longo do resto da vida, várias obras e influências. A primeira ainda pertence à série Notas Marginais: é a “Morte de Jesus”, que aparece um estudo para o último capítulo d’A Relíquia (1888). Esse texto combina as leituras da Vida de Jesus, de Renan, com a evocação das paisagens da Palestina. É o primeiro texto narrativo de Eça, a sua primeira metamorfose romanesca.

A segunda resulta da colaboração com o seu amigo Ramalho Ortigão: O Mistério da Estrada de Sintra. Eça estava colocado em Leiria como administrador do concelho e escrevia capítulos para o romance que planeara com o seu amigo, em Lisboa. Ramalho era um jornalista do Porto, antigo docente no Colégio da Lapa, onde Eça estudara. Escrevera o seu folheto na célebre Questão Coimbrã, em 1865, com uma alusão a Antero que este considerou ofensiva e que provocou um duelo entre os dois escritores. Ramalho não se mostrava favorável ao grupo coimbrão de Antero, mas também não tomara o partido de Castilho. Argumentara com razões éticas e de bom senso. Ramalho sofreu um golpe de espada num braço. Apesar disto, é de supor que Eça o conseguira introduzir na tertúlia de S. Pedro de Alcântara. Possuía dons de observação e de notação objectiva que Eça ainda não exercitara nas Notas Marginais. Empregou-se nos serviços administrativos da Academia de Ciências de Lisboa, onde conheceu Teófilo Braga, que o doutrinou abundantemente em conversas de corredor. Ramalho nunca mais se reconciliou com Antero e escusou-se a colaborar no In Memorian.

Segundo revela a correspondência entre eles trocada, Ramalho foi o mais dedicado amigo de Eça. Era o amigo a quem se noticiavam as viagens e se pediam conselhos em problemas melindrosos ou difíceis, como os que implicavam contratos com editores. Ramalho assume por vezes o papel paternal de moralista e de conselheiro mais experiente. Não há temas filosóficos ou literários nessa correspondência. Tais temas são tratados nos panfletos intitulados As Farpas, comentários da actualidade política e literária. Eça exercitava aí o talento que Oliveira Martins primeiramente observou nele: o de “humorista”. Ramalho acrescentou-lhe o moralismo que desponta nalgumas páginas, bem como o senso comum em nome do qual se condenam “os disparates” da política parlamentar e da literatura romântica. As Farpas são a contribuição mais forte de Eça para a acção desencadeada pelo Cenáculo. O regresso do Oriente coincidiu com a revelação das obras anti-românticas (realistas ou naturalistas) que dominaram a literatura francesa, como a Madame de Bovary, de Flaubert, bem como o ideário positivista na teoria literária de Taine. Estas novas influências vinham acrescentar-se ao socialismo de Proudhon, transmitido por Antero. Eça escreveu a História de Um Lindo Corpo, que leu aos seus companheiros do Cenáculo, e elaborou a sua conferência no Casino “O realismo como nova expressão de arte”. As páginas escritas para As Farpas são a crítica do romantismo.

Nesse ano, Eça assenta na carreira administrativa, ocupando o posto de administrador do concelho de Leiria. Mas, antes de partir, combina com o seu amigo Ramalho, também seu colaborador n’As Farpas, lançar uma obra escandalosa em folhetins no Diário de Notícias de Lisboa; a obra seria redigida a meias pelos dois autores, cada um na sua cidade. O título era intrigante: O Mistério da Estrada de Sintra.

O Mistério da Estrada de Sintra é um romance romântico que, ao crítico João Gaspar Simões, lembrou o Amor de Perdição, de Camilo. Eça continuava exercitando a pena em vários estilos e géneros.

Em Leiria, ainda, nos vagares da burocracia, começou para a Revista Ocidental uma experiência completamente diferente: ensaiando o “realismo”, que propõe em 1871, na sua Conferência do Casino, como “a nova expressão de arte”. Muitos leitores considerariam este romance uma expressão do anti-clericalismo dominante. Mas Gaspar Simões notou com razão que esta paixão entre o padre e a sua “confessada” exprime “o vago sentimento de que no amor existe algo ao mesmo tempo sagrado e pecaminoso”. Este apontamento explica suficientemente a obsessão pelo tema do incesto, que o mesmo Simões pretende atribuir contraditoriamente a razões biográficas. A duplicidade do amor é patente no conto “José Matias”, personagem atraído por Elvira e ao mesmo tempo incapaz de a possuir. É este sentimento profundo do amor em Eça que explica o tema do incesto que inspira Os Maias e A Tragédia da Rua das Flores, muito embora Gaspar Simões o atribua às circunstâncias irregulares em que o romancista foi gerado: em mãe solteira, produto de uma violência exercida pelo pai da criança. Esta explicação é bem típica do positivismo que caracterizou quase sempre o pensamento português e contra o qual reagiram Antero e os seus companheiros, mas a cujo contágio não escapou o próprio Eça ao compor O Primo Basílio – o seu romance de maior sucesso imediato.

O Primo Basílio foi a obra que consagrou Eça de Queirós como cabeça do romance “realista” em Portugal, ideia que permaneceu para a posteridade.

É do prefácio da segunda edição de O Crime do Padre Amaro o dito “sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”, que foi afixado à estátua do escritor no largo Barão de Quintela, próximo da rua das Flores, que serviu de teatro à tragédia aí localizada.

Estátua de Eça

Mas O Primo Basílio é só mais uma metamorfose deste criador em incessante busca de forma definitiva. Quem a fixou para a posteridade não foi o próprio Eça, mas o público português, incapaz de ir além do positivismo. O sucesso instantâneo deste romance revela bem o gosto desse público da segunda metade do século XIX.

Dois anos depois de O Primo Basílio, publicou Eça O Mandarim. É um conto fantástico sem qualquer cuidado de observação ou de verosimilhança, passado na longínqua China, por artes do Diabo. É uma nova e surpreendente encarnação do escritor, diferente de todas as outras, e especialmente da “realista” de O Primo Basílio. É de notar que, nesta, pretendia o autor demorar-se, como o mostra o projecto Cenas da Vida Portuguesa, proposto ao seu editor: uma série de novelas curtas focando flagrantes da nossa sociedade, de que foram publicados postumamente O Conde de Abranhos

e Alves e C.ª.

Nesta série entrava também o projecto de A Capital, cujo manuscrito o Autor não chegou a concluir, bem como o de Os Maias (1888), em dois volumes, a obra-prima do romancista ou, pelos menos, a sua obra mais amadurecida e trabalhada.

Os Maias são, pela técnica estilística, uma obra realista, mas o Autor não se fixou nesta encarnação. Anos depois de O Mandarim, apresentou ao concurso do prémio D. Luís, da Real Academia das Ciências de Lisboa, A Relíquia, que é totalmente destituída de coerência e verosimilhança psicológica, como os críticos contemporâneos já notavam. A tendência do escritor é evadir-se para o sonho e a distância, cuja imagem existia dentro de si como memória de uma viagem à Palestina de 1870. A sua metamorfose caricatural hiperbolizante manifestada n’As Farpas conserva-se nos seus artigos para a imprensa periódica; e as Cartas Inéditas de Fradique Mendes dão ensanchas para exercitar a sua prosa que, ambicionava o Autor, “só por si própria, separada do valor do pensamento, exercesse sobre as almas a acção instável? do absolutamente  belo”.

Os temas eram, por vezes, importantes, como n’A Cidade e as Serras, que anuncia a Ecologia da nossa época, e A Ilustre Casa de Ramires, mas é fácil mostrar que são apenas pretextos para o exercício da prosa.

Na última fase da vida, Eça de Queirós participou no grupo chamado “Vencidos da Vida”, em que entraram os seus companheiros de geração e que teve, embora não oficialmente, o seu órgão na Revista de Portugal, dirigida por Eça a partir de Paris, que publicou alguns importantes estudos de Antero, Oliveira Martins, Alberto Sampaio e outros.

Ressuscitava o grupo romântico de Coimbra em que Eça se formara, mas com sinal contrário. O ultimatum inglês de 1890 exacerbara o nacionalismo inconfessado dos antigos promotores das Conferências do Casino.

(António José Saraiva, Tertúlia Ocidental)

 

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