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– Lisboa de Cesário / Eça

«A Lisboa de Cesário Verde é uma cidade de contrastes.»

Paula Morão, «Cesário Verde e Irene Lisboa: Ver a Cidade», in Viagens na Terra das Palavras Ensaios sobre Literatura Portuguesa, Lisboa, Edições Cosmos, 1993, p. 35


  • no plano urbanístico, entre os espaços modernos (a Baixa pombalina, com o seu traçado geométrico, os magasins, os hotéis da moda, os teatros, os cafés, os bairros da burguesia) e os espaços velhos e degradados (os «boqueirões e becos» da Lisboa ribeirinha, os bairros populares, os arruamentos estreitos e escuros, as tabernas…);
  • no plano social, entre as diversas personagens que habitam a cidade: o labor do povo (os carpinteiros, os calafates, as varinas, os calceteiros, a hortaliceira…) contrasta com a ociosidade dos «lojistas» e das elegantes que procuram o luxo, a «vida fácil» dos burgueses;
  • no plano histórico, entre o presente (a decadente Lisboa oitocentista) e o passado («crónicas navais», «soberbas naus», o «épico doutrora»), que surge em O Sentimento dum Ocidental;
  • no plano dos ciclos do dia, entre a cidade nocturna (descrita, por exemplo, em O Sentimento dum Ocidental) e a cidade diurna, solar e cheia de movimento (retratada, por exemplo, em Num Bairro Moderno);
  • no plano das estações do ano, entre a Lisboa do Verão (Num Bairro Moderno) e a Lisboa do Inverno (Cristalizações).

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“A poesia de Cesário Verde contempla duas vertentes essenciais.”

  • o repórter do quotidiano
  • a oposição cidade / campo

Poeta conhecedor da paisagem urbana como da rural, nelas empenha um percurso físico para as sentir e pensar, tornando-as espaços simbólicos por excelência, como se pode verificar em “Sentimento de um Ocidental”, onde a tensão dialéctica se estabelece entre a vivência numa cidade asfixiante e o consequente desejo de evasão.

Esta lógica entre um conflito latente entre a cidade e o campo pode “funcionar como um modelo global de leitura (da sua poesia), em que a cidade estaria associada à doença, à frustração, asfixia, etc., e o campo à liberdade, à saúde, ao vigor, à infância, etc., – o facto é que, olhando de perto para alguns poemas ditos citadinos, verificamos que também eles se apresentam polvilhados de imagens conotáveis com a natureza e com o campo, como se o sujeito só assim lograsse ampliar os horizontes do seu roteiro urbano e fizesse emergir a cada esquina da “capital maldita”, entre os seus “prédios sepulcrais”, um espaço outro, numa espécie de dilatação perceptiva, absolutamente decisiva para a respiração do seu imaginário”.

Os textos de Cesário Verde buscam um “real” e uma “análise”, tentando fugir a labirintos introspectivos, para se afirmarem como testemunho de uma experiência concreta. “A mim o que me rodeia é o que me preocupa”. no entanto, é a sua “visão de artista” que o demarca da escola realista stricto sensu.

(Fernando Pinto do Amaral (2004), “Prefácio”, Poesia de Cesário Verde, colecção Clássicos lidos por contemporâneos, Lisboa, Texto Editora.)

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