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CESÁRIO VERDE

Período Literário

Literatura Moderna
2º Período: Do Realismo ao Simbolismo
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Biografia

Poeta português, natural de Caneças, Loures, oriundo de uma família burguesa abastada. O pai era lavrador (tinha uma quinta em Linda-a-Pastora) e comerciante (estabelecido com uma loja de ferragens na baixa lisboeta). Foi por essas duas actividades práticas, úteis, de acordo com a visão do mundo do próprio Cesário Verde, que se repartiu a vida do poeta. Paralelamente, ia alimentando o seu gosto pela leitura e pela criação literária, embora longe dos meios literários oficiais com que nunca se deu bem, o que o levou, por exemplo, a abandonar o Curso Superior de Letras da Faculdade de Letras de Lisboa, que frequentou entre 1873 e 1874. Cesário Verde estreou-se, nessa altura, colaborando nos jornais Diário de Notícias, Diário da Tarde, A Tribuna e Renascença. A partir de 1875 produziu alguns dos seus melhores poemas: Num Bairro Moderno (1877), Em Petiz (1878) e O Sentimento dum Ocidental (1880). Este último foi escrito por ocasião do terceiro centenário da morte de Camões e é, ainda hoje, um dos textos mais conhecidos do poeta, embora mal recebido pela crítica de então, numa incompreensão geral mesmo por parte de escritores da Geração de 70, de quem Cesário Verde esperaria aceitação para a sua poesia.

A falta de estímulo da crítica e um certo mal-estar relativamente ao meio literário, expressos, por exemplo, no poema Contrariedades (Março de 1876), fazem com que Cesário Verde deixe de publicar em jornais, surgindo apenas, em 1884, o poema Nós. O binómio cidade-campo surge como tema principal neste longo poema narrativo autobiográfico, onde o poeta evoca a morte de uma irmã ( 1872) e de um irmão (1882), ambos de tuberculose, doença que viria a vitimar igualmente o poeta, apesar das várias tentativas de convalescença numa quinta no Lumiar. Só em 1887 foi organizada, postumamente, por iniciativa do seu amigo Silva Pinto, uma compilação dos seus poemas, a que deu o nome de O Livro de Cesário Verde (à disposição do público em geral apenas em 1901). Dividida em duas secções, Crise Romanesca e Naturais, o livro não seguiu qualquer critério cronológico de elaboração ou de publicação. Entretanto, novas edições vieram acrescentar alguns textos à obra conhecida do poeta e organizá-la segundo critérios mais rigorosos.

Formado dentro dos moldes do realismo e do parnasianismo literários, Cesário Verde afirmou-se sobretudo pela sua oposição ao lirismo tradicional. Em poemas por vezes cínicos ou humorísticos (na linha de A Folha, de João Penha, ou de Baudelaire, de que se reconhece a influência sobretudo no tratamento da temática da cidade, do amor e da mulher) conseguiu manter-se alheio ao peso da «literatura», procurando um tom natural que valorizasse a linguagem do concreto e do coloquial, por vezes até com cariz técnico, marcando um desejo de autenticidade e um amor pelo real, que fez com que a sua poesia enfrentasse, por vezes, a acusação de prosaísmo. Com uma visão extremamente plástica do mundo, deteve-se em deambulações pela cidade ou pelo campo (seus cenários de eleição) transmitindo o que aí era oferecido aos sentidos, em cores, formas e sons, de acordo com a fórmula do próprio poeta, expressa em carta ao seu amigo Silva Pinto: «A mim o que me rodeia é o que me preocupa». Se, por um lado, exaltava os valores viris e vigorosos, saudáveis, da vida do campo e dos seus trabalhadores, sem visões bucólicas, detinha-se, por outro, na cidade, na sedução dos movimentos humanos, da sua vibração, solidarizando-se com as vítimas de injustiças sociais e integrando na sua poesia, por vezes, um desejo de evasão. Conhecido como o poeta da cidade de Lisboa, foi igualmente o poeta da Natureza anti-literária, numa antecipação de Fernando Pessoa/Alberto Caeiro, que considerava Cesário um dos vultos fundamentais da nossa história literária.

Através de processos impressionistas, de grande sugestividade (condensando e combinando, por exemplo, sensações físicas e morais num só elemento), levou a cabo uma renovação ímpar, no século XIX, da estilística poética portuguesa, abrindo caminho ao modernismo e influenciando decisivamente poetas posteriores.

O Portugal de Cesário Verde

No princípio de Julho, começara a debandada dos ricos; ficar em Lisboa era o cúmulo da ignomínia social. Centenas de poemas e folhetins pequeno-burgueses denunciam a miséria, atacam os ricos e troçam dos padres: a 19, às cinco horas da manhã, com os pulmões destruídos pela tuberculose, morreu Cesário Verde. Tinha 31 anos e vira o fim chegar “como um medonho muro”.

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Em 1886, Portugal era um país predominantemente rural. Fora de Lisboa e do Porto, não havia verdadeiramente cidades. A maior parte da população – 8 em cada 10 portugueses – vivia no campo, trabalhando uma terra pouco fértil mal distribuída. A norte do Mondego predominava a pequena propriedade, cultivada por camponeses e rendeiros pobres; a sul, o latifúndio. Ao contrário do que sucedia nalguns países europeus, a maioria dos senhores residia nas cidades, administrando as suas terras por intermédio de feitores; só um punhado de proprietários rurais se interessava o suficiente pelas suas explorações para aí tentar introduzir as inovações que sabia estarem a ser utilizadas no estrangeiro. Mas, num país que dispunha de uma mão-de-obra barata inesgotável, como Portugal, a mecanização raramente foi um êxito. Apesar de, em 1843, na Granja Real de Mafra, terem sido exibidas várias máquinas agrícolas, quarenta anos mais tarde o seu número era extremamente reduzido. Dos três produtos cultivados em grande escala, o trigo, a vinha e o arroz, só com o primeiro era possível utilizá-las. Assim, a maioria dos trabalhos agrícolas continuou a ser feita por trabalhadores rurais, camponeses ou assalariados, com os métodos que os seus pais e avós usavam há séculos.

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Nas cidades, a Civilização penetrou mais facilmente. Depois das tempestades da primeira metade do século, Portugal atravessou um período calmo, durante o qual um grupo de políticos enérgicos se entregou à exaltante tarefa de modernizar o País. Durante alguns anos, a realidade correspondeu às expectativas. A indústria desenvolveu-se: Lisboa especializou-se na estamparia de tecidos e na metalurgia; o Porto, na fiação e tecelagem de algodão. Apesar do esforço do Fontismo no que diz respeito a vias de comunicação, o mercado interno estava longe de se encontrar unificado. Em muitas aldeias, os camponeses continuavam a comer o que produziam e a vestir o que o artesanato local Ihes fornecia, como sempre haviam feito.

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No litoral, as fábricas produziam alguns bens de consumo simples, tecidos, pás e enxadas, tabaco, papel e rolhas. Apenas se exportavam conservas de peixe e cortiça.

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Entre 1850 e 1880, a indústria crescera vagarosamente, mas crescera: em 1850, o total de cavalos-vapor existentes era de 938; em 1880 subira para 7000. No têxtil, cortiças e tabacos, existiam agora fábricas com mais de 500 operários. Infelizmente, Portugal estava suficientemente perto da Europa para que os progressos destes países ensombrececem o que aqui se passava. Em 1881, um membro da comissão do Inquérito Industrial que o Governo mandou efectuar escrevia desencantadamente: “Levam-nos um grande avanço as nações industriais, tocaram quase a meta, quando nós principiámos ainda a caminhar”, e acrescentava “Esforços e energias de que valem, se os passos que nós damos para diante são sempre fartamente compensados por outros mais largos e mais rápidos que eles dão no mesmo sentido?”.

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Na agricultura, as coisas não tinham corrido mal. O Minho exportava quantidades razoáveis de vinho e gado para os ricos mercados europeus; o Sul, laranjas, maçãs, figos, azeite e amêndoas. Mas em meados de 1880, Portugal começou a ter rivais temíveis nos mercados europeus. A exportação de gado ressentiu-se imediatamente, sofrendo o Minho uma severa recessão: nos “leilões dos estrangeiros”, o concorrente consegue vencer-nos “por uma cotação que nos desvia”. O modelo fontista entrava em crise.

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Na indústria também havia problemas: o mercado interno estava a ser invadido por produtos estrangeiros que aqui chegavam a preços baixíssimos. Os velhos pólos artesanais estagnavam. Mesmo as fábricas urbanas se sentiam ameaçadas. Serralheiros e tecelões, caldeireiros e marceneiros apelam ao Governo para que faça qualquer coisa por eles, nomeadamente que dificulte a importação dos produtos estrangeiros; mas ainda teriam de aguardar alguns anos, antes que uma resolução fosse tomada. O relativo liberalismo do Fontismo no que diz respeito ao comércio externo colapsava.

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Mais grave do que tudo isto era a situação das finanças do Estado. Em 1886, o Governo regenerador tentara alterar os impostos, mas defrontou-se com enormes resistências. A braços com um motim declarado entre Braga e Guimarães, devido a rivalidades locais, decidiu não forçar a reforma tributária. Pediu antes ao rei que adiasse as Cortes. Mas este considerou que, ao fim de 5 anos, o governo de Fontes estava “gasto”. Apesar de o ano agrícola ter sido bom, o optimismo da Regeneração desaparecera. Mais ou menos conscientemente, toda a gente se apercebia que o futuro seria negro.

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Em Fevereiro desse ano, o chefe dos progressistas, José Luciano de Castro, era chamado ao poder. Poucas semanas depois, o rei D. Luís dava-lhe o que havia recusado ao seu antecessor, isto é, a dissolução do Parlamento. No Verão de 1886, vivia-se um daqueles intervalos ditatoriais que atravessaram a vida do constitucionalismo monárquico. (…)

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Fontes Pereira de Melo foi muito criticado por ter corrompido tudo e todos. Enquanto as libras foram chegando, tudo correra de feição. Mas os banqueiros estrangeiros tinham-lhe fechado as portas. O cenário mudava.

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De facto, assistia-se ao começo de uma grave crise, que atingiria o seu máximo em 1891. O clima de tolerância em que os Portugueses tinham vivido nas últimas décadas iria desaparecer. Ouviam-se já os gritos de “Vida Nova”, os apelos autoritários que com a subida de D. Carlos ao trono atroariam os ares. Um dia viria, em que os “povos humilhados” se levantariam, de punhais aguçados, para derrubar uma monarquia odiada.

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Em 1886, Lisboa era uma cidade muito diferente do que tinha sido trinta anos antes. A sua população, trezentos mil habitantes, tinha dobrado. Do campo, haviam chegado milhares, os homens primeiro, para trabalhar como estivadores ou pedreiros, a família depois. Em parte devido à pressão dos recém-chegados, em parte porque o alargamento dos limites urbanos era uma forma de obter novas receitas para o Estado, a cidade alastrava. Ao lado de uma indústria incipiente, visível sobretudo para os lados de Xabregas e Alcatra, a cintura saloia espraiava-se por todo o lado, Mafra, Benfica, Lumiar.

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Os laços ao campo permaneciam fortes. A infância rural deixava saudades que não desapareciam facilmente. Com os seus espaços apertados e o tempo normalizado, a cidade parecia asfixiante aos novos habitantes. Não surpreende pois que, nos quentes dias de Verão, o povo deixasse a capital, com cestos repletos de talhadas de melão, damascos e pão-de-ló, a caminho das hortas. Para os que ficavam, havia os bailes “campestres” sob as parreirinhas dos cafés e das sociedades recreativas, além da música ao ar livre nos coretos pintados de fresco. No dia 18 de Julho de 1886, um domingo, não faltavam distracções. No Beco das Olarias, o “baile campestre” era acompanhado por uma banda tocando um “variadíssimo reportório”; na sociedade Recreio Operário, na Rua dos Remédios à Lapa, a banda “abrilhantava” o baile proletário; na Nova Rossini, na Rua do Sol ao Rato, entre o bazar e o lanche, a filarmónica dos “Alunos de Guilherme Cossoul” deliciava os ouvintes pequeno-burgueses. Nos Jardins da Estrela, de S. Pedro de Alcântara e no Largo de Belém, entre as 5 e as 7 da tarde, os domingueiros podiam ouvir belos concertos ao ar livre. De entre as solicitações do dia, a mais popular era certamente a tourada que, nessa tarde, se realizaria no Campo Santana, e na qual tomavam parte os irmãos Roberto e o conhecido cavaleiro Alfredo Tinoco. Os espectáculos nocturnos também eram aliciantes. Na Esplanada dos Recreios, poder-se-ia ver um bruxo que fazia truques de prestidigitação ou, no Teatro Chalet, a peça “O Duque de Vizela”.

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Em 1886, já tinham sido introduzidas em Lisboa algumas das inovações que facilitavam a vida urbana: em 1848, tinham aparecido os primeiros candeeiros a gás e, em 1878, haviam sido instalados, no Chiado, seis candeeiros eléctricos. Não se pense contudo que esses melhoramentos se propagaram rapidamente. Grande parte das ruas da cidade eram de terra, mal cheirosas e escuras. A muitas das suas vielas e escadinhas, a civilização não chegara. A 18 de Julho, um grupo de habitantes de Alfama pedia insistentemente à Câmara de Lisboa que mandasse regar as ruas do bairro, pois o vento estava a levantar enormes ondas de poeira, que invadiam casas e lojas.

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Nos bairros antigos, a higiene era deplorável. Com traseiras, pátios e quintais apinhados de galinhas, coelhos e porcos, as casas estavam infestadas de parasitas. Apesar de a recente captação do rio Alviela ter permitido instalar uma rede de distribuição de água ao domicilio, o benefício chegava a poucas casas. Nos mercados, as condições sanitárias eram péssimas, fazendo com que muitos dos géneros consumidos pelas classes populares estivessem estragados. Os fiscais tentavam pôr cobro à situação, mas não chegavam para as encomendas. No mercado central, a 17 de Julho, tinham sido inutilizadas, como impróprias para consumo, 81 pescadas, 76 peixes-espadas e 1200 carapaus: era uma gota no oceano.

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Com os seus pregões e cheiros, gritos e correrias, a vida nestes bairros era animada. Até certo ponto, o bairro reproduzia a aldeia originária, com as suas redes de lealdades e rivalidades. Muita gente nascia e morria ali, sem ter saído dos seus limites estreitos: era ali que trabalhava, namorava e se zangava. Como em todos os universos fechados, as brigas eram frequentes, assumindo por vezes um carácter violento. A 18 de Julho, um casal da Mouraria fora atacado, na cama, por uma vizinha que brandindo um garfo os feriu de tal forma que tiveram de ser conduzidos ao Hospital de S. José. Um pouco acima, António Martins socava barbaramente a sua amante Maria Engrácia; noutro ponto da cidade, o padeiro José Dias da Silva era preso por arremessar à amante, Ana de Jesus, uma bilha que Ihe despedaçou a cara. Certas zonas da cidade, depois do sol posto, Alfama, a Mouraria ou o Bairro Alto, eram particularmente perigosas. O policiamento era ineficaz. Só os criminosos mais azarentos, como o Bexiga, acabavam presos. O povo de Lisboa era uma amálgama muito particular. Juntava gente variada, do operário fabril ao descarregador, da criada ao artesão, do pequeno funcionário ao caixeiro. Formavam a massa dos “pequenos”, da “ralé”, da “canalha”, que ganhava o pão com o suor do seu rosto. Se entre o pequeno lojista e o operário havia um mundo de diferenças, estas tendiam a esbater-se quando os poderosos entravam em cena. Era contra os da “alta” que os “pequenos” se definiam.

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Cidade portuária, a zona ribeirinha era uma das mais activas de Lisboa. Pelas docas de Alcântara, Ihe chegava o carvão que consumia nas suas fábricas; pela de Santos, as mercadorias coloniais; pela do Cais do Sodré, os melões e o vinho de Almeirim, o trigo do Alentejo, as melancias de Setúbal, o peixe que abastecia a cidade. Fragateiros, varinas e descarregadores povoavam este cenário luminoso e febril. Todos os dias atracavam grandes transatlânticos, despejando mercadorias. No sábado, o movimento da alfandega fora, como de costume, intenso: para o Maranhão, seguira, no Bragança, um carregamento de feijão; para Hamburgo, no Davis, 171 fardos de cortiça; para Liverpool, no Ter, 147 caixas de maçãs, 630 caixas de cebolas e 17 caixas de tomates; para Bordeaux, no Mokla, 226 caixas de sardinhas. De Newcastle, a bordo do Catarino Richard, chegara um carregamento de carvão.

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Os contrastes entre ricos e pobres eram enormes. É verdade que os milionários portugueses eram patéticos quando comparados com os seus parceiros europeus, mas em face da miséria indígena qualquer ser com o mínimo de sensibilidade se chocaria. No centro da cidade, entre portais e vãos de escada, amontoavam-se cegos, estropiados, crianças abandonadas e velhos paralíticos. Para muitos, os pobres faziam parte da ordem do Universo e a injustiça social de que eram vítimas era tão natural como o facto de um sobreiro não ter nascido um pinheiro, como mais tarde escreveria Fernando Pessoa. Os miseráveis eram objectos que Deus colocara no caminho dos ricos para que estes pudessem exercer a caridade, nas festas e nos bazares variados, como o que, na véspera, tivera lugar no passeio da Estrela, durante o qual as senhoras da Lapa leiloaram entre si os despojos oferecidos.

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Mas não havia caridade que bastasse para este caudal imenso de costureiras pálidas e tísicas, artesãos desempregados de olhar rebelde, vendedeiras esmagadas pelo peso da carga, velhas abandonadas que falavam sozinhas, coxos, cegos e manetas. Nesse Verão de 1886, os albergues nocturnos abarrotavam de gente suja e esfarrapada que, aos milhares, ali ia em busca de uma sopa e de uma enxerga. Os jornais transmitem os gritos dos que viviam aflições: a Assunção da Glória, viúva, moradora na Trav. de S. João de Deus apelava ao público para que Ihe desse qualquer coisinha, pois não tinha família que Ihe valesse; a Amália Vidal, moradora na Rua da Mouraria, pedia a uma alma caridosa que Ihe pagasse o quarto escuro donde estava em risco de ser despejada. Havia outros recursos, mas eram mais arriscados. Nesse dia, o marítimo José Maria fora preso, por ter roubado dois gorazes do mercado da 24 de Julho.

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Os trabalhadores ganhavam salários irrisórios e estavam sempre à beira do desemprego. Alimentavam-se, ano após ano, a pão, sopa e batatas, uma ementa insuficiente que ajuda a explicar as altíssimas taxas de mortalidade de Lisboa e do Porto. As doenças que mais mortes causavam eram a tuberculose pulmonar e as pneumonias. Havia quem não aguentasse esperar: Luísa, criada de servir, atirava-se, na tarde de 18 de Julho, de um terceiro andar na Rua do Oiro para a rua após ter sido despedida; o cozinheiro Cândido da Silva lançava-se ao Tejo.

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As condições de trabalho eram atrozes: a duração do dia de trabalho era longuíssima e a segurança nas oficinas inexistente. Todos os dias se verificavam acidentes: fiandeiras que ficavam sem dedos, pedreiros que caíam de andaimes, vidreiros que arruinavam os pulmões, mineiros que ficavam soterrados. A 18 de Julho, quando trabalhava na construção de uma linha de caminho-de-ferro, Sebastião Pereira, de 30 anos, fora subitamente esmagado por um penedo que se soltara, enquanto Manuel do Ó caia de uma tábua durante um descarregamento no cais. Perante este espectáculo, até os mais acérrimos defensores do liberalismo foram forçados a vergar. A ideia de que o Estado tinha de intervir para proteger os mais fracos foi-se espalhando.

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O nível cultural da população era baixíssimo: oito em cada dez portugueses não sabia ler nem escrever, situação que na Europa só encontrava paralelo nos mais remotos cantos do Império Austro-Húngaro. Apesar da retórica, o regime não tinha sido capaz de melhorar a instrução do povo. Apenas em Lisboa e no Porto se tinham verificado alguns progressos, mas mesmo esses eram ridículos. Nas cidades, organizados pelos operários e pelos republicanos, alguns organismos faziam esforços louváveis para educar as massas, mas a tarefa era grande de mais para os seus fracos recursos. Muitas vezes, a actividade destas associações limitava-se a conferências doutrinárias, como a que, nesse domingo, Manuel de Arriaga, proferia na Associação Escolar e Eleitoral de Sacavém.

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No meio de todas estas desgraças, os ricos gozavam imperturbavelmente os frutos da terra. Os contratos com o Estado, as grandes companhias monopolistas, os “negócios” tinham gerado os famosos “barões” da Regeneração, os “novos ricos” de quem surdamente toda a gente sentia inveja. Existia também uma camada de burgueses com tradições, ricos e cultos, muitos deles estrangeirados, de entre os quais se destacava o conde de Daupias, dono da fábrica de lanifícios que o seu avô Ratton fundara em 1839, ao Calvário. No seu belo palacete, mesmo ao lado da fábrica, Daupias mantinha um salão permanentemente aberto, em que os seus amigos, alguns pertencentes à melhor nobreza do Reino, se reuniam para ouvir bons concertos e para se deliciar com os jantares que o cozinheiro francês Ihes preparava. Acima deles, havia uma velha aristocracia “caquética e caturra”, como Eça de Queirós Ihe chamava, ciosa dos seus pergaminhos, mas minada nos seus fundamentos pela abolição dos morgadios. Estes aristocratas levavam geralmente uma vida recatada, apenas entrecortada por bailes diplomáticos ou recepções no Paço. Viviam em palácios decrépitos, paredes meias com os pobres que, em momentos de magnanimidade, gostavam de proteger.

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À volta do rei, uma pequena corte de amigos e dependentes partilhava rotinas e hábitos. No Verão, seguiam para Sintra, Cascais ou Mafra. A família real passara essa semana de Julho, em Sintra. Depois de ter ouvido a missa dominical na capela real, durante a qual se tocara a polka que o mestre de música de Caçadores 2 compusera em honra da recém-chegada noiva do príncipe herdeiro, decidira partir para Mafra: estavam todos ansiosos pela caçada planeada para o dia seguinte na Real Tapada, durante a qual a princesa D. Amélia de Orléans se destacaria, ao matar três dos nove veados nesse dia abatidos.

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O centro de todo este mundo era o S. Carlos. Era aqui que os ricos faziam os seus casamentos, conspiravam, mostravam as toilettes vindas de Paris. Além deste convívio familiar, havia o recém-fundado clube, O Turf, onde os homens iam jogar e discutir política. Mas nesse domingo de Verão, ambos estavam desertos: o S. Carlos fechara as suas portas por alguns meses e os membros do Turf estavam quase todos fora da capital.

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No princípio de Julho começara a debandada dos ricos: ficar em Lisboa era o cúmulo da ignomínia social. Os mais invejados eram os que partiam para o estrangeiro. A 18 de Julho, o movimento dos carros de aluguer era intenso nas estações de caminho-de-ferro, levando e trazendo os que chegavam, de “Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!”. De umas curtas férias em Vichy, chegara o “abastado capitalista” Policarpo dos Anjos, director da Associação Comercial de Lisboa, com a sua esposa e sogra; o primeiro-ministro, José Luciano, viera de Sintra, onde fora descansar, com a mulher e as filhas, durante uns dias; os condes de Casal Ribeiro regressavam da sua quinta em Braga. Outros partiam, felizes: o príncipe D. Afonso embarcava no paquete Araucária, a caminho de Bordéus; a rainha D. Maria Pia preparava-se para ir passar uma temporada às Caldas. O conselheiro Martens Ferrão trocava a sua casa na capital pela sua quinta no Poço do Bispo. O conhecido banqueiro H. Moser partia para Paris. Até os republicanos repousavam dos seus afazeres revolucionários: Teófilo Braga partia para o Minho, enquanto o “dedicado correligionário” Miguel Braga passava uns tempos em Vizela. O interesse por toda esta movimentação estival era tal que nas Novidades existia mesmo uma coluna, “Praias e Caldas”, onde se forneciam ao leitor listas nominais de quem chegava e partia.

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Os pequeno-burgueses ficavam-se por Linda-a-Pastora, Belas ou Caneças, sítios aprazíveis, de belas quintas muradas e aldeias lavadas, com bons ares, boa luz, bons alimentos. Quem não alugaria a casa que a 18 de Julho o Diário Popular anunciava: “Aluga-se fora de portas, mas próximo de Arroios, sitio saudável, tem água da Companhia, excelente escada, 9 compartimentos, muito limpos e espaçosos, incluindo despensa e quarto para criado, passam-lhe à porta de 1/2 em 1/2 hora carros Riped e outros. Renda até ao fim do ano: 50.000$00″?

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Entalados entre os ricos e os pobres, estes pequeno-burgueses dividiam-se nos seus hábitos, comportamentos políticos e cultura. Os mais ambiciosos tentavam imitar o estilo de vida aristocrático, enquanto as camadas inferiores, que não podiam acalentar tais ambições, se consumiam num ressentimento social que aumentava com a crise económica e com a prolongada marginalização. Em 1886, muitos estavam já descrentes de que o regime monárquico Ihes desse o que pretendiam: consideração social e participação politica. Alguns começaram a aderir ao movimento republicano que exprimia maravilhosamente o seu ódio aos privilégios sociais.

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Os jornais populares espelham a sua visão do mundo. O contraste entre a vida dos ricos e dos pobres é celebrado até à exaustão: de um lado, a família burguesa, envolta em seda e arminhos; do outro, a pobre, tiritando de frio e fome. Centenas de poemas e folhetins pequeno-burgueses denunciam a miséria, atacam os ricos e troçam dos padres: é o grande fresco dos humilhados e ofendidos, a retórica lacrimejante tão apreciada em reuniões populares. Os títulos destes poemas, “Contrastes”, “A Miséria”, “A Prostituta”, “O Desgraçado”, são indicativos do conteúdo. Cesário Verde faz parte desta tradição: o que distingue é o génio.

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A influência da Igreja na sociedade portuguesa era considerável, o que inevitavelmente fez dela um dos alvos preferidos dos republicanos. Nos campos, os párocos controlavam os grandes rituais da vida, além de servirem de intermediários entre os camponeses e o poder. Em Lisboa, a Igreja defrontava-se com obstáculos crescentes. Para os trabalhadores e para as classes médias, era evidente que a Igreja estava do lado dos ricos. Não existindo, como nos países protestantes, possibilidade de se criarem novas igrejas, a única saída que Ihes restava era o livre-pensamento. A capital passou a estar dividida entre uma maioria que aceitava passivamente a doutrina da Igreja e uma minoria activa que defendia as novas ideias contra tudo e todos.

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Nesse domingo de Julho, os católicos tinham uma escolha variada: na Igreja de S. José, como em tantas outras, havia primeira comunhão de meninos, seguida de missa, durante a qual pregaria o Rev. Gaspar Borges; pelas 6 h. da tarde um Te Deum com o Rev. Duarte do Rosário. Na Igreja dos Anjos, realizava-se a novena ao Coração de Jesus e, nas Chagas, ensino de doutrina, ladainha e benção. Alguns resistiam heroicamente a estas influências: em tribunal, o caldeireiro de ferro, Paulo Rodrigues do Amaral, recusara-se, na antevéspera, a prestar juramento sobre os Evangelhos, alegando que era ateu. Por seu lado, a “Associação Antijesuítica” andava muito atarefada com o seu projecto de criação de um colégio de meninas que Ihes ministrasse os conhecimentos necessários para as colocar “ao abrigo das tentações e seduções jesuíticas”. Para salientar bem que o perigo era real, noutra página, O Século noticiava o rapto da bela sobrinha do prior de Belas, misteriosamente desaparecida de madrugada, depois de ter deixado ao namorado uma nota angustiada: na povoação, claro, toda a gente atribuía a façanha aos Jesuítas.

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Quem, a 19 de Julho de 1886, abrisse, de manhã, a janela, perceberia que o dia iria estar quente. No Norte trovejara, mas nos arrabaldes da capital, entre as ribeiras e os montes, o clima estava ameno. Nos pomares, cantavam os pintarroxos, nos prados as vacas leiteiras pastavam pachorrentamente e, entre pedregulhos luzidios, as mulheres saloias preparavam-se para lavar as últimas peças de roupa que, no dia seguinte, teriam de entregar nas casas ricas da capital. Famílias aperaltadas partiam para a missa dominical. 0 silêncio era apenas entrecortado pelas chocas da manada e pelos carros de bois que desciam do outeiro. Foi no meio deste esplendor que, às 5 h da manhã, com os pulmões destruídos pela tuberculose, “sem querer, aflito e atónito”, morreu José Joaquim Cesário Verde. Tinha 31 anos e vira chegar o fim “como um medonho muro”.

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(Maria Filomena  Mónica, in Revista Prelo, nº 12, 1986)

 

2 responses to “CESÁRIO VERDE

  1. ROBERTA MACHADO

    Março 31, 2010 at 11:52 am

    Parabéns pela matéria!
    Simplesmente amei. É o que eu precisava para enriquecer o meu trabalho de conclusão de curso.

     

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