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Metáfora de um País

28 Maio

*

“— Quer alguma coisa da Baixa, de Babilónia? — perguntava Carlos, abotoando à pressa as suas luvas de governar.

— Bom dia de trabalho.

— Pouco provável…

E no dog-cart, com aquela linda égua, a Tunante, ou no faetonte com que maravilhava Lisboa, Carlos lá partia em grande estilo para a Baixa, para «o trabalho».

O seu gabinete, no consultório, dormia numa paz tépida entre os espessos veludos escuros, na penumbra que faziam os estores de seda verde corridos. Na sala, porém, as três janelas abertas bebiam à farta a luz; tudo ali parecia festivo; as poltronas em torno da jardineira estendiam os seus braços, amáveis e convidativos; o teclado branco do piano ria e esperava, tendo abertas por cima as Canções de Gounod; mas não aparecia jamais um doente. E Carlos — exactamente como o criado que, na ociosidade da antecâmara, dormitava sob o Diário de Notícias, acaçapado na banqueta — acendia um cigarro «Laferme», tomava uma revista, e estendia-se no divã. A prosa, porém, dos artigos estava como embebida do tédio moroso do gabinete: bem depressa bocejava, deixava cair o volume.

Do Rossio, o ruído das carroças, os gritos errantes de pregões, o rolar dos americanos, subiam, numa vibração mais clara, por aquele ar fino de Novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul-ferrete, vinha dourar as fachadas enxovalhadas, as copas mesquinhas das árvores do município, a gente vadiando pelos bancos: e essa sussurração lenta de cidade preguiçosa, esse ar aveludado de clima rico, pareciam ir penetrando pouco a pouco naquele abafado gabinete e resvalando pelos veludos pesados, pelo verniz dos móveis, envolver Carlos numa indolência e numa dormência… Com a cabeça na almofada, fumando, ali ficava, nessa quietação de sesta, num cismar que se ia desprendendo, vago e ténue, como o ténue e leve fumo que se eleva de uma braseira meio apagada; até que, com um esforço, sacudia este torpor, passeava na sala, abria aqui e além pelas estantes um livro, tocava no piano dois compassos de valsa, espreguiçava-se — e, com os olhos nas flores do tapete, terminava por decidir que aquelas duas horas de consultório eram estúpidas!

— Está aí o carro? — ia perguntar ao criado.

Acendia bem depressa outro charuto, calçava as luvas, descia, bebia um largo sorvo de luz e ar, tomava as guias e largava, murmurando consigo:

— Dia perdido!”

(Eça de Queirós, Os Maias)

A Baixa Pombalina é uma boa metáfora para o país

“A Baixa é um sítio de claridade e de escuridão. A totalidade iluminista não deixa de ter as suas infiltrações;  são as brechas por onde entra a luz. Por isso faz sentido que Fernando Pessoa seja o seu patrono, pairando como um fantasma, que sempre foi sendo. A Baixa e Pessoa são feitos das mesma matéria; o monumento ao poeta estava projetado ainda antes de este existir.

Mas está em curso uma despoetização radical da Baixa. Passando na Rua Augusta, mesmo na diagonal, somos arrastados pelo turismo pombalino: uma multidão infernal que avança implacável de confeitaria em confeitaria até ao Estaleiro do Paço. A doçaria é objeto principal do parque temático. A animação está a cargo do Homem Metralhadora; do Faquir; do Homem que Cantava Salmos (já não o vemos há algumas semanas); do Mozart Encaixado de Prata; da Mulher do Violoncelo; dos Homens Sem-Abrigo (a partir do final do dia).

É tudo low-cost e o reboco que estala na maior parte dos edifícios é a custo nenhum. Há ainda remanescentes casas comerciais que ou têm patine e alguma viabilidade ou vão desaparecer; instituições como o museu do Design e da Moda que apontam uma direção; algum novo comércio que não é genérico; ateliês que se vão instalando; paquistaneses com supermercados abertos até à meia-noite. Mas às 20 h, como qualquer estância balnear – no inverno -, a Baixa fecha.

O turismo não é mau. O que é mau é o imaginário da Baixa estar a ser colonizado por uma urbanidade rasteira. É a ausência de expetativas. Se os estudos sobre a história pombalina são cada vez mais elaborados, o duturo que se prevê é cada vez mais simplista.

A Baixa Pombalina é uma boa metáfora para o país: passado histórico, futuro low-cost, sem objetivo ou desejo para lá do turismo do dia a dia. Deve ser por isso que as estações debitam as estatísticas da crise sobre incessantes imagens da Rua Augusta.

A tematização da Baixa para um turismo da doçaria e de animação de rua é uma traição em relação à sua matriz e aura poéticas. Porque é um sítio especial, vibrante e arrumado como as várias cabeças pessoanas , custa que seja o sítio por onde os turistas passam a caminho de Lisboa.”

(Jorge Figueira, “O Turismo Pombalino”, in Público, Maio, 2012)

*

“— Que diabo estás tu a olhar?
Era o consultório, o antigo consultório de Carlos — onde agora, pela tabuleta, parecia existir um pequeno atelier de modista. Então bruscamente os dois amigos recaíram nas recordações do passado. Que estúpidas horas Carlos ali arrastara, com a Revista dos Dois Mundos, na espera vã dos doentes, cheio ainda de fé nas alegrias do trabalho!…”

(Eça de Queirós, Os Maias 

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