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Quantas vidas no Hotel Central?

15 Mar

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“Quando, há uns tempos, a Ana Sousa me disse que tinha mudado o seu cabeleireiro para o Cais do Sodré, eu, que não sei cortar o cabelo com mais ninguém, lá fui à procura do sítio. ‘É no antigo Hotel Central, o d’Os Maias’, tinha dito a Ana.

A primeira vez que lá entrei pensei que, em algum canto, iria encontrar qualquer coisa que fizesse lembrar o que tinha sido o Hotel Central – ostras e champanhe para João da Ega homenagear Cohen –  e aqui discutiram literatura e “como o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.’

Onde seriam os gabinetes com divãs de marroquim onde se serviam os jantares? Há portas e degraus que levam a mais portas, que levam não sabemos onde. Passamos por uma escola de condução, uma agência de viagens, uma agência de serviços marítimos. Placas indicam uma escola de mergulho e um centro de terapias alternativas.

No quarto andar há um mapa-mundo colado no exterior da caixa do elevador. As janelas são redondas, parecem escotilhas de navio, como se fôssemos no alto-mar, mas quando espreitamos para baixo o que vemos é o rio (desapareceu há muito a ponte dos vapores, sobre estacas), a estátua do Duque da Terceira onde em tempos esteve um relógio de sol, e a estação de combóios.

Junto a uma das janelas de escotilha está um antigo cabide de madeira de pé alto, onde alguém pendurou uns binóculos. Nas fotos antigas, a fachada pintada de uma cor forte era atravessada pelas letras que anunciavam Grande Hotel Central. Terá sido um dos melhores de Lisboa, até ao encerramento, em 1919.

Por aqui passou gente famosa. Não ficou muito dessa história, mas sabe-se pelos relatos dos jornais que, em 1878, Júlio Verne passou por duas vezes no Central durante uma estadia em Lisboa, uma delas com Pinheiro Chagas, Ramalho Ortigão, Rafael Bordalo Pinheiro.

Foi à porta do Hotel Central, que, n’Os Maias, Carlos Eduardo viu pela primeira vez Maria Eduarda, ‘uma senhora alta, loura, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carnação ebúrnea’, e que passou deixando ‘um reflexo de cabelos de ouro e um aroma no ar’.

Sigo pelos corredores a Ana que, como a Maria Eduarda, tem o cabelo louro. Mas tem também uma tatuagem no braço e uns ténis com asinhas.

No seu cabeleireiro há cãezinhos de porcelana e posters antigos encontrados na rua, há imagens de Marilyn e um retrato de Ana vestida de cortesã (será Maria Antonieta?), havia um passarinho amarelo sobrevivente de um cancro mas que entretanto morreu, e agora há um gato preto e branco.

Aqui, conta-me ela, antes do Hotel Central foi o Hotel da Madame Lengler. Terá sido pelo ano de 1849. ‘E sabes que ela tinha um cabeleireiro? E que morava aqui, no terceiro andar?’ E, entre Marilyn, Maria Antonieta, o passarinho desaparecido, o aroma que Maria Eduarda um dia deixou no ar, Júlio Verne e a memória das ostras e do champanhe do jantar do Cohen, entre tesouras, secadores e as lacas, ficamos a imaginar Madame Lengler a gerir um hotel e um salão de cabeleireiro, junto ao Tejo, em meados do século XIX. Quantas vidas no Hotel Central?”

(Alexandra Prado Coelho, “Crónica Urbana” in O Público, Domingo 11 de Março de 2012)

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Publicado por em Março 15, 2012 em Os Maias

 

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