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“Palavra e Utopia, de Manuel de Oliveira, é uma produção de grandes dimensões, com rodagem em quatro países de dois continentes, ambicionando fazer conjugação com a actualidade (o 5º centenário da viagem de Pedro Álvares Cabral, comemorativamente exaltado através do mais ilustre dos luso-brasileiros, António Vieira) e convocando-nos em simultâneo, para uma celebração íntima e para o recolhimento da rate da escuta. A palavra de Vieira ressoa, barroca e inteligente, como nunca em nosso tempo foi ouvida.
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Talvez por isso, mais que em outros momentos da obra deste realizador, os actores ganhem capital importância, em especial Ricardo Trepa, Luís Miguel Cintra e Lima Duarte, os três escolhidos para interpretar o protagonista nas três idades da sua vida adulta. E se Trepa não se desembaraça do empenho a contento, havendo que dar graças pela brevidade da sua presença no ecrã, quer Luís Cintra quer Lima Duarte cumprem com méritos o cometimento, embora se deva lamentar a assintonia de tom entre ambos: Cintra mais enunciador e nada psicológico, na melhor tradição do cinema de Oliveira, Lima Duarte a deixar que o naturalismo tome conta da sua interpretação.
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Quando à encenação, porque o filme retorna ao primado da palavra, muito relevante em certa vertente de Oliveira, ela faz-se quase sempre em planos longos, minuciosamente enquadrados e às vezes de particulares ressonâncias. Já muito perto do termo há, por exemplo, um plano abissal. É aquele em que Vieira vai fazer um dos seus sermões e falar das quatro idades do homem, subindo as escadas de um púlpito. O realizador utiliza um dos mais inusitados pontos de vista, em contrapicado, enquadrando detrás e mantendo esse lugar durante boa parte da pregação. a imagem é de costas de um homem enquadrado por um rectângulo e olhada do fundo de um poço negro. Oliveira filma Vieira como se o enquadrasse da tumba de onde a personagem se erguesse mas onde já pertencia. O plano, porque criado por um homem de 92 anos, é profundamente perturbador.
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Embora Palavra e Utopia seja uma obra em que, mais que tudo, se põe em pedestal e gloriosa visibilidade a palavra de António Vieira como “imperador da língua portuguesa”, como lhe chamou Fernando Pessoa, embora nele se trace um percurso biográfico e ideológico em que estão presente os grandes combates de jesuíta, algum do seu visionamento e um pouco da sua tortuosidade política, não é possível não sentir um penetrante estremecimento ao ver o cineasta enfrentar a questão da morte. Agora já não com o cruel e borboletear que a si mesmo consentia no magnífico Viagem ao Princípio do Mundo, antes uma gravidade serena que não consente escapatórias. Mas sem angústias. Afinal – e de novo – a um evidente processo de identificação entre Vieira e o cineasta que é legítimo ler em múltiplas passagens do filme contrapõe-se, outra vez, a física e vívida presença de Oliveira, em pessoa, zelando pelas suas personagens. Em Palavra e Utopia apresenta-se mensageiro de reparadora missiva, no exacto momento em que Vieira expira.
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Acho que a este filme se pode aplicar o paradoxo do riso e do choro atribuído a eméritos filósofos gregos e que serve de base ao debate que Vieira trava em Roma, a mote da rainha Cristina da Suécia (ainda uma vez a musa Leonor Silveira). Até porque o proverbial humor de Oliveira parece quase em absoluto quedo. Mas, tal como Vieira sustentando o ponto de vista do choro como o único que prova o uso da razão face à realidade do mundo (mas usando de ironia, logo de riso, na sua argumentação) e também na finura caricatural como encena majestades e potestades, a gravidade de Palavra e Utopia surge matizada por uma corrente de energia positiva que não suporta desalentos. A beleza sólida da fita é matéria de vida.
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Como é matéria de vida a aproximação que Oliveira faz a Vieira, sublinhando-lhe algum desgosto por o reconhecimento pátrio não acompanhar o reconhecimento internacional. Mesmo se, desde há algum tempo, Oliveira se poderá queixar menos que Vieira, Palavra e Utopia é muito claro face às estátuas de ingratidão que muitas vezes se ergueram diante do realizador. É de querer que Manuel de Oliveira tome como seu aquele lema de uma carta de Vieira em que o padre se orgulha de “servir aos futuros, pagar aos passados e não dever nada aos presentes”. No que terá inteira justeza.”
(Jorge Leitão Ramos, in Expresso, Novembro, 2000)

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