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“Na manhã seguinte, às oito horas pontualmente, Carlos parava o break na Rua das Flores, diante do conhecido portão da casa do Cruges. Mas o trintanário, que ele mandara acima bater à campainha do terceiro andar, desceu com a estranha nova de que o Sr. Cruges já não morava ali. Onde diabo morava então o Sr. Cruges? A criada dissera que o Sr. Cruges vivia agora na Rua de S. Francisco, quatro portas adiante do Grémio.
Durante um momento, Carlos, desesperado, pensou em partir só para Sintra. Depois lá largou para a Rua de S. Francisco, amaldiçoando o maestro, que mudara de casa sem avisar, sempre vago, sempre tenebroso!… E era em tudo assim, Carlos nada sabia do seu passado, do seu interior, das suas afeições, dos seus hábitos.”
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“Ao portão da Rua de S. Francisco, Carlos teve de esperar um quarto de hora. Primeiro apareceu furtivamente ao fundo da escada uma criada em cabelo, que espreitou o break, os criados de farda, e fugiu pelos degraus acima. Depois veio um criado em mangas de camisa trazer a maleta do senhor e um xale-manta. Enfim, o maestro desceu, a correr, quase aos trambolhões, com um cache-nez de seda na mão, o guarda-chuva debaixo do braço, abotoando atarantadamente o paletó.”
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“Daí a pouco, a trote largo no faetonte, Carlos descia o Chiado, dava a volta para a Rua de S. Francisco. Ia numa perturbação deliciosa e singular, com aquela certeza de que ela estava só na casa do Cruges: o último olhar que ela lhe dera parecia ir adiante dele, chamando- o: e um despertar tumultuoso de esperanças sem nome atirava- lhe a alma para o azul.”
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“Na manhã seguinte, Carlos, que se erguera cedo, veio a pé do Ramalhete até à Rua de S. Francisco, a casa de Madame Gomes. No patamar, onde morria em penumbra a luz distante da clarabóia, uma velha de lenço na cabeça, encolhida num xalezinho preto, esperava, sentada melancolicamente ao canto do banco de palhinha. A porta aberta mostrava uma parede feia de corredor forrada de papel amarelo. Dentro um relógio ronceiro estava batendo dez horas.”
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“Correu um reposteiro de repes vermelho, introduziu Carlos numa sala alta, espaçosa, com papel de ramagens azuis, e duas varandas para a Rua de S. Francisco; e erguendo à pressa os dois transparentes de paninho branco, perguntava a Carlos se Sua Excelência não se lembrava já do Domingos. Quando ele se voltou, risonho, descendo precipitadamente os canhões das mangas, Carlos reconheceu-o pelas suíças ruivas.”
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“Uma sineta badalou. Dâmaso deu logo um abraço terno a Carlos, saltou para o seu vagão, enterrou na cabeça um barretinho de seda — e depois, debruçado da portinhola, continuou ainda as confidências. O que mais o contrariava era deixar aquele arranjinho da Rua de S. Francisco. Que ferro! agora que aquilo ia tão bem, o gajo no Brasil, e ela ali, à mão, a dois passos do Grémio!…”
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“Carlos, só, dentro do coupé, voltando à Baixa, sentia uma alegria triunfante com aquela partida da condessa, e a inesperada jornada do Dâmaso. Era como uma dispersão providencial de todos os importunos: e assim se fazia em torno da Rua de S. Francisco uma solidão — com todos os seus encantos, e todas as suas cumplicidades.”
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“No Cais do Sodré deixou a carruagem, subiu a pé pelo Ferregial, veio passar diante das janelas na Rua de S. Francisco. Só pôde ver uma vaga tira de claridade entre as portadas meio cerradas. Mas isto bastava-lhe. Podia agora imaginar com precisão o serão calmo que ela estava passando na larga sala de repes vermelho. Sabia o nome dos livros que ela lia, e as partituras que tinha sobre o piano; e as flores que espalhavam ali o seu aroma vira-as ele arranjar nessa manhã. Poria ela um instante o seu pensamento nele?”
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“Miss Sara pronunciaria decerto o seu nome. Duas vezes percorreu a Rua de S. Francisco; e recolheu para casa, sob a noite estrelada, devagar, ruminando a doçura daquele grande amor. Então todos os dias, durante semanas, teve essa hora deliciosa, esplêndida, perfeita, «a visita à inglesa».
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“Sabia apenas vagamente que, três dias depois de ela chegar ao Porto, o pai, o velho Thompson, tivera uma apoplexia. Ela lá estava, de enfermeira. Depois, levando duas ou três belas flores do jardim embrulhadas num papel de seda, partia para a Rua de S. Francisco, sempre no seu coupé — porque o tempo mudara, e os dias seguiam-se, tristonhos, cheios de sudoeste e de chuva.
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“Ele tinha-lhe feito assim largamente todas as confissões — e ainda não sabia nada do seu passado, nem mesmo a terra em que nascera, nem sequer a rua que habitava em Paris. Não lhe ouvira murmurar jamais o nome do marido, nem falar de um amigo ou de uma alegria da sua casa. Parecia não ter em França, onde vivia, nem interesses, nem lar — e era realmente como a deusa que ele ideara, sem contactos anteriores com a Terra, descida da sua nuvem de oiro, para vir ter ali, naquele andar alugado da Rua de S. Francisco, o seu primeiro estremecimento humano.”
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“Conservava sempre as suas grandes ideias de trabalho, querendo que no seu dia só houvesse horas nobres — e que aquelas que não pertenciam às puras felicidades do amor, pertencessem às alegrias fortes do estudo. Ia ao laboratório, ajuntava algumas linhas ao seu manuscrito. Mas, antes da visita à Rua de S. Francisco, não podia disciplinar o espírito, inquieto, num tumulto de esperanças; e depois de voltar de lá, passava o dia a recapitular o que ela dissera, o que ele respondera, os seus gestos, a graça de certo sorriso… Fumava então cigarettes, lia os poetas.”
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O amigo que Carlos gostava de ver entrar era o Cruges — que vinha da Rua de S. Francisco, trazia alguma coisa do ar que Maria Eduarda respirava. O maestro sabia que Carlos ia todas as manhãs ao prédio, ver a «miss inglesa»; e muitas vezes, inocentemente, ignorando o interesse de coração com que Carlos o escutava, dava-lhe as últimas notícias da vizinha…”
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“No sábado, com efeito, Carlos, recolhendo ao Ramalhete de volta da Rua de S. Francisco, encontrou o Ega no seu quarto, metido num fato de cheviote claro, e com o cabelo muito crescido. — Não faças espalhafato — gritou-lhe ele — que eu estou em Lisboa incógnito!
E em seguida aos primeiros abraços declarou que vinha a Lisboa, só por alguns dias, unicamente para comer bem e para conversar bem. E contava com Carlos para lhe fornecer esses requintes,
ali, no Ramalhete… — Há cá quarto para mim? Eu por ora estou no Hotel Espanhol, mas ainda nem mesmo abri a mala…”
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“Na tarde seguinte, às cinco horas, Carlos, que se demorara de mais em casa da titi com a condessa, retido pelos seus beijos intermináveis, fez voar o coupé até à Rua de S. Francisco, olhando a cada momento o relógio, num receio de que Maria Eduarda tivesse saído por aquele lindo dia de Verão, luminoso e sem calor. Com efeito, à porta dela estava a carruagem da Companhia; e Carlos galgou as escadas, desesperado com a condessa, sobretudo consigo mesmo, tão fraco, tão passivo, que assim se deixara retomar por aqueles braços exigentes, cada vez mais pesados, e já incapazes de o comover…”
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“Com que alegria, ao deixar os Olivais, correu à Rua de S. Francisco, anunciar a Maria Eduarda que lhe arranjara enfim definitivamente uma linda casa no campo! Rosa, que da varanda o vira apear-se, veio ao seu encontro ao patamar: ele ergueu-a nos braços, entrou assim na sala, com ela ao colo, em triunfo. E não se conteve; foi à pequena que deu logo «a grande novidade», anunciando-lhe que ia ter duas vacas, e uma cabra, e flores, e árvores para se balouçar…
— Onde é? Dize, onde é? — exclamava Rosa, com os lindos olhos resplandecentes, e a facezinha cheia de riso.
— Daqui muito longe… Vai-se numa carruagem… “
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“Mas do outro segredo não sabia nada — e considerava-se ultrajado. Via todas as manhãs Carlos partir para a Rua de S. Francisco, levando flores; via-o chegar de lá, como ele dizia, «besuntado de êxtase»; via-lhe os silêncios repassados de felicidade, e esse indefinido ar, ao mesmo tempo sério e ligeiro, risonho e superior, do homem profundamente amado… E não sabia nada.”
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“Quando chegou à Rua de S. Francisco, resolvera, se visse o Dâmaso, continuar a acenar-lhe, de leve, com a ponta dos dedos.”
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“— Fiquei aqui a dizer ao Ega… É evidente que, quando se trata de paisagem, é necessário copiar a realidade… Não se pode descrever um castanheiro a priori, como se descreveria uma alma… E lá isso faço eu… Aí está esse soneto de Sintra que eu te dediquei, Carlos. É realista, está claro que é realista… Pudera, se é paisagem! Ora, eu vo-lo digo… Ia justamente dizê-lo, quando tu apareceste, Ega… Mas vejam lá vocês se isto os maça… Qual maçava! E até, para o escutarem melhor, penetraram na Rua de S. Francisco, mais silenciosa. Aí, dando um passo lento, depois outro, o poeta murmurou a sua écloga.”
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“Depois de jantar, Carlos vestia-se para ir à Rua de S. Francisco — quando o Baptista veio dizer que o Sr. Teles da Gama lhe desejava falar com urgência. Não o querendo receber, ali, em mangas de camisa, mandou-o entrar para o gabinete escarlate e preto. E veio daí a um instante encontrar Teles da Gama admirando as belas faianças holandesas.”
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“Depois do jantar Carlos percorreu o Figaro, folheou um volume de Byron, bateu carambolas solitárias no bilhar, assobiou malaguenhas no terraço — e terminou por sair, sem destino, para os lados do Aterro. O Ramalhete entristecia-o, assim mudo, apagado, todo aberto ao calor da noite. Mas insensivelmente, fumando, achou-se na Rua de S. Francisco. As janelas de Maria Eduarda estavam também abertas e negras. Subiu ao andar do Cruges. O menino Vitorino não estava em casa…”
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“Craft vinha encantado com Santa Olávia. Nem compreendia como Afonso, beirão forte, tolerava a Rua de S. Francisco e o quintalejo abafado do Ramalhete. Tinha-se passado regiamente! O avô,
cheio de saúde, de uma hospitalidade que lembrava Abraão e a Bíblia. O Sequeira, óptimo, comendo tanto que ficava inútil depois de jantar, a estoirar e a gemer no fundo de uma poltrona.”
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“Mesmo em cabelo foram ver defronte as cocheiras: o guarda-portão ficou de boné na mão, embasbacado para aquela senhora tão linda, tão loira, a primeira que via entrar no Ramalhete! Maria acariciou os cavalos, e fez uma festa grata e mais longa à Tunante, que tantas vezes levara Carlos à Rua de S. Francisco. Ele via nestas simples coisas as graças incomparáveis de uma esposa perfeita.”
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“— São as ridículas cenas da vida… O Sr. Carlos da Maia está daí a ver as coisas. É a velha, a clássica história… Há três anos que eu vivo com essa senhora; quando tive o Inverno passado de ir ao Brasil, trouxe-a a Lisboa para não vir sozinho. Fomos para o Hotel Central. Vossa Excelência compreende perfeitamente que eu não fui fazer confidências ao gerente do estabelecimento. Aquela senhora vinha comigo, dormia comigo, portanto, para todos os efeitos do hotel, era minha mulher. Como mulher de Castro Gomes ficou no Central; como mulher de Castro Gomes alugou depois uma casa na Rua de S. Francisco; como mulher de Castro Gomes tomou enfim um
amante… Deu-se sempre como mulher de Castro Gomes, mesmo nas circunstâncias mais particularmente desagradáveis para Castro Gomes… E, meu Deus!, não podemos realmente condená-la muito… Achava-se por acaso revestida de uma excelente posição social e de um nome puro, seria mais que humano que o seu amor da verdade a levasse, apenas conhecia alguém, a declarar que posição e nome eram de empréstimo e ela era apenas «Fulana de tal, amigada…».”
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“Ergueu-se, com os punhos fechados; e veio-lhe uma revolta furiosa, de todo o seu orgulho, contra essa ingenuidade que o trouxera meses tímido, trémulo, ansioso, seguindo à maneira de uma estrela aquela mulher, que qualquer em Paris, com mil francos no bolso, poderia ter sobre um sofá, fácil e nua! Era horrível! E recordava agora, afogueado de vergonha, a emoção religiosa com que entrava na sala de repes vermelho da Rua de S. Francisco: o encanto enternecido com que via aquelas mãos, que ele julgava as mais castas da Terra, puxarem os fios de lã no bordado, num constante trabalho de mãe laboriosa e recolhida; a veneração espiritual com que se afastava da orla do seu vestido, igual para ele à túnica de uma Virgem cujas pregas rígidas nem a mais rude bestialidade ousaria desmanchar de leve! Oh! imbecil, imbecil!…”
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“Porque escolhera ela precisamente para seu médico, na sua casa e na sua intimidade, o homem
que na rua a fitara com um fulgor de desejo na face? Porque é que nas suas longas conversas, nas manhãs da Rua de S. Francisco, não falara jamais de Paris, dos seus amigos e das coisas da sua casa? Porque é que ao fim de dois meses, sem preparação, sem todas essas progressivas evidências do amor que cresce e desabrocha como uma flor, se lhe abandonara de chofre, toda pronta, apenas ele lhe disse o primeiro «amo-te»?… Porque lhe aceitara uma casa já mobilada, com a facilidade com que lhe aceitava os ramos?”
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“Mas havia a mentira, a mentira inicial, dita no primeiro dia em que fora à Rua de S. Francisco, e que, como um fermento podre, ficava estragando tudo daí por diante: doces conversas, silêncios, passeios, sestas no calor da quinta, murmúrios de beijos morrendo entre os cortinados cor de oiro… Tudo manchado, tudo contaminado por aquela mentira primeira que ela dissera sorrindo, com os seus tranquilos olhos límpidos… “
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“E agora, sem resistência nenhuma do orgulho, fazia perguntas mais íntimas a Melanie. Porque é que Maria Eduarda não lhe dissera a verdade? Melanie encolheu os ombros. Não sabia: nem a senhora sabia! Estivera no Central como Madame Gomes; alugara a casa da Rua de S. Francisco como Madame Gomes; recebera-o como Madame Gomes… E assim se deixara ir, insensivelmente, conversando com ele, gostando dele, vindo para os Olivais…”
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“Madame, desde que o senhor começara a ir todos os dias à Rua de S. Francisco, considerara-se para sempre desligada do Sr. Castro Gomes, nem falava nele, nem queria que se falasse… Antes disso a menina chamava ao Sr. Castro Gomes petit ami. Agora não lhe chamava nada. Tinham-lhe dito que já não havia petit ami…”
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“— Sim, o velho Afonso é granítico…
Por isso Carlos concebera outro plano, mais sagaz: consistia em esconder ao avô o passado de Maria e fazer-lhe conhecer a pessoa de Maria. Casavam secretamente em Itália. Regressavam: ela para a Rua de S. Francisco, ele filialmente para o Ramalhete. Depois Carlos levava o avô a casa da sua boa amiga, que conhecera em Itália, Madame de Mac Gren.”
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“Carlos passeava, olhando os vasos onde os crisântemos* floriam, quando retiniu a sineta do portão. Era o toque do carteiro. Justamente ele escrevera dias antes ao Cruges, perguntando se estaria desocupado, para os primeiros frios de Dezembro, o andar da Rua de S. Francisco: e, esperando carta do maestro, foi abrir, acompanhado por Niniche. Mas o correio, nessa manhã, consistia apenas numa carta do Ega e dois números de jornal cintados — um para ele, outro para «Madame Castro Gomes, na quinta do Sr. Craft, aos Olivais».”
(*indício trágico)
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“<E caiu a espiga ao Maia! Pobre palerma! Ainda assim o sô Maia só apanhou os restos de outro, porque a tipa, já antes de ele se enfeitar, tinha pandegado à larga, aí para a Rua de S. Francisco,
com um rapaz da fina, que safou também, porque cá como nós só aprecia a bela espanhola. Mas não obsta a que o sô Maia seja traste! — Pois se assim é, dissemos nós, cautelinha, porque o Diabo cá tem a sua Corneta preparada para cornetear por esse mundo as façanhas do Maia das conquistas. Ora viva, sô Maia!»”
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“Seguindo devagar pelo Aterro, Ega contou a história da imundície. Fora na véspera à tarde que recebera no Ramalhete a Corneta. Ele já conhecia o papelucho, já privara mesmo com o proprietário e redactor — o Palma, chamado Palma Cavalão para se distinguir de outro benemérito chamado Palma Cavalinho. Compreendeu logo que, se a prosa era do Palma, a inspiração era alheia. O Palma nada sabia de Carlos, nem de Maria, nem da casa da Rua de S. Francisco, nem da Toca… Não era natural que escrevesse por deleite intelectual um documento que só lhe podia render desgostos e bengaladas. O artigo, pois, fora-lhe simplesmente encomendado e pago. No terreno do dinheiro vence sempre quem tem mais dinheiro. Por este sólido princípio correra a procurar o Palma Cavalão no seu antro.
— Também lhe conheces o antro?”
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“Ega encolheu os ombros, deu um risco lento no chão com a bengala. E mais lentamente ainda foi considerando que o inspirador da Corneta devia ser alguém familiar com Castro Gomes; alguém frequentador da Rua de S. Francisco; alguém conhecedor da Toca; alguém que tinha, por ciúme ou vingança, um desejo ferrenho de magoar Carlos; alguém que sabia a história de Maria; e enfim
alguém que era um cobarde…
— Estás a descrever o Dâmaso! — exclamou Carlos, pálido e parando.
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“— Com quê — dizia o Ega continuando a esfregar as mãos, enquanto a tipóia trotava para a Rua de S. Francisco — com quê demolir o nosso Dâmaso?
— Sim, é necessário acabar com esta perseguição. Chega a ser ridículo… E com uma estocada, ou com a carta, temos esse biltre aniquilado por algum tempo. Eu preferia a estocada. Senão deixo-te a ti arranjar os termos de uma carta forte…
— Hás-de ter uma boa carta! — disse o Ega.”
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“Carlos apareceu nessa noite, já tarde, transido de frio, com um monte de bagagens — porque abandonara definitivamente os Olivais. Maria Eduarda regressava também a Lisboa, para o primeiro andar da Rua de S. Francisco, tomado agora por seis meses, tapetado de novo pela mãe Cruges. E Carlos vinha muito impressionado, com profundas saudades da Toca.”
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“Depois de jantar, Carlos pediu ao Ega para ir com ele à Rua de S. Francisco (onde Maria se instalara nessa manhã), levarem a nova da grande obra. Mas encontraram à porta uma carroça descarregando malas; e a senhora, contou o Domingos, que ajudava os carroceiros, estava ainda jantando a um canto da mesa e sem toalha. Com tanta confusão na casa, Ega não quis subir.”
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“Taveira acudiu com o olho brilhante:
— Diz que vamos ter um centrozinho muito mais interessante ainda, na Rua de S. Francisco! Foi o marquês que me disse. Madame Mac Gren vai receber.
Craft não sabia mesmo que ela já tivesse recolhido da Toca.
— Voltou hoje — disse o Ega. — Você ainda não a conhece?…
Encantadora.
— Creio que sim.
O Taveira vira-a de relance no Chiado.”
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“Ao fim do jantar, na Rua de S. Francisco, Ega, que se demorara no corredor a procurar a charuteira pelos bolsos do paletó, entrou na sala, perguntando a Maria, já sentada ao piano:
— Então, definitivamente, Vossa Excelência não vem ao sarau da Trindade?…
Ela voltou-se para dizer, preguiçosamente, por entre a valsa lenta que lhe cantava entre os dedos:
— Não me interessa, estou muito cansada…
— É uma seca — murmurou Carlos do lado, da vasta poltrona onde se estirara consoladamente, fumando, de olhos cerrados.”
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“— E tudo isto — resumiu o Ega — é dar civilização ao país. Positivamente, menino, vamo-nos tornar grandes cidadãos!…
— Se me quiserem erguer uma estátua — disse Carlos alegremente — que seja aqui na Rua de S. Francisco… Que beleza de noite!
Pararam à porta do Teatro da Trindade no momento em que de uma tipóia de praça se apeava um sujeito de barbas de apóstolo, todo de luto, com um chapéu de largas abas recurvas à moda de 1830. Passou junto dos dois amigos sem os ver, recolhendo um troco à bolsa. Mas Ega reconheceu-o.
— É o tio do Dâmaso, o demagogo! Belo tipo!
— E, segundo o Dâmaso, um dos bêbedos da família — lembrou Carlos rindo.
Por cima, de repente, no salão, estalaram grandes palmas. Carlos que dava o paletó ao porteiro, receou que já fosse o Cruges…
— Qual! — disse o Ega. — Aquilo é aplaudir de retórica!
E com efeito, quando pela escada ornada de plantas chegaram ao antessalão, onde dois sujeitos de casaca passeavam em bicos de pés, segredando — sentiram logo um vozeirão túmido, garganteado, provinciano, de vogais arrastadas em canto, invocando, lá do fundo do estrado, «a alma religiosa de Lamartine!…»
— É o Rufino, tem estado soberbo! — murmurou o Teles da Gama, que não passara da porta, com o charuto escondido atrás das costas.
Carlos, sem curiosidade, ficou junto do Teles. Mas Ega, esguio e magro, foi rompendo pela coxia tapetada de vermelho. De ambos os lados se cerravam filas de cabeças, embebidas, enlevadas, atulhando os bancos de palhinha até junto ao tablado, onde dominavam os chapéus de senhoras picados por manchas claras de plumas ou flores.”
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“Mas, a esta ideia de incesto, todas as consequências desse silêncio lhe apareceram, como coisas vivas e pavorosas, flamejando no escuro, diante dos seus olhos. Poderia ele, tranquilamente, testemunhar a vida dos dois desde que a sabia incestuosa? Ir à Rua de S. Francisco, sentar-se-lhes alegremente à mesa, entrever, através do reposteiro, a cama em que ambos dormiam — e saber que esta sordidez de pecado era obra do seu silêncio? Não podia ser… Mas teria também coragem de entrar, ao outro dia, no quarto de Carlos, e dizer-lhe em face: «Olha que tu és amante de tua irmã»?”
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“Um reflexo de espelho alvejou ao fundo na sombra da alcova. E a luz caiu sobre o leito intacto, com a sua longa colcha lisa, entre os cortinados de seda. Então a ideia que Carlos estava àquela hora na Rua de S. Francisco, dormindo com uma mulher que era sua irmã, atravessou-o com uma cruel nitidez, numa imagem material, tão viva e real, que ele viu-os claramente, de braços enlaçados, e em camisa… Toda a beleza de Maria, todo o requinte de Carlos, desapareciam. Ficavam só dois animais, nascidos do mesmo ventre, juntando-se a um canto como cães, sob o
impulso bruto do cio!”
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“De repente a porta abriu-se, Carlos apareceu exclamando:
— Então que madrugada foi esta? Disse-me agora lá em baixo o Baptista… É aventura, duelo?
Trazia o paletó todo abotoado, com a gola erguida, escondendo ainda a gravata branca da véspera; e, decerto, chegara da Rua de S. Francisco na tipóia que, havia instantes, Ega sentira parar na calçada.”
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“Em todo o caso, concluiu o Ega, eram ociosas mais conversas. Os outros papéis da caixa perdiam o interesse, depois daquela confissão da Monforte. Só restava que Vilaça aparecesse à noite no Ramalhete, às oito e meia, ou nove horas, antes de Carlos sair para a Rua de S. Francisco.
— Mas o amigo há-de lá estar! — exclamou o procurador, já aterrado.
Ega prometeu. Vilaça teve um pequeno suspiro. Depois, no patamar, onde viera acompanhar o outro:
— Uma destas, uma destas!… E eu, ainda tão contente, a jantar
no Ramalhete…
— E eu, com eles, na Rua de S. Francisco!…
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“Ega foi dali aos quartos de Carlos. As velas ardiam ainda nasserpentinas: um aroma errava, de água de Lubin e charuto: e o Baptista disse-lhe que o Sr. D. Carlos «saíra havia dez minutos».
Fora para a Rua de S. Francisco! Ia lá dormir! Então enervado, com a longa e triste noite diante de si, Ega teve um apetite de se atordoar, dissipar numa excitação forte as ideias que o torturavam.
Não despedira a tipóia, abalou para S. Carlos.”
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“— Há uma coisa extraordinária, avô! O avô talvez saiba… O avô deve saber alguma coisa que nos tire desta aflição!… Aqui está, em duas palavras. Eu conheço aí uma senhora que chegou há tempos a Lisboa, mora na Rua de S. Francisco. Agora, de repente, descobre- se que é minha irmã legítima!. .. Passou aí um homem que a conhecia, que tinha uns papéis… Os papéis aí estão. São cartas, uma declaração de minha mãe… Enfim, uma trapalhada, um montão de provas… Que significa tudo isto? Essa minha irmã, a que foi levada em pequena, não morreu?… O avô deve saber!”
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“— Aqui tem o avô a declaração da minha mãe.
O velho levou muito tempo a procurar, a tirar a luneta de entre o colete, com os seus pobres dedos que tremiam; leu o papel devagar, empalidecendo mais a cada linha, respirando penosamente; ao
findar deixou cair sobre os joelhos as mãos, que ainda agarravam o papel, ficou como esmagado e sem força. As palavras por fim vieram- lhe apagadas, morosas. Ele nada sabia… O que a Monforte ali assegurava, ele não o podia destruir… Essa senhora da Rua de S. Francisco era talvez, na verdade, sua neta… Não sabia mais…”
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“Afonso apoiou-se nele, pesadamente. Atravessaram a antecâmara silenciosa, onde a chuva contínua batia os vidros. Por detrás deles caiu o grande reposteiro, com as armas dos Maias. E então Afonso, de repente, soltando o braço do Ega, murmurou-lhe junto à face, no desabafo de toda a sua dor:
— Eu sabia dessa mulher!… Vive na Rua de S. Francisco, passou todo o Verão nos Olivais… É a amante dele!
Ega ainda balbuciou: «Não, não, Sr. Afonso da Maia.”
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“Ia à Rua de S. Francisco.
Mas não se apressava, a pé pelo Aterro, abafado num paletó de peles, acabando o charuto. A noite clareara, com um crescente de Lua entre farrapos de nuvens brancas, que fugiam sob um norte fino. Fora nessa tarde, só no seu quarto, que Carlos decidira ir falar a Maria Eduarda — por um motivo supremo de dignidade e de razão, que ele descobrira e que repetia a si mesmo, incessantemente,para se justificar. Nem ela nem ele eram duas crianças frouxas, necessitando que a crise mais temerosa da sua vida lhes fosse resolvida e arranjada pelo Ega ou pelo Vilaça: mas duas pessoas fortes, com o ânimo bastante resoluto, e o juízo bastante seguro, para eles mesmos acharem o caminho da dignidade e da razão naquela catástrofe que lhes desmantelava a existência. Por isso ele, só ele, devia ir à Rua de S. Francisco.
Decerto era terrível tornar a vê-la naquela sala, quente ainda do seu amor, agora que a sabia sua irmã… Mas porque não?”
*
“E achara um por fim, bem complicado, bem cobarde! Mas quê! Era o único, o único que, por uma preparação lenta, caridosa, lhe pouparia uma dor fulminante e brutal. E esse meio justamente só era praticável indo ele, com toda a frieza, com todo o ânimo, à Rua de S. Francisco. Por isso ia — e ao longo do Aterro, retardando os passos, resumia, retocava esse plano, ensaiando mesmo consigo, baixo, palavras que lhe diria.”
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“Aquilo parecia-lhe extraordinário! Carlos passeando a cavalo, Carlos jantando com o marquês, como se nada houvesse perturbado a sua vida fácil de rapaz feliz!… Estava agora certo de que ele, na véspera, fora à Rua de S. Francisco. Justos Céus! Que se teria lá passado? Subiu, ouvindo a sineta do almoço. O escudeiro anunciou-lhe que o Sr. Afonso da Maia tomara uma chávena de chá
no quarto e ainda estava recolhido. Todos sumidos!”
*
“Ele ficou a olhar estupidamente para aquela colcha lisa, com a dobra do lençol de renda cuidadosamente entreaberta pelo Baptista. E agora não duvidava. Carlos fora findar a noite à Rua de S. Francisco!… Estava lá, dormia lá! E só uma ideia surgia através do seu horror — fugir, safar-se para Celorico, não ser testemunha daquela incomparável infâmia!…”
*
“Nessa madrugada, às quatro horas, em plena escuridão, Carlos cerrara de manso o portão da Rua de S. Francisco. E, mais pungente, apoderava-se dele, na frialdade da rua, o medo que já o
roçara, ao vestir-se na penumbra do quarto, ao lado de Maria adormecida — o medo de voltar ao Ramalhete! Era esse medo que já na véspera o trouxera todo o dia por fora no dog-cart, findando por jantar lugubremente com o Cruges, escondido num gabinete do Augusto. Era medo do avô, medo do Ega, medo do Vilaça; medo daquela sineta do jantar que os chamava, os juntava; medo do seu quarto, onde a cada momento qualquer deles podia erguer o reposteiro, entrar, cravar os olhos na sua alma e no seu segredo…”
*
“Em silêncio, Ega tomou a pena, redigiu um bilhete muito curto. Dizia: «Minha senhora. O Sr. Afonso da Maia morreu esta madrugada, de repente, com uma apoplexia. Vossa Excelência compreende que, neste momento, Carlos nada mais pode do que pedir-me para eu transmitir a Vossa Excelência esta desgraçada notícia. Creia-me, etc.» Não o leu a Carlos. E como Baptista
entrava nesse momento, todo de preto, com o almoço numa bandeja, Ega pediu-lhe para mandar o trintanário com aquele bilhete à Rua de S. Francisco.”
*
“Carlos não sabia. Contava que Ega, terminada essa missão à Rua de S. Francisco, fosse aborrecer-se uns dias com ele a Santa Olávia. Mais tarde era necessário trasladar para lá o corpo do avô…
— E passado isso, vou viajar… Vou à América, vou ao Japão, vou fazer esta coisa estúpida e sempre eficaz que se chama distrair…
Encolheu os ombros, foi devagar até à janela, onde morria palidamente um raio de Sol na tarde que clareara. Depois, voltando para o Ega, que de novo remexia os carvões:
— Eu, está claro, não me atrevo a dizer-te que venhas, Ega… Desejava bem, mas não me atrevo!”
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“No dia seguinte, levando os papéis da Monforte e o dinheiro em letras e libras que Vilaça lhe entregara à porta do Banco de Portugal, Ega, com o coração aos pulos, mas decidido a ser forte, a afrontar a crise serenamente, subiu ao primeiro andar da Rua de S. Francisco. O Domingos, de gravata preta, movendo-se em pontas de pés, abriu o reposteiro da sala. E Ega pousara apenas sobre o sofá a velha caixa de charutos da Monforte — quando Maria Eduarda entrou, pálida, toda coberta de negro, estendendo-lhe as mãos ambas.”
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A Soma dos Dias
Hotel Lawrence