- Os Maias em língua chinesa

OS MAIAS EM LÍNGUA CHINESA


 

João C. REIS

(Universidade da Ásia Oriental)

“Cem anos depois, desde a primeira edição, as rotativas ainda não deixaram de imprimir um livro que muito se popularizou, e universaliza, traduzido nos principais idiomas do mundo.

A tradução d’Os Maias em língua chinesa (120 000 exemplares) fica a dever-se ao Instituto Cultural de Macau e ao empenhamento do seu Presidente, Dr. Jorge Morbey, por acaso, ainda familiar do Escritor – segue-se a edição experimental de 70 000 exemplares de O Crime do Padre Amaro esgotada em poucas semanas na República Popular da China.

Contrariamente ao que da primeira vez foi feito, utilizando-se para a respectiva translação uma versão em língua inglesa. Os Maias serão vertidos directamente do texto original de Queirós. É possível que destas circunstâncias não resultem acentuadas diferenças de qualidade literária, já que a arquitectura semasiológica da língua chinesa obrigando ao recurso frequente de aproximações perifrásticas – passe o pleonasmo – nem sempre, e nem sempre bem, por dissonâncias inevitáveis e incompatibilidades possíveis, se identifica com os textos originais.

Não seja, por isso, entretanto, que se deixe de louvar a iniciativa, e de nos regozijarmos com esta divulgação dos livros de Eça de Queirós à escala de um país como a China. Por mais que possamos ficar susceptibilizados com a crueza de algumas imprecisões semânticas, ou desvios na estética literária, não há que descurar a importância de um projecto que coloca Eça de Queirós e a Literatura Portuguesa dentro, e ao alcance, da mais vasta comunidade humana deste planeta. (…)

De acordo com os nossos padrões e sensibilidades culturais, é possível verificarem-se certos desfasamentos teciduais, enfraquecimento estrutural de um texto que todos temos por perfeito.

Algumas discrepâncias, com efeito, por mal ajustada sinonimação, ou por inadequação de uma morfologia ideográfica de significado não variável e, sobretudo, por uma diferenciada estrutura sintáctica, típica da escrita simbólica e metafórica chinesa, terão contribuído para a notória descaracterização de certas passagens menos fáceis, talvez mais pronunciada e expressiva na retroversão, isto é, na tradução da tradução, do que na tradução propriamente dita. (…)

Por exemplo:

  • piano de cauda / piano de três pés.

*

  • “três belos lírios brancos que iam murchando num vaso do Japão” / “numa jarra japonesa estavam já murchos os três lírios brancos”

*

  • “E parecia errar ali, acariciando a ordem das coisas, e marcando-lhe um encanto particular, aquele indefinido perfume que Carlos já sentira nos quartos do hotel Central, e em que dominava o jasmim.” / “Carlos sem poder conter-se, começou a acariciar suavemente estes pequenos adornos,dando-lhes mais alguma força de atracção. Aquele cheiro de água-de-colónia, com um aroma de jasmim, também lhe era conhecido do Hotel Central.”

*

  • “Os cabelos (de Maria Eduarda) não eram louros, como julgara, de longe, à claridade do sol, mas de meios-tons, castanho claro e castanho escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa.” / “Antes, sob a luz do sol, Carlos achava que ela tinha cabelos louros. Na realidade, porém, era uma suave mistura de castanho escuro com um castanho claro. O penteado, levemente ondeado, caía-lhe na testa, e o seu olhar era sereno e brando.”

*

  • “Voltou-se e viu Maria Eduarda diante de si. Foi como uma inesperada aparição – e vergou profundamente os ombros, menos a saudá-la que a esconder a tumultuosa onda de sangue que sentia abrasar-lhe o rosto.” / “Carlos voltou-se e tinha Maria Eduarda já à sua frente. A aparição dela foi tão surpreendente que ele deu um forte acolhimento de ombros, não para cumprimentá-la, mas sim para encobrir o sangue ardente que lhe afluía ao rosto.”

.

Ao trazer aqui esta tradução, não com outro intuito senão de o dar a conhecer, em primeira mão, uma curiosidade associada a Os Maias, sei que estou a correr o risco de, com ela, poder ofender a sensibilidade do queirosiano, mesmo do menos exigente. Devo, no entanto, recordar que nem este trecho, como frisei, nem o que vai sendo traduzido, foi ainda objecto de qualquer revisão. Nem sequer de esclarecimento de algumas passagens mais difíceis da escrita original, que, inclusivamente, possam ter conduzido a uma outra interpretação menos feliz, susceptível, por isso, de eventual correcção, ou aperfeiçoamento.

Existe, como já foi dito, da parte de quem tomou, sob os seus auspícios, a iniciativa deste projecto meritório, e, tanto quanto julgo sabê-lo, da pessoa encarregada da respectiva tradução, o propósito e o maior empenhamento no sentido de dignificar, até ao mais elevado grau de apuro e de responsabilidade, a obra-mestra de Eça de Queirós – de modo a fazer entrar na China, num circuito cultural, à partida, de mais de cem mil pessoas, um trabalho limpo, que condignamente ali preserve a qualidade da obra e a memória de um dos maiores escritores europeus do século XIX e da Literatura Portuguesa.”

(in Eça e Os Maias, 1988)

Deixar uma resposta

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 137 outros seguidores