“Craft achava o fiasco justo. Para que fora ele (Cruges) dar Beethoven a uma gente educada pela chulice de Offenbach? Mas Ega não admitia esse desdém por Offenbach, uma das mais finas manifestações modernas do ceptisimo e da ironia!” (Os Maias, p.650, Ed. Livros do Brasil)
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“Mas a grande ‘topada sentimental de Carlos, como disse o Ega, foi quando ele, ao fim de umas férias, trouxe de Lisboa uma soberba rapariga espanhola, e a instalou numa casa ao pé de Celas. Chamava-se Encarnacion. Carlos alugou-lhe ao mês uma vitória com um cavalo branco e Encarnacion fanatizou Coimbra como a aparição de uma Dama das Camélias, uma flor de luxo das civilizações superiores. Pela Calçada, pela estrada da Beira, os rapazes parávam, pálidos de emoção, quando ela passava reclinada na vitória, mostrando o sapato de cetim, um pouco da meia de seda, lânguida e desdenhosa, com um cãozinho branco no regaço.” (Os Maias, p.94, Ed. Livros do Brasil)
A obra A Dama das Camélias tem referências autobiográficas e conta os encontros e desencontros de um amor impossível vivido por Dumas Filho, o talentoso filho ilegítimo de Alexandre Dumas, célebre pelas aventuras de Os Três Mosqueteiros. Dumas Filho soube dramatizar suas experiências, agregando fabulações do popular à requintada e frívola vida da elite burguesa, criando um melodrama clássico na história do teatro. Desde a estreia, A Dama das Camélias ficou num meio termo entre o drama romântico apresentado na Comédia Francesa para a elite, e os melodramas apresentados para a massa nos teatros de boulevards.
A tradicional Dama das Camélias conta a história de uma elegante cortesã francesa, em meados do século XIX, que encanta Paris com a sua beleza, as suas artimanhas no amor e no sexo, a sua vida luxuosa e perdulária, mantida por ricos progenitores da emergente burguesia urbana. As mulheres “teúdas e manteúdas” eram a vaidade em vitrine dos senhores proprietários. A Dama das Camélias e Armand vivem uma grande paixão impossível pela segregação social da sociedade burguesa classista. O pai de Armand trama a separação e convence a Dama das Camélias que aquela relação é uma ruína para a família e para o futuro do filho. A Dama comove-se. Num acto de nobreza incomum, renuncia a Armand e, resignada com o seu infortúnio, fica reconhecida, pela sociedade, como a cortesã mais honesta, humana, e guardiã da falsa moral burguesa.
Na peça de Dumas, em cinco atos divididos em episódios, a pressão é social: ela não pode ficar com um homem de família nobre. Essa cortesã é inspirada numa mulher real, exercendo até hoje um fascínio em todo o mundo. No fundo, é um livro moral, apesar da temática ousada ainda hoje. A personagem não tem máscaras. Vive à custa de homens. Mas é transformada pelo amor.
Com um sentimento verdadeiro, encontra forças interiores para se redimir como pessoa. A discussão moral e ética do livro é, enfim, resumida pelo sentimento do autor, que norteia todo o romance: se Jesus perdoou Maria Madalena, por que não podemos perdoar as mulheres como elas?
O narrador do romance é o confidente de Armand Duval, que o conhece quando Marguerite já está morta. Esse narrador cede a palavra a diversos outros personagens, que se incumbem de reconstruir o passado dos amantes. A narrativa é composta não linearmente pelos sucessivos relatos de Armand, pela reprodução das cartas escritas pelo casal e pela apresentação do diário dos últimos dias da cortesã, finalizado por sua amiga Julie Duprat.
Existe uma ironia velada na história, parcialmente autobiográfica, que pode ter sua origem na mágoa do autor: Dumas Filho (Armand, na peça) é na vida real bastardo, o seu senso de justiça social, a sua necessidade de proteger e salvar a Dama das Camélias remete às suas relações paternais/maternais conflituosas. Por outro lado, na relação amorosa de Armand, pode-se caracterizar um tipo especial de escolha de objecto feita pelos homens: o “amor à prostituta”, que pode variar “dentro de limites substanciais, do leve murmúrio de escândalo a respeito de uma mulher casada que não seja avessa a namoricos, até o modo de vida francamente promíscuo de uma cocotte ou uma profissional na arte do amor”.
O mito central de A Dama das Camélias “não é o amor, é o reconhecimento: a Dama, Marguerite, ama para ser reconhecida e, a esse título a paixão provém inteiramente de outrém”. As encenações, os conflitos, os equívocos e as vilanias que popularizaram a Dama não são de ordem psicológica, são, sim, sintomas do corpo social, são duas paixões de zonas diferentes da sociedade. O amor de Armand é o tipo de amor burguês, segregativo, apropriativo. O amor da Dama é o postulado de ser reconhecida, que culmina quando renuncia a ele, ou “assassina a paixão de Armand”, para eternamente ter o reconhecimento do mundo dos senhores.

Eurico, nobre gardingo, mas sem bens de fortuna, fora impedido de casar com Hermengarda, filha do orgulhoso Fábila. Trocou então a armadura de guerreiro valente que era, pela batina de sacerdote. Dedicou-se à vida paroquial em Carteia, terreola insignificante, situada nas proximidades de Gibraltar.
Os primeiros capítulos do romance, em bela prosa poética, são desabafos do coração do presbítero. Solitário, vagueia enregelado, altas horas da noite, pelas ribas do oceano. Lamenta a sua infelicidade amorosa e a condição decadente da sociedade goda. Prevê o avanço de nuvens negras sobre a Espanha cristã. O futuro de todos aparece-lhe desesperadamente sombrio.
Dá-se a invasão árabe. Nas hostes cristãs em debandada, sobressai o heroísmo do “cavaleiro negro”, que ninguém sabe quem é.
Hermengarda, a filha do altivo Fábila, é aprisionada, quando fugia para as Astúrias com os últimos cristãos resistentes, comandados por seu irmão Pelágio, derradeira esperança dos Godos. Prestes a ser desonrada pelo comandante dos exércitos árabes, é salva espectularmente pelo “cavaleiro negro” e conduzida até Covadonga.
Os Árabes sofrem aí a primeira derrota e os cristão cantam vitória pela primeira vez. Após esse dia maravilhoso, todos descansam. O “cavaleiro negro” – espanto dos Mouros e admiração dos Cristãos – identifica-se perante Hermengarda, que cai, louca de amor, em seus braços e lhe pede para no dia seguinte casar com ela. É Eurico, seu antigo noivo… Lembrando-se a tempo de que é sacerdote, o “cavaleiro negro”, ululando como um leão ferido, desaparece, para não mais ser visto, e vai oferecer-se à morte, numa luta escusada com os últimos fugitivos do exército mourisco. Hermengarda enlouquece.
“(…) também ele (Carlos) terminou por se enredar num episódio romântico com a mulher de um empregado do Governo Civil. (…) Infelizmente a rapariga tinha o nome bárbaro de Hermengarda; e os amigos de Carlos, descoberto o segredo, chamavam-lhe já “Eurico, o Presbítero“, dirigiam para Celas missivas pelo correio com este nome odioso.” (Os Maias, p.93, ed. Livros do Brasil)
“Depois, daí a duas semanas, Alencar, entrando em S. Carlos ao fim do primeiro acto do ‘Barbeiro‘, ficou assombrado ao ver Pedro da Maia instalado na frisa do Monforte, à frente, ao lado de Maria, com uma camélia escarlate na casaca - igual às de um ramo pousado no rebordo de veludo.” (Os Maias, p.26, Ed. Livros do Brasil)
Constable
“No salão nobre os móveis de brocado, cor de musgo, estavam embrulhados em lençóis de algodão, com amortalhados, exalando um cheiro de múmia a terebentina e cânfora. e no chão, na tela de Constable, encostada à parede, a condessa de Runa, erguendo o seu vestido escarlate de caçadora inglesa, parecia ir dar um passo, sair do caixilho dourado, para partir também, consumar a dispersão da sua raça…” (Os Maias, p.707, Ed. Livros do Brasil)

Proudhon
“ ’ – Vossa excelência decerto, sr. Sousa Neto, sabe o que diz Proudhon? O outro, muito secamente, não gostando decerto daquele interrogatório, murmurou que Proudhon era um autor de muita nomeada. Mas o Ega insistia com uma impertinência pérfida: ‘ – Em todo o caso Vossa Excelência leu evidentemente como nós todos, as grandes páginas de Proudhon sobre o amor?’ O sr. Sousa Neto, já vermelho, pousou a chávena sobre a mesa. E quis ser sarcástico, esmagar aquele moço tão literário, tão audaz. ‘ – Não sabia’ – disse ele com um sorriso infinitamente superior – ‘ que esse filósofo tivesse escrito sobre assuntos escabrosos!’ ” (Os Maias, p. 398, Ed. Livros do Brasil)

Verlaine
e, para isso, prefere o Ímpar
mais vago e mais solúvel no ar,
sem nada que pese ou que pouse.
E preciso também que não vás nunca
escolher tuas palavras em ambiguidade:
nada mais caro que a canção cinzenta
onde o Indeciso se junta ao Preciso.
São belos olhos atrás dos véus,
é o grande dia trémulo de meio-dia,
é, através do céu morno de outono,
o azul desordenado das claras estrelas!
Porque nós ainda queremos o Matiz,
nada de Cor, nada a não ser o matiz!
Oh! O matiz único que liga
o sonho ao sonho e a flauta à trompa.
Foge para longe da Piada assassina,
do Espírito cruel e do Riso impuro
que fazem chorar os olhos do Azul
e todo esse alho de baixa cozinha!
Toma a eloqüência e torce-lhe o pescoço!
Tu farás bem, já que começaste,
em tornar a rima um pouco razoável.
Se não a vigiarmos, até onde ela irá?
Oh! Quem dirá os malefícios da Rima?
Que criança surda ou que negro louco
nos forjou esta jóia barata
que soa oca e falsa sob a lima?
Ainda e sempre, música!
Que teu verso seja um bom acontecimento
esparso no vento crispado da manhã
que vai florindo a hortelã e o timo…
E tudo o mais é só literatura.”

Noite de S. Bartolomeu, de François Dubois
Grupo de seguidores da religião protestante que se tornou o centro das disputas políticas e religiosas na França nos séc. XVI e XVII. Os huguenotes acreditavam nos ensinamentos de João Calvino e eram membros da Igreja Reformada. Os católicos franceses lhes deram esse nome, baseando-se provavelmente no de Besançon Hugues, líder religioso suíço.
No reinado de Henrique II (1547-1559), os huguenotes formaram um grupo político numeroso e influente na França. À medida que se tornavam mais fortes, mais eram perseguidos pelo governo católico. Grandes personalidades do cenário político internacional, como António (rei de Navarra), Luís I de Bourbon de Condé e o almirante Gaspar de Coligny eram huguenotes. A família Guise liderava o grupo católico e exerceu forte influência sobre o rei Francisco II, filho de Henrique, contra os huguenotes.
“Nessa noite, em S. Carlos, no entreacto dos “Huguenotes“, Ega apresentou-o (Carlos) ao senhor conde de Gouvarinho, no corredor das frisas.” (Os Maias, p.141, Ed. Livros do Brasil)
“Ela (Maria Eduarda) veio a Paris procurar notícias de Mac Gren; na Rue Royale teve de se refugiar num portão, diante do tumulto de um povo em delírio, aclamando, cantando a “Marselhesa”, em torno de uma caleche onde ia um homem, pálido como cera, com um cache-nez escarlate ao pescoço. E um sujeito ao lado, aterrado, disse-lhe que o povo fora buscar Rochefort à prisão e que estava proclamada a República.” (Os Maias, p.511, Ed. Livros do Brasil)
” – Deixa a Maria tocar umas notas do “Hamlet”. (…) Então Ega, cedendo a todo aquele aconchego tépido e amável, enterrou-se no sofá com o charuto, para escutar a canção de “Ofélia”, de que Maria já murmurava baixo as palavras cismadoras e tristes: “Pûle et blonde, /Dort sous l’eau profonde…”. (Os Maias, p.583, Ed. Livros do Brasil)
A Soma dos Dias
Hotel Lawrence