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“O Brasil é um lugar muito perigoso. Perigoso não por causa de bandido dando tiro na favela ou de assalto e arrastão. Perigoso por causa da língua. Do modo redondo e rotundo, aberto e gargalhado, cantado e rolado como a língua portuguesa é falada aqui. Pergunto-me quanto tempo duraria numa cidade como o Rio (que faz no dia em que escrevo 444 anos, com festa e bolo de aniversário de 4.44 metros oferecido no Cristo Redentor) o meu português clássico, aprumado e cheio de regras e consoantes mudas e cês cedilhados, o nosso belo e excelso português engravatado, bebido e comido em Eça, Cesário, Pessoa e O’Neill. Ou noutros, os autores e livros que definem a língua que falamos e escrevemos. O pior é que essa bela herança chega ao Brasil e se desata como um corsete; é como quem rebenta os colchetes e abre as fitas e fivelas e desaperta os nós e respira fundo. A oralidade é o diabo.
Começo por abrir as vogais como quem vai abrindo caixinhas chinesas e em breve adiro ao domínio absoluto da vogal sobre a consoante. Absoluto, por exemplo, que em português de Portugal é uma palavra absolutamente dependente da consoante, aquele b vincado, aquele s sibilado, aquele t fechado, aqui vira (vira é fica), aqui fica uma palavra absolutamente livre e absolvida do pecado da boca franzida na pronúncia. Isto é um perigo, rapidamente a língua de Portugal vai embora e se deixa seduzir e substituir pela língua do Brasil, que sendo portuguesa é tão brasileira como o Carnaval. Eu acho que é o calor dos trópicos que faz abrir as vogais desbragadas e adoçar as arestas dos verbos. A língua solta-se do mesmo modo que a pessoa se solta. (…)
Nós, os portugueses. Autores originais da língua. os mesmos que deram à luz esta gente doida que abre as vogais e a cabeça e rebenta de folia. Que ironia. O génio português está por aí algures, nessa miscigenação. O Brasil é muito perigoso, porque o português vira alegre. Crioulo. Índio. Mulato.
Ao cabo de dias de furiosa resistência a palavras estrogonofe e mocotó, grana e sacapo, enredo e maluquice, sambista e balconista, cachê e batizado, laquês e paetês, bagunça e bagaceira, prêmio e boêmio, curtido e planejado, papo e cachorro, paquera e rabada (uma comida), bebê e termômetro, sujeito grosso e criador de caso, tomar um porre e pegar um bode (danados os dois), a gente acaba por abrir (abrindo) as vogais e as deixar (deixando) de pegar no vocabulário com pinças, arrastando as sílabas das frases na pronúncia brasileira.
O mesmo se passa com o Acordo Ortográfico. No princípio resisti, com algumas das razões apontadas pelos resistentes ao Acordo, razões misturadas com a resistência à imposição no território fluido das línguas e respetivas grafias. Nenhum Acordo seria perfeito e agradaria a todos os falantes e utilizadores da língua portuguesa. Com o tempo e a computação, o domínio da língua escrita e falada em mensagem de computador e simplificada pelos outlets digitais e eletrónicos, a uniformização da grafia só pode beneficiar a língua e promover o seu prestígio e divulgação, facilitando as relações da nossa língua comum com as línguas mais usadas e faladas. Sou a favor do Acordo. Com a ressalva de que entendo a violência inicial em passar de óptimo a ótimo e de baptista a batista, ficando o português de Portugal um pouco sob a alçada do Brasil. E nem podia ser diferente, dada a diferença de escala. Eles são quase 190 milhões, fora as reverberações do português falado em África ou nas comunidades de imigrantes. Nos resíduos de Macau e Timor. O Acordo não é óptimo. Talvez seja ótimo, e a ele nos habituaremos, sobretudo os escritores, quem mais sofre com a violência do clássico despindo a gravata e o colete.
O Brasil arrasta-nos. O verdadeiro perigo é o de chegar aqui e ficar pronunciando gerúndios com sotaque de Chico e Caetano, Vinícius e Jobim. Fora daqui, o nosso português fica como é. Bonito, às vezes um pouco triste, um pouco chato (basta ver um congresso de partido político). Às vezes picuinhas. Vernáculo. Encovado. E agora vou subir no Corcovado.
(Clara Ferreira Alves, Expresso, 7.3.2009)

A Soma dos Dias
Hotel Lawrence
Comentários
Clarinha, (carinho brasileiro)
Te adoro sabia?
Sou filho de portugueses imigrantes e nasci no Brasil, no Rio de Janeiro onde me criei.
Não questiono nossa língua pátria, para mim, dá igual se os “C”, “B”, “D”etc… serão executados e desaparecerão. O que realmente me importa é que nossa língua pátria, seja mais feliz, sonora, alegre, leve, simpática, agradável de ouvir e aceita por todos os povos lusófonos.
Na verdade, é triste ter sangue 100% português e pelo fato do sotaque ser brasileiro, ser discriminado e verificar diariamente rompantes de xenofobia de meu próprio povo.
Dói verificar que somos gentis e carinhosos com os portugueses que chegam ao Brasil, que temos o maior prazer em promover a integração dos mesmos na vida diária brasileira e rapidamente os colocamos dentro de nossas casas sob a condição de amigos, enquanto que aqui, somos discriminados, uma grande maioria nos olha com uma desconfiança desmedida e outros simplesmente defendem a aplicação de rótulos cruéis e generalistas a todos nós.
Espero que o tempo corrija, este que é o maior desacordo da língua portuguesa.
Li o seu comentário. Talvez nem tudo seja assim tão “clarinho” como apresenta… =))
Estimada Teresa,
Agradeço por responder à única postagem que recebeste até hoje.
Em nada fiquei surpreso com sua opinião, pois a mesma vem a endossar tudo o que eu havia dito.
Este blog não é um espaço de debate, mas de consulta e de estudo. O facto de referir que a sua foi a “única postagem” que recebi, em nada altera a finalidade deste espaço. Eu encontro os meus alunos diariamente. =))